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sexta-feira, 30 de junho de 2017

#SILÊNCIO ARDENTE DE VOZES EQUÍVOCAS# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Não me afastando, não me envolvendo, conservando uma distância, estou esclarecendo a alma, o mais profundo, o que sinto, o que penso. Em me pensando, não me é possível sentir: não sinto quem sou. Parece que um véu se rasga diante de minha alma e o picadeiro da vida infinita mudou-se, para mim, num túmulo eternamente escancarado. Em me sentindo, afloro-me: sou quem eu sou no que não sou e sou. Afloro este ser e ele se aflora por inteiro. Quando torno a pensar e me lembro da história do cavalo cansado de ser livre, que se deixa arrear e esporear, e o cavaleiro cavalga até estafá-lo, não sei mais o que devo fazer...
A velha e in-sondável meia-noite rumina em sonhos a sua dor e ainda mais sua alegria: pois se a dor é profunda, a alegria é mais profunda do que o sofrimento. Sobre esse monte das Oliveiras, a vigília é inútil; o espírito se une aos apóstolos adormecidos e os aprova. Estariam realmente equivocados? Seja como for, tiveram a re-velação.
Será que haverá alguém quem poderá dizer-me algo, o que será melhor ocultar: as coisas raras e preciosas ou as vis e triviais? Como, não haverá alguém quem me possa esclarecer esta questão? Por que será que todos permanecem imóveis como se não passassem de estátuas? Mas não será o silêncio deste homem ou de todos que me fechará a boca. Os gregos responderão por vocês e dirão que a bilha se deixa sem receio à porta, ao passo que as coisas preciosas se conservam escondidas.
Pergunto-me a todo segundo a razão de Deus haver dado somente a alguns o poder da consciência, de seu conhecimento, e olha que nem eles têm consciência e conhecimento. Difícil ser alguém consciente de sua própria vida. E não suportando esta consciência precisa a todo custo querer convencer a alguém que é necessário ser consciente, ter uma visão-de-mundo. Divide-se o pão de cada dia.
A todo ser humano é dada a possibilidade de acolher em si mesmo a capacidade do espanto, da reverência, da surpresa, sem jamais barganhá-la com um dado pragmático. Uma possibilidade que não leva em conta as divisões de categoria como fé ou não-fé.
Quem é capaz de rir de si mesmo no momento mais atroz e contundente de suas dores por alguma vileza ou canalhice cometida? Talvez seja capaz de rir depois, no instante em que percebe haver superado? Não será o riso ingênuo e puro. Perdeu muito destas características. Se o expressar, será desenxabido e hilário. Quem é capaz de se reconciliar consigo próprio, quando tudo parece faltar de sob os pés? Talvez seja capaz de fazê-lo, mas encostando-se no outro para não sucumbir de todo. E não será mais a reconciliação pura e inocente. Será uma reconciliação para não descer os ossos sob a tumba fria e serena.
Com intenção sobremodo nítida, faço com que não escutar nem mesmo as mais fugazes alusões a esta situação. Porque em muitas coisas a verdade é que os homens se comportam como crianças. Freqüentemente as miudezas mais insignificantes, entre as quais, infeliz, não me posso incluir o procedimento de mim, os ferem de tal modo que até deixam de falar com os que verdadeiramente são bons amigos, afastam-se deles se os encontram em sua passagem e fazem todo o possível para agir contra os seus interesses. Depois acontece, porém, ocorrer que de modo surpreendente e sem razão, aparente ou não, e sem motivo que o justifique, em virtude de alguma pequena brincadeira, que a gente se arrisca a fazer apenas em vista da situação desesperada, rompem a rir e se reconciliam.
Tão difícil isto de desejar sentir compaixão e solidariedade em quem não se pode sentir senão dentro de mim mesmo, e o que desejo é sentir os sentimentos de toda gente, de qualquer raça ou credo, de qualquer ídolo ou culpados, criminosos e ofendidos, a humanidade necessita tanto destes ídolos de nada – diz-me algo, o que a humanidade tanto esconde de si própria? Não seria mais fácil assumir? Dizer, não importa mais quem diz ou o que diz. Sou eu quem diz a mim. Sou eu quem me diz.
O cume das colinas, a princípio, estava coberto de nuvens. Levantara-se, depois, uma brisa, cujo sopro sentia em meu rosto. Com essa brisa, por detrás das colinas, as nuvens se separaram como uma cortina que se abre.
Ascendendo, o abismo revela e nivela as serras e montanhas, e só então o homem ultrapassa os limites determinados à espécie humana em sua materialidade e, assim continua e prolonga a ação divina.
Como surgem as realidades sombrias perante o observador atento? Geralmente, quando o sofrimento e a paixão nos tiranizam. Então, o equilíbrio aparente que nos protege subitamente desaparece. Os sentimentos que turbilhonam no processo da alma rompem os moldes que os contêm e se traduzem em atos intempestivos, insólitos, paradoxais, idiotas. Essas tempestades interiores retorcem e quebram as formas rígidas, e o indivíduo, em sua exuberância, surge sem disfarce. Desvenda-se a realidade mais profunda e quedamos pasmados por conhecer tão mal quem somos, muitas vezes admirados e queridos, e tão pusilânimes.
Durmo na tempestade. Durmo em minha coragem, feliz por ser um homem que já enfrentou as vagas das águas; a imagem dos barulhos oceânicos da cidade está na “natureza das coisas”. Sibilos de vento de entre montanhas despertam os abismos que existem no fundo de cada um de nós; silêncio entre as serras sacodem as profundezas do ser, os mistérios da intimidade, as vozes subterrâneas; os abismos que existem no fundo, nas trevas do inconsciente e que, às vezes, irrompem à superfície e se tornam realidades sombrias.


(**RIO DE JANEIRO**, 30 DE JUNHO DE 2017)


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