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segunda-feira, 19 de junho de 2017

Maria Isabel Cunha ESCRITORA E POETISA COMENTA O AFORISMO /**O OUTRO NÃO ANDA NOS MEUS SAPATOS**/


O Eu e o outro! Há tanto para dizer sobre o autor que busca incessantemente pelo significado do Ser! Conhecer-se a si próprio, tarefa árdua, mas muito mais complexo é fundamentar o Ser, a existência, porquê e para quê existir? E como existente, donde vim e para onde vou, qual o caminho a seguir? O Outro é outro ser totalmente diferente e indiferente ou não, mas exterior ao eu. Excelente texto, escritor Manoel Ferreira Neto.


Maria Isabel Cunha


#O OUTRO NÃO ANDA NOS MEUS SAPATOS#
GRAÇA FONTIS: PINTURA
Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Se decido veemente que o outro nada tem a dizer-me, nada há de seus valores e dignidades que me façam tergi-versar os caminhos, embrenhar-me por outros caminhos-da-roça, nada tem a acrescentar nos meus valores, tornar-me outro homem, não porque o que professo seja a verdade inconteste, enxergo além da ponta de meu nariz adunco, enxergo além do eterno, do absoluto, do ab-surdo, do instante-limite, enxergo a vida na sua pureza, na sua essência, simplesmente, se investigo com percuciência suas atitudes, ações, gestos, comportamentos são fundamentados na superioridade, hegemonidade, nas sementes e raízes do poder, embora as obtusidades da natureza e da condição, dos instintos, das fugas e escapadelas, nada e ninguém há que me convença, persuada-me a ser, ao menos, ouvinte da fala, até dizendo ele que "saber ouvir é manifestação de valor... de alguém quem está aberto e escancarado a outras conquistas..." Decidi que o outro nada tem a dizer-me. Se tenho consciência, se sei com veemência de que, no estar-sendo, estou de olho aberto para os equívocos, enganos, erros, fantasias, quimeras, tremelicando, estrebuchando por um raio de luz que ilumine, por que haveria de ouvir com os ouvidos, escutar com o coração as pernosticidades, as superioridades, os complexos de grandeza e importância? Prefiro arrastar-me nas sarjetas, esmolar nas portas das igrejas por um pão a engabelar-me a fome, morrer indigente, ser enterrado num caixão de nada, sofrer o pão que o diabo amassou com o rabo, a dar qualquer crédito a este outro. Aliás, o outro não anda nos meus sapatos, nada sabe do que interiormente me habita, não tem conhecimento de meus limites, dos liames limítrofes de meu ser.
O outro é o outro, eu ainda estou por ser, estou à busca de quem sou, do que re-presento, de quem está dis-posto a morrer por sua liberdade, por suas verdades, inda que frutos da imaginação fértil.


(**RIO DE JANEIRO**, 19 DE JUNHO DE 2017)


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