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sexta-feira, 9 de junho de 2017

#EIS A FRALDA DA MONTANHA ONDE A CONTEMPLAÇÃO DO PARA SEMPRE E O JAMAIS RESGATA A MÃO FRESCA DA NOITE# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Apanho em flagrante a linha que é o verdadeiro nome para o frontispício de uma rocha sólida. O sentimento de plenitude de vida, provável, mas inda não atingido, deixa-se, por vezes, entrever, lega-me o ensejo de vislumbrar, e torna a voltar em meio a essas eternas represálias, esforços ansiosos por murmurar uma nitidez delicada. Poder sentir-me seguro. Sobretudo servem de testemunhos para re-presentar de forma talvez mais significativa.
A figuração de jogos e prazer, de achaques e medos, de amores e de traições – força enfim que modela não esse que sou quotidianamente, mas o possível, o constantemente inatingido, que persigo como se acompanha o rastro de um amor que se não persegue, o féretro de um íntimo que não deixou só lembranças e saudades, que se deixou no mundo.
Vida-viagem-tempo trazem em seu bojo, se se quiser, alforje uma contraparte, que, des-velada, integra inda mais o sentido real que trans-portam. Essa viagem, alfim, é uma antiviagem e se afirma por suas dialéticas.
Conquanto , não é possível desconhecer a pedra. Mudo-a de lugar, mudando os passos. Seja como for, existirá enquanto houver homens que a sentem de por baixo dos pés. No momento, a pedra apóia o desejo de compreensão e entendimento; sempre, faz-se necessário olhar para as pedras e os passos, passos em falso resultam em queda, posso cuidar disso, com destreza e perspicácia, evito as quedas. Mudar os passos é a função e responsabilidade, merecimento e dom, dos homens; é necessário escolher entre realiza-los ou nada fazer, sentar-me na pedra e observar as águas batendo nas pedras; o sol, o vento leve, a inclemente tonalidade azul do céu, tudo já me permite imaginar a doçura do anoitecer.
Às vezes, sinto-me perdido no meio de um sorriso. Não faço sucumbir a palavra ao fosso onde a fralda da montanha se banha nas ondas, onde enterraram a carne. O fio de luz plenificou-se no barítono da morte. O medo de persistir atiçou impressões da arte, trazendo o riso da coincidência, a coragem de persistir eriçou os pelos dos braços do desejo da beleza e do Belo. No outono, antes de primavera outra, o olhar não intimidava nem retorcia no tempo conjugado do verbo, preenchendo o vazio das respostas às perguntas que perpassam o espelhar os projetos superpostos na indagação. No in-verno, antes de qualquer verão outro, o con-templar não perscrutava nem perquiria se o tempo devorava a si mesmo e, como Chronos, se alimenta do que gera.
Os raios solares não me atingem; a poeira ainda não se alevanta da estrada, após a chuvinha desta madrugada, chuvinha fininha, quase que uma simples garoa, chuvinha de início de primavera; eis a fralda da montanha onde a con-templação do para sempre e o jamais resgata a mão fresca da noite sobre um coração sedento da beleza e do belo; o espírito se une aos apóstolos adormecidos e os sancionam; e o refúgio coberto de erva convém melhor a um rapaz do que um leito de penas. A nascente murmura lânguida a meu lado. Estaria realmente equivocado? Seja como for, tive sua revelação.


As estrelas velam o ossuário da terra onde a fralda da montanha se banha nas ondas...


(**RIO DE JANEIRO**, 10 DE JUNHO DE 2017)


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