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sábado, 10 de junho de 2017

#TECENDO SEMPRE MAIS DE TEIA NA OBRA#- GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


A ociosidade não é flagelo social menor do que a solidão. Nada diminui tanto o espírito, nada engendra ninharias perniciosas, picuinhas pernósticas, intrigas, aborrecimentos, mentiras do que viverem pessoas eternamente fechadas umas defronte das outras numa sala, reduzidas, como único ofício, à necessidade de tagarelar constantemente.
Um colóquio mantido desde há dias, cuja aparência ou cujo destino, sempre que a água me confia uma boa nova, entreolhamo-nos ambos, assim, com pensamentos id-ênticos, idéias consignadas, contentes de termos recebido a mesma resposta à mesma pergunta, e nem sabemos em palavras dizer. Tenho de prosseguir trabalhando o fio tênue de água que escorre na vidraça, tecendo sempre mais de teia na obra, esse fiozinho frágil, único, todo dia, toda hora, perdendo e retomando o fluxo de sonhos, idéias, lembranças, para adensá-la enfim numa suave melodia, em que, ao final, as horas tristes e compridas são leves e prazerosas; os olhos não tiveram de des-aprender de chorar, se porventura choravam antes. O tempo desata de imediato todas as saudades e ressurreições. Diminuir-se-ia a emoção, decerto se anularia, se as idéias visassem a de-monstração.
Estendo-me ao longo do que dentro trago em mim. Amável faceirice substitui a ternura. Acho que nunca me esforcei tanto por desejar e querer a vida, senti-la-sendo em mim, ouvi-la, dizendo palavras de sabedoria e conhecimento; por agradar–me nem nunca fiquei tão contente comigo mesmo. Posso ocultar-me na luz de um abat-jour aceso e fazer de mim, de minhas próprias desgraças, infortúnios, infelicidades, e alguns momentos de alegria, júbilo e glória, um modo de descobrir-me, revelar-me, enfim, de ser-me. Posso expressar-me com empáfia e sabedoria, posso oferecer a Éblis uma gota de lágrima por estar feliz e contente com o conhecimento adquirido de quem sou, e pela indiferença da oferta o demônio imundo não irá se insatisfazer.
Certa vez, Camilo Castelo Branco disse: as almas infelizes envelhecem cedo. Esta é uma das maiores verdades que conheço. Como é grande a força da tristeza, desolação, medo! Como ela nos envelhece! Marca nossos olhos com sombras frias, encurva os ombros, estica a corda da vida, anda-se nela como se a qualquer momento pudesse se romper...


Como um olhar gravado de cansaço, as estrelas velam o ossuário da terra, o profundo silencia o que me submerge.


(**RIO DE JANEIRO**, 10 DE JUNHO DE 2017)


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