Total de visualizações de página

sexta-feira, 2 de junho de 2017

#A POESIA ESTÁ MORTA# - Graça Fontis: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Amo estes mundos possíveis, mas a alma está agitada.
As águas deste novo mundo já valem mais que os mares e rios; são calmas, ventos passam de entre as montanhas, sibilos entoam canções que não nascem apenas de sentimentos, palavras, mas da vida que se re-nova, a neblina que cobre as montanhas oferece aos olhos o deleite de ver a beleza do belo, o orvalho da madrugada está inda mais incentivando a coruja a cantar euforicamente, canta e canta e canta. "Isso aí, Coruja... Cante, cante, cante. Quem sabe algum homem de palavras re-presente o som de seu canto, leia as suas angústias e tristezas e seus desejos, sonhos!"
Chuva forte irá cair!...
Se o melhor dos mundos possíveis é este, o que será dos outros? Quem sabe serão a liberdade, beleza sem par das palavras declamadas à luz da sabedoria, inteligência; palavras que não apenas embelezam o cenário de todos os ideais, abertos, contudo, às manifestações, que, na continuidade da vida, tornam possíveis o encontro.
Esqueceu-me a língua; a palavra se torna breve e hesitante. Versos e estrofes seguem os caminhos da Língua Latina: vulgarizaram-se, tornaram-se versos e estrofes mortos, resta apenas o Decreto Oficial das autoridades: "Os versos e estrofes estão mortos." O desejo de conduzir me abandonou, o contato longo e íntimo com os abismos me leva, antes, ao silêncio: “Quem sou para atingir o milagre da expressão, expressão do milagre, e libertar as algemas e correntes?”. Pobre de mim, não sei falar da vida, do que é isto viver. Houvesse vindo ao mundo para ensinar como libertar os mortos, dar-lhes a vida novamente; sei de mim, vim para trilhar os caminhos-da-roça. Empurrar-me para a margem da estrada por afirmar a "poesia está morta" tão radicalmente, recusar-me a ajudá-la a prolongar-se no mundo, estão me fazendo um grandésimo favor: ando tranquilo, evito de atolar os pés na poeira até às canelas. Somente após todos me houverem renegado, voltarei a todos. Resta-me cumprir a solidão peremptória, eu diante de mim próprio com os meus mundos possíveis, quatro misericordiosos segurando as alças do esquife, levando-me para o descanso final. "Acreditai em vós. Sede quem sois", ouvira tais palavras não faz muito, sorri com ironia: tais palavras lembraram-me os psicólogos, com aquele prepotência de sabedoria: o que me falta é justamente isso saber quem sou, acreditar em mim. Nada respondi. Só a mim devo a satisfação de me não ser, de em mim não acreditar.
Chuva forte irá cair!...
Uma palavra simples, quase trivial (cada época parece ter a palavra que merece, não é?!), uma palavra que se precisa verificar ou encarnar nos foi oferecida: “Sê consciente e faze aquilo que quiseres!”.
Ser consciente – instante após instante – e fazer o que se quer (não aquilo que se pode). Eis aqui uma espécie de realismo, capaz de nos libertar das nossas esquizofrenias e paranóias contemporâneas, neurastenias e esquizoidias.
Nada sou. Nada preciso fazer, repito estas palavras, os olhos mentalmente fechados. Às vezes, por puro deleite, invento reflexões: se a música toca, esta música existe, houve um criador, quem a tornou sentimentos e emoções profundos. Creio nada escapar à inspiração, a não ser o próprio mistério da criação.
Posso até pensar que o ombrear-me com os sentimentos, trocarmos energias de pureza, ingenuidade, ficou-me isto de dizer da vida em sentido de elevá-la, torná-la um ser que se renova.
A conciliação entre as palavras e sentimentos é que tornam possível a re-novação, possibilidade de con-templar as imagens que hão-de criar outras realidades, outros horizontes.


Chuva forte irá cair!


(**RIO DE JANEIRO**,02 DE JUNHO DE 2017)


Nenhum comentário:

Postar um comentário