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quarta-feira, 7 de junho de 2017

#A NOITE VESTE DE BRANCO A ACUMULAÇÃO DOS SÉCULOS# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


De nada me recordo.
Aliás, se estivesse recordando de algo, creio não iria necessitar estar debruçado ao parapeito da janela, estaria sim deitado na cama, olhando através da janela, recordando de acontecimentos, inclusive de quando, num sonho, num quarto, similar ao de consultório de analista, abri uma gaveta e tirei de dentro um revólver. Fiz com ele inúmeros movimentos, mas, ao final, dei um tiro em direção à porta, abrindo-a e indo embora. Estive a lembrar-me deste sonho, deitado na cama, olhando a serra ao longe. Terminada esta lembrança, a cabeça esvaziou-se de todo; levantei-me, dirigi-me a outra janela, da sala de visita, debruçando-me ao parapeito.
Esperava lembrar-me de algo, a fim de preencher o vazio que se revelou por inteiro? Esperava com as lembranças haver leve sorriso nos lábios, brilho no olhar? Desejava preencher as horas, olhando a cidade, luzes todas a iluminá-la, os tetos das casas, os domos das igrejas.
O que, sobretudo, gosto de olhar é a cidade. Revejo-a no meio da noite, mansa, pacífica, branca, cercada de montanhas que olham de soslaio os domos da catedral. A noite instala-se na montanha, cisma para a imensidão do espaço celeste, para a lonjura, onde me abismo também – desejo conseguir a existência de árvore ao longo do campo aberto da montanha, revestindo-a de espaço interno, esse espaço que tem seu ser em mim. A noite veste de branco a acumulação dos séculos como de um luar de morte.
O espaço esvazia-me até ao limiar da memória, absoluto no limiar da aparição, onde alastra o cansaço, solidão, afago e aconchego quente de choro, o aceno de sinais que se correspondem em ecos de labirinto. Num suspiro secreto afloro o que estremece sob os gestos enfim apaziguados.
Às vezes, sobretudo à tardinha, tenho momentos em que me sinto completamente só, a pensar, a pensar... a recordar o passado, tanto alegrias quanto tristezas, realizações quanto fracassos; tudo passa diante dos olhos, diante de mim como névoa. Surgem outra vez diante dos olhos os rostos que conheci, as palavras, às vezes ternas e sensíveis, às vezes ríspidas e insensíveis, as vozes roucas e suaves se exprimindo lenta e comedidamente (creio que vejo estes rostos, ouço estas vozes, assim desperto, quase como costumo ver os seres e as coisas, quando sonho).


(**RIO DE JANEIRO**, 08 DE JUNHO DE 2017)


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