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sábado, 24 de junho de 2017

ESCRITORA E POETISA Maria Isabel Cunha COMENTA O AFORISMO /**O ESPELHO REFLETE CERTO, NÃO ERRA PORQUE NÃO PENSA**/


Imortal será, grande escritor, como enorme é a emoção com que escreve cada palavra, cada frase, cada pensamento, num clímax de elevação ao infinito ao imortal. A pintura com os vários tons de vermelho, a figura feminina, sereia, ninfa, musa, toda a envolvência, em perfeita sintonia com o texto emocionam o leitor. Os dois se complementam. PARABÉNS.


Maria Isabel Cunha


#O ESPELHO REFLETE CERTO, NÃO ERRA PORQUE NÃO PENSA#
GRAÇA FONTIS: PINTURA
Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
#Que a imortalidade se me levante como exigência inexorável.#


A seta furtiva margina o limiar.
Sim, no silêncio da tranqüilidade de me encontrar comigo mesmo, na solidão de refletir sorrelfos ideais de quem sou às cavalitas do tempo, con-templar-me de antanho à luz da presença do ser aspirando a revelar outros raios e cintilâncias dos sonhos, alguém poderia também dizer, e afirmar e gritar: “Uma forma de negar a humanidade do homem é afirmá-la de forma orgulhosa e onipotente!”. O sinal da velhice talvez seja uma extraordinária vocação para as reflexões fáceis, pensamentos leves, ideais serenos. Jamais a minha tumba permanecerá sem flores. No centro de uma esmagadora profusão de flores e pássaros de mármore, este voto temerário.


Morrer, esquecer-se da face oculta da ec-sistência.


Murmúrio de outrora, de outrem de ribeiras próprias, de arvoredo meu, abre a porta, em grandes imaginações, em grandes emoções súbitas sem eira-nem-beira, sensações inesperadas, volúpteis e passageiras. Abro as mãos ao tempo oportuno, e procuro, sem cessar, a misericórdia que me envolva para sempre. Abro os olhos às contingências do indubitável, e penso, à-toa, à-toa, à-toa...


O amor, instante expansivo, dilatado quase ao instante-limite da entrega e dedicação, volve a aninhar-se na alma, onde nunca estivera, simples noções acompanhada da fertilidade da sensibilidade e inteligência. A rebeldia era um costume, não um vício infindável, dei-lhe apenas um outro sentido e rumo, outro destino e boêmias. A irreverência foi-me sentido id-ent-ificar e pres-ent-ificar o com que não con-sentia. O cinismo foi-me desenvolvido pela educação e cultura. Só conhecia os afetos, por assim dizer, familiares e inertes, os que não se conhecem nem conseguem lutar contra as dificuldades.
Esta alegria e resplendor que trago na alma, no espírito, desde há séculos, percorre cada centímetro do longo vale sobre o qual vão o corpo e a mente em sintonia com os passos caminhantes do eterno, lentos, pensados, sofridos. Também agito segredos e enigmas da minha imagem, e o sibilo do vento, que as folhas cobrem de som, despe-me do pensamento. Vagas de sol, despencando-se no vôo da Águia Celeste, ricocheteiam brutalmente sobre o campo circundante. Tudo se cala perante o som, tudo se emudece diante da luz; lá em baixo, reduz-se a imensa massa de silêncio, que ouço sem cessar. Quem dera se num instante ínfimo torna-se-me eu mais eloqüente que todas as vozes, mais que o silêncio ele mesmo. Fico atento, alguém corre em direção a mim na distância, minha alegria cresce, a mesma de antigamente. Uma vez mais um mistério abençoado ajuda-me a compreender o sentido de todas as coisas.


Pensar é essencialmente errar.


Certamente não o sentido de nossas tristezas, nem sempre muito acalentadoras, nem sempre hospitaleiras. Certamente não o sentido de nossas dúvidas, nem sempre capazes de nos levar à esperança livre, ao sobrevôo que muitas vezes adormece o espírito e a alma. Certamente não o sentido de nossos medos, nem sempre capazes de tornar topia as nossas utopias poéticas. Certamente não o sentido de nossas incertezas, nem sempre capazes de apresentar outras perspectivas.


O espelho reflete certo, não erra porque não pensa. Errar é essencialmente estar cego e surdo.


Espero há muito tempo. Por vezes, tropeço, perco a mão, deixo de acertar. Isso pouca me importa a mim, estou só nestes momentos. A Águia Nívea alça voo lento e sereno, irá pousar na grimpa do flamboyant, de lá soltando o seu grito, a sua liberdade. Assim, acordo no meio da noite e parece-me ouvir, ainda semi-adormecido, um sibilo de ventos, movimentos de águas a respirarem. Não existe pátria para quem desespera e, quanto a mim, sei que a serra me precede e me segue, e minha consciência, de meu inconsciente a Deus, estão ambos sempre prontos. Aqueles que se amam e são separados podem viver sua dor, mas isso não é desespero: eles sabem que o amor existe nalgum sítio onde os passos do eterno continuam a jornada, sempre para frente. Espero ainda... Eu não tenho filosofia: tenho sentidos, pensar uma flor é vê-la e cheirá-la.


"Do re-verso da alma, dos versos de palmas."


Passado sem vírgulas entre ad-vérbios temporais. Eterno eterniza nonadas perdidas nos vácuos. Espelhos espelham imagens projetadas no infinito. No finito in-finitivo do vazio metáforas cintilam. Nos gerúndios particípios das angústias linguísticas brilham. Sou quem não sou, não sou quem. Pervago nas estradas de poeiras semânticas sozinho. As esperanças devem acompanhar passos comedidos. Cogito ergo nom sum nos universos. Semânticas ilusões preenchem espaços, distâncias campesinas.
Verbos verbalizam sendas longínquas do ser.


Mentes mergulhadas em verdades inter-ditas de sombras a envelarem horizontes, de brumas a encobrirem universos, de trevas a esconderem o silvestre da floresta, as margens do rio; almas chafurdadas em esperanças entre-laçadas de vazio e nada glorificando o Apocalipse da In-dignidade e des-honra, louvando o Hades da Proscrição e Heresia, ideais entupigaitados de nonsenses do sonho, enaltecendo as primevas trevas do mundo, em cânticos mefistofélicos da maldição, ódio, insensibilidade, sem valores - alma penada vagando em túmulos do poder, sem virtudes - instintos condenados perambulando nos epitáfios de tabernáculos à luz das imagens sacras sem ética - carne sem ossos, rogando o verbo da plen-itude, a verbalização da essência absoluta do divino, sem moral - cinzas dos princípios primevos re-nascidas nos umbrais da amoralidade que seduz os dogmas da indecência, corações perenecidos de utopias de ideologias, interesses espúrios da alienação, ausência da fé de as bem-aventuranças salvarem o eidos do sublime, In-sensibilizando as dimensões trans-cendentais dos desejos de liberdade, vontade da divin-idade, ossos, cinzas, nada, des-carne das ilusões que, nas fontes do uni-verso além das con-tingências, alimenta-se de a-nunciações do gozo de serem sementes de gerúndios de sonhos, indicativo presente do Ser-com a vida, Ser-para-a-morte, palavras, versos, re-versos, in-versos, estrofes, acorrentadas de símbolos, signos, metáforas ao secular, milenar gozo do abismo inaudito indizível "Ad perpetuum nihil"...


O tempo acintura a forma de um corpo, pressagiado de amor. O espelho mostra o contorno de saudades, o bocejo de ansiedades, que fizeram o retrato da noite. Driblo o tremor que avassala o sono engomado. Dou a contrafé de mim. Apresento a contra-resposta que me habita o seio. Não é de mim que as línguas são imperfeitas para que o silêncio exista. Não é de mim que as palavras são re-presentações para que o Ser seja desejado verbalizar-se. A solidão assiste ao medo, à morte do riso, e o silêncio baliza eloqüentemente quando naufraga a vontade. Espelham-se o verbo, o ato e o rugido, ou seria mugido? Não o sei. Porque não sei é que escolhi referir-me a ele. Pasmei do fracasso com que riem dos ossos sempre cobertos de carne. Estupidifiquei-me da frustração com que olham as cinzas de onde nada poderá ressuscitar. Às vezes, faço de um raio de luz e da minha paixão o silêncio, e o porquê deixei de figurar nas respostas e ganhar uma face ensimesmada e triste.


A tarde não cai sobre a serra; emerge do fundo das águias, que desfiando os gritos de louvor e paz, as três, em uníssono, por breve instante, permanecemos solitários por cima do acinzentado da serra. Aqui só há uma fonte, onde o grito das águias se reflete; entretanto dentro da fonte há a serra, o vale, a colina. Ao entardecer, um cântico nos precede durante longas horas...


Sinto estar fora do que imaginei, tudo o que escrevi, embora desejasse expressar o in-audito, o Absoluto faltou-me. Vale sentir, para minutos depois, dizer: “Apenas criação...” Eu, que só me satisfaria com a alma nas palavras, regressado à dimensão original de mim, relação imediata de uma profundeza a outra, entendo que a imortalidade se me levante como exigência inexorável.
Pérfida, a dissimulação ensina às serpentes as palavras chinfrins, desprovidas de qualquer inteligibilidade. As vozes estremecidas afrontam artifícios do outro. Retiradas, as ambições convergem discrições, cujo medo os obséquios amortecem as convivências.


Cravo os olhos no papel, sem ler, sem fitar linha alguma, uma palavra única. Enrolo e desenrolo um dos cantos da lauda. Sorrio. Sorriso de aquiescência, sem convicção, espontaneidade. Por mais ridícula que pareça esta confissão, por mais grosseira seja a sua pele, a verdade é que não sei se é verdade uma utopia haver construído esta imagem de todo o processo de criação, de construção de estilo, linguagem até mesmo em linguagem outra. Reuni preocupações, situações em que me encontro envolvido, emoções.


A vida, aos sons de imagens dispersas e sinuosas, mostra sua fragilidade, sua investida em deixar não só recordações mas o orgulho de sua verdade.


(**RIO DE JANEIRO**, 23 DE JUNHO DE 2017)


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