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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Ana Júlia Machado ESCRITORA E POETA ENSAIA A SÍNTESE DA FILOSOFIA E DA POESIA NO AFORISMO /**ÍMPETO ALADO DO CAMINHO PARA O SER, SEM PALAVRAS DIVIDIDAS**/


No texto de Manoel Ferreira Neto acerca de #ÍMPETO ALADO DO CAMINHO PARA O SER, SEM PALAVRAS DIVIDIDAS# leva a uma pequena volta à história do ser…. Poderia ser enorme… mas vou ser o mais lacónica possível. Parece ser um texto acessível….de modo algum…. seu Ser, já o acompanha nos primórdios da filosofia, sabedoria e poesia… até aos dias de hoje…. e afinal o que é o caminho para o SER… é eternamente a dúvida…. a teoria altera… os pensamentos alteram…. como se pode verificar nesta pequena dissertação que faço e que está incluída no texto de Manoel, mas laconicamente…quem pretender saber mais….que puxe pela cabeça…


A poesia e a filosofia possuem um vasto antigamente a ser recordado; um íntegro agora a ser pressentido; e um vasto devir defronte do qual, no entretanto, podemos somente pressagiar. Cogitar a poesia e a filosofia, a conexão de cada uma delas com a existência e principalmente entre si
têm-se erudição que a poesia antecedeu a filosofia. Então, se “no início era o verbo”, esse verbo essencial foi inspirador. Muito antes de homens meditarem naquelas ilhas gregas da antiguidade, Hesíodo, um camponês que vivia nas proximidades de Téspias, na Beócia, em suas próprias palavras, uma aldeia amaldiçoada, cruel no inverno, penosa no verão, jamais agradável, já poetizava sobre a vida simplesmente ao dizê-la. Homero, autor da Ilíada e da Odisseia, foi outro antigo grego que proferiu poeticamente o universo.
E a poesia satisfazia! Mais do que isso, causava remanescer interfaces para a gente compreender o autêntico e para este entendê-la. Tanto que os rudimentares homens que, depois, foram apelidados de “os primeiros filósofos”, quais sejam, os prés- socráticos, muitos deles se auxiliavam da suficientemente familiarizada índole poética para verbalizarem da existência por uma via outra que não mais exactamente poética. Estes, contudo, poetas não eram mais.
Essa mestiçagem entre poesia e filosofia permanece translúcida no poema do filósofo Parmênides de Eléia, Sobre a natureza, no qual o pré-socrático socorreu-se do hábito poético de seu tempo para encetar sua conversação com o ledor e desse modo ostentar a tese filosófica da qual cuidaria sem, verbalizemos assim, criar pasmo. Não desprezemos, consistimos proferindo de uma agremiação absolutamente tradicional, na qual a mudança era vista com ruins olhos. Tanto apelidavam-na de podridão!
Antes de apartarmos de vez poesia e filosofia, compete contudo evocar dos sofistas, homens que circulavam pela Grécia antiga, cuja produção mental era algo entre poesia e filosofia. Desde sempre anómala, a sofística dizia o que se passava com o homem e com seu mundo. De um lado, com uma independência semelhante à poesia. Porém, de outro, com uma objetividade bastante costumeira, inerente do pensar filosófico. Com efeito, os sofistas concebiam e negociavam dissertações de eloquência poética, contudo ardilosamente políticos, que até o perpendicular verbo platônico se inverter contra eles, eram confundidos com filosofia, mas que após persistiram verberados.
Como sabemos, o idealismo platônico nega a sensibilidade e o mundo dinâmico que ela revela aos homens, pois tudo o que é sensível diz apenas daquilo que será corrompido pelo devir. Expressar-se a partir do que se percebe sensivelmente, para Platão, outra coisa não era que ler a sentença de morte dos objetos dessa expressão. A realidade imediata, material, sensível, no entanto, era a matéria-prima com a qual os poetas e os sofistas se aventuravam discursivamente. Mas para Platão, o voo que alçavam não se aproximava do que mais importava, das ideias das coisas a respeito das quais falavam.
Contudo, a modernidade rompeu com muitos cristãos meditando sem que a crença ou a locução de Deus os amedrontassem tanto. Muito pelo oposto. Provar a vida, a beleza e a imensidade de Divindade de modo racional de certa forma foi o rastilho do hodiernismo. O testemunho ontológico de Deus cartesiano é o símbolo do matrimónio exemplar de Divo e o entendimento humano. Cogitar o infinito sem o qual Deus não é passou a ser o repto filosófico por eminência. A poesia, evidentemente, nada podia nessa apresa. Resistiu enquanto paliativo burguês. Porém, tão-pouco a sabedoria se apresentou apta de facultar estimação da imensidão.


O anseio de alcançar a justeza, seja sobre o mundo, seja sobre si inerente, transportou o homem a nutrir as lengalengas, isto é, definições incríveis protagonizadas por seres que embrenham-se nas forças da natureza e os aspetos repetidos da condição humana. Foi preciso milhares de anos para que a mitologia cedesse seu assento de locus da existência e fosse irreversivelmente mudada pela ciência que, com exacção desumana, dignava-se verbalizar o que e como as realidades são. Agora, seria um absurdo indagar se a instrução, em vez de realmente acertar a veracidade, não habitaria apenas criando as invenções mais efectivas da crónica da humanidade?
Os mitos labutavam com pessoas e condições próprios para, todavia, dizer do ecuménico, ou seja, daquilo que sempre foi, é, e será. O mito de Prometeu, por exemplo, contando a gesta da instrução furtada de Zeus para que os humanos pudessem assistir distante do éden, conta, na realidade, de nós, seres humanos, e da imprescindível erudição que a cada momento devemos defraudar para coabitarmos na natureza. Sendo assim, somos todos nós os imperecíveis gatunos, porém, ideados miticamente em Prometeu, pois só a certa extensão podemos entrevir, sem sofrer, aquilo que continuamente somos.
Logo, mítica ou cientificamente, estamos sentenciados a delinear em todas as nossas teses grémios de realidade a serem conseguidos, contudo, a partir da grande periferia das nossas oportunas hesitações. Porém, desse contorno não nos tresmalhar. Prometeu nos dirá sempre que carecemos cardar a erudição de que carecemos, pois ela não nos Incumbe.
Afiguremos que a conexão do homem com a realidade tem a figura de um aro, a realidade abrangendo o centro e o homem a periferia. O raio desse aro pode ser de qualquer dimensão e, começando do centro, aludir para qualquer um dos infindos sinais que armam a circunferência, mas será sempre uma extensão estabelecida a arredar o homem da realidade central. Podemos nos avizinhar desse centro, mas como o raio que nos aparta dele é uma recta, isto é, é instituído de muitíssimos sinais, acercar ao centro real imporia que ultrapassássemos o infindo. Empreitada inexequível para seres finitos como nós!
Podemos perambular aristotélica ou histericamente ao longo da periferia interessante na qual residimos, qual o anseio lacaniano em volta do seu exíguo corpo a que, se atingido, é aniquilado. Cogitando em abeiramento em correspondência ao centro no qual assenta a realidade, podemos inclusivamente compor uma progressão entre as infindas circunferências que se constituem em conexão à realidade fulcral: o mito um aro superior, a filosofia, um inferior, e a erudição, o inferior deles, um tanto mais perto da realidade. Contudo, o homem é de uma natureza, que elege raios inabaláveis entre as realidades, centraliza e a sua intenção de conhecê-las. Se o homem alcançasse abdicar a circunferência de suas hesitações e avassalar o centro da realidade, não mais a avistaria, mas somente ele próprio, uma outra alegoria.
E como o escritor Manoel conclui e muito bem A correspondência com os factos é impraticável, não tem estado psíquico e intelectivo do sujeito cuja exteriorização pode acontecer tanto no círculo pessoal quanto no colectivo, causando com que esse sujeito adquira saber dos objetos extrínsecos a partir de alusões próprias. Articulando desacompanhado.
Atrás da confiança não há senão a fé. Na mudez total, os termos de antigamente amedrontam de demência, como já foi referido ao longo deste texto.
Há muito momentos sim…. Mas o tal instante é que jamais saberemos quando…..


Ana Júlia Machado


#ÍMPETO ALADO DO CAMINHO PARA O SER, SEM PALAVRAS DIVIDIDAS#
GRAÇA FONTIS: PINTURA
Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Caminhando em silêncio, revolvo um sentimento que se me apresenta.
Encolho os ombros, cerro os olhos, como um homem que aprendeu à custa de duras, duras penas, a linguagem da renúncia, o estilo da refutação, da renúncia e refutação à cor-agem de tecer as contingências com a linha da consciência. Toda a sorte de idéias de liberdade, de devoção absoluta, de sacrifício, invade-me deliciosamente – enquanto os olhos se esquecem, se perdem, enlevados na reliosa solenidade deste princípio de noite de início de inverno.
Com uma voz dolente, sob a frente fria deste início de junho, permaneço deserto e desconsolado. O olhar alegre com que sou envolvido, resultado do amor pelo inverno, sentindo no seu brilho ameno, no sorrir suave, quando está em mim. A respiração leve, serena, comedida, creio eu, re-vela sentimentos e emoções que completam, abrem leques para a felicidade, mãos entrelaçadas, utopias e querências, o amor se faz continuamente.
A bruma de prata flutuando, pela manhã, sobre os mangues inda sonolentos... É o vestido da intimidade. A intimidade, nua, sente as sensações singulares - interação do gozo e prazer. Sou a mesma abertura de silêncio... Brilha mais puramente a brancura da claridade. Lá das profundezas da solidão, não devolvo as coisas nem as mortifico. Um vento brando reflete no coração.
Anteontens de idéias, ideais, sonhos, utopias performando os passos, ritmo e melodia de viagem, quase dançando uma balada, deixar o tempo se suceder, o que houver-de ser sê-lo-á, é seguir a estrada. Imagens, perspectivas. Hoje de pensamentos, consciência de que tudo passa, tudo passa, é seguir as veredas e sendas. Constelações atrás da lua.
Anúncio, do que jamais foi, na pálida auréola do ar, das casas silenciosas, da copa das árvores de perto, raiadas de pingos de chuva, aquando o silêncio é tão profundo que me ouço ser, as ondas do mar espraiando-se.
Não é absoluto preciso, nem mesmo imaginável e desejável, tomar partido de meus interesses e achaques pernósticos: ao contrário, uma dose de curiosidade e bestialidade, hostilidade e irreverência, insolência e hospitalidade, como diante de um oponente frágil e taciturno, com uma resistência irônica de não assinar ou endossar a nota promissória que me apresenta, juiz que insiste e persiste em não conceder a liberdade de expressão no município, não aceita que a liberdade de expressão é a expressão da liberdade, me pareceria um comportamento e postura incomparavelmente mais sutil e inteligente em relação a mim.
Anteontens de existia a viagem desde sempre; anda em mim algo indescrítivel, "impeto alado do caminho para o Ser". Encoimo a consciência perspicaz, por vezes a empreender-se a favor do singular, e é a sensibilidade a colchetear os pensamentos. Sou uma alegria, tristeza a caminhar na linha tênue da lembrança e do esquecimento. Postergam-se as emanações contingentes do absurdo e encontradas as ideias de sossego e silêncio - extravio as sensações da perda.
Degustáveis os instantes, instantes-limites, Idéia, em princípio, simples, simplória, gerando questionamentos, indagações, causando polêmica. A comunicação com as coisas é impossível, não tem subjetividade, a comunicação com as pessoas é impossível, tem subjetividade. Falando sozinho
Atrás da esperança não há senão a esperança. No silêncio absoluto, as palavras de outrora estremecem de insanidade.
Um vento surge ininterrupto, procurando-se. Contudo, criando margens a contradições de toda ordem, ambiguidade de toda natureza, sinto exigir de mim
um comportamento, atitude.


Há um instante em todo esse sentimento em que devem estar todas as coisas nascendo – há um momento não sei quando.


(**RIO DE JANEIRO**, 31 DE MAIO DE 2017)


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