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segunda-feira, 26 de junho de 2017

#SER O SILÊNCIO NO SILÊNCIO DO SER/À COMPANHEIRA DAS ARTES, Graça Fontis# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


É o silêncio na alma. É viver com o silêncio na alma. É simplesmente deixar que este silêncio se revele, se manifeste livre, espontâneo, sem qualquer muleta da razão, sem qualquer bengala da intelectualidade, sem quaisquer esperanças de sua revelação, a-nunciação... Assumi-lo plenamente. Vivê-lo. Quem o deixa perpassar todas as dimensões do ser, do espírito e da alma, com certeza, sente o além, sem a presença da imortalidade, da eternidade. Nem poetas ou escritores são capazes de vivê-lo na sua essência, pois que sempre têm os utensílios da pureza da inspiração.
Silêncio é silêncio no silêncio. No silêncio do silêncio, o silêncio é a voz suprema do saber a vida na roda-viva das dialéticas do ser e não-ser, no catavento das contradições do efêmero e eterno, no redemoinho das ambiguidades da morte e dubiedade do nada. Nos re-cônditos do silêncio, o silêncio é o vernáculo do espírito sem a metáfora do sublime, sem a sin-estesia da leveza, sem a poiética da pureza. Nos interstícios do silêncio, o silêncio é a erudição da alma que perscruta a semântica linguística da solidão do ser, a linguística semântica das melancolias e nostalgias pretéritas das angústias e tristezas, à busca do solstício do alvorecer para lhe guiar, orientar no ser-para a consumação da verdade.
Silêncio não se verseja de versos e estrofes, trovas, sonetos, poemas livres. Habita-lhe na poética do ser. Silêncio não se prosa, proseia, não é prosa que racionaliza a gnose das experiências, vivências, pre-núncio do saber. Silêncio não se vers-ifica das suas reflexões do deserto, meditações do porto. Não se diz o silêncio, não se metaforiza o silêncio, o silêncio se versifica no silêncio que afagamos com as verdades do sonho, das esperanças, das utopias, à busca das palavras sagradas no livro do Ser.
O elemento principal no bem-estar de um indivíduo — de fato, de todo o seu modo de existir, de ser-no-mundo — é aquilo que o constitui, que ocorre dentro dele próprio. Pois isso constitui a fonte imediata de sua satisfação ou insatisfação íntima, que resulta de todo o seu sentir, desejar e pensar. Tudo que o cerca exerce somente uma influência indireta; por esse motivo, os mesmos eventos ou circunstâncias afetam diferentemente cada um de nós; e até com ambientes exatamente iguais, cada qual vive em seu próprio mundo. Pois um homem apenas preocupa-se diretamente com suas próprias ideias, sentimentos e volições; o mundo exterior somente pode influenciá-lo na medida em que traz vida a esses. O mundo em que cada qual vive depende principalmente de sua própria interpretação desse e, assim, mostra-se diferentemente a homens diferentes; para um é pobre, insípido e monótono, para outro é rico, interessante e importante.
Fica mal com Deus quem não alça vôo nas asas do condor de esperanças, real-izando os clímaces voláteis do gozo da estirpe. Fica mal comigo quem não trans-eleva a fé no divino eterno aos auspícios da liberdade que exala suas nuanças de desejos de compl-etude com os termos acessórios do nada e efêmero, como o pássaro de fogo que choca os ovos das chamas perenes a aquecerem o inverno das espécies susceptíveis às caliências do nunca antes de quaisquer jamais, carências do sempre antes de quaisquer pretéritos perfeitos ou imperfeitos. Fica mal com a vida na sua vocação de ser o absoluto perfeito, inda que tardio o perfeito, inda que in-ec-sistente as ruminâncias de ouro e risos a satirizarem com veemência e re-verência o surrealismo das laias côncavas e convexas das viperinidades da natureza humana, quando o perfeito, desde a eternidade, encontra-se refestelando-se às margens sinuosas do cócito inaudito de vozes que permeiam a noite de lua cheia e centenas de estrelas cadentes...


Oh, centelhas que brilham momentaneamente, onde faíscam o silêncio da liberdade e a liberdade do silêncio?
Pelo meu caminho vou, vou como quem pisa com toda delicadeza e acuidade os ovos da "garnisé", grávidos de réquiens para as ipseidades do pretérito iluminando as trevas e sombras da terra do bem-virá. Vou como quem saltita nas brasas de lenhas da lareira, incandescendo a sola dos pés para sentir o prazer e volúpia das estradas na jornada sem limites, fronteiras, obstáculos, enfim sem o instante-limite do zero a prenunciar o "um" dos solilóquios e colóquios da aritmética dos "noves fora um". A linguagem é condenada pelos princípios, o estilo é indecente pelas lógicas, mas antes sendo do que dar com as mulas no mata-burro, com os jegues no abismo.


A vida consiste de movimento e nisso reside sua própria essência. O constante movimento interno requer auxílio parcial por parte do exterior. Essa falta de proporção é análoga ao caso onde, em consequência de alguma emoção, irrompe dentro de nós algo que somos obrigados a suprimir. Até as árvores, para florescer, precisam ser agitadas pelo vento. Aqui se aplica uma regra que pode ser anunciada de forma mais concisa em latim: omnis motus, quo celerior, eo magis motus [quanto mais rápido é um movimento, tanto mais é movimento].


Silêncio é silêncio, vive de suas vozes íntimas e trans-cendentais da espiritualidade, da divin-idade. Não se alimenta dos pães e trigos do vir-a-ser, alimenta-se da plen-itude de seu ser. No inaudito de si, revela sentimentos e emoções que lhe habitam e são os sonhos da sabedoria, da verdade, as estesias do eterno, no deserto onde se re-colhe para a reflexão do verbo-de ser ser cristalino, puro, são os desejos vontade de tern-itudes.


Buscar o silêncio - não se lhe encontra. Desejar o silêncio - não se lhe vive. Sentir o silêncio - mergulho profundo no que trans-cende os verbos da con-tingência, quais sejam a suprassunção dos valores imanentes, a superação dos estados de alma, redenção dos pecados, ressurreição.


O tolo em trajes finos suspira sob o fardo de sua própria individualidade miserável, da qual não pode se livrar, enquanto o homem de grandes dotes povoa e anima com seus pensamentos a região mais deserta e desolada. Há, pois, muita verdade no que Sêneca diz: omnis stultitia laborat fastidio sui [toda estultice sofre o fastio de si mesma.


Ser o silêncio no silêncio do ser.


(**RIO DE JANEIRO**, 26 DE JUNHO DE 2017)


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