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quinta-feira, 6 de abril de 2017

**TABERNA DE DIFUSOS - II PARTE** - PINTURA: Graça Fontis/PROSA POÉTICA: Manoel Ferreira Neto


Sei-me pleno de força, vitalidade. O mundo me espera, até começa a reclamar a espera tem sido longa demais, o suficiente para encetar a enfastiar-se, digo-lhe que sigo o ritmo normal; todo o ser vibra como se através dele repercutisse um dedilhar de cítara.
Nada mais existe, importa senão os desejos fortes e vivos – não sei. Ignoro se é neste estilo que os outros sentem o pulsar da vida, se em relação aos sentimentos reais, estes que se harmonizam com o brilho dos olhos a contemplar os horizontes e universos.
Sinto a força e vontade de as coisas serem contínuas. Prazeres, alegrias, que me absorvem todo, vontade e chamas. Em relação à vida, impulsionara-me as intuições de possibilidades, chances. Não aprecio este último termo; afigura-se-me estou sendo escravo, sou permitido fazer algo só muito pequeno. Tenho de saber o tamanho da coisa a ser feita, não devo exceder os limites, fronteiras. Só recente me conscientizei de vezes haver tentado; tive só chances.
Busco possibilidades, nada fora em vão, aprendi as lições fundamentais, trabalhei-as, investiguei-as, silenciei-me, deixei os verbos se revelarem a bandeiras soltas, não desperdicei o único tesouro, dom, que aumenta quanto mais tirar. Que importa o resto, em que pesam os arrazoados alheios?
Deste alto onde posso contemplar toda a Fronteira da Lembrança e do Esquecimento, procuro através da neblina, esta sim é a mesma, após alguns dias de chuva constante, logo ao amanhecer, os traços e caracteres de há alguns anos. Nada sinto, ouço; até compreensível por estar a ouvir músicas, não alto nem baixo. Nada vejo, por estar o coração leve, alguns sentimentos os sei puros. Ordem é perpassar-me, estou consciente e intuitivo, a música renova poucochinho; bom ser em estilo lento este poucochinho.
Estranho ou não, afigura-se não ser o lugar, instante adequado; é como se me dissesse uma palavra de amor, não igual às que as mães dizem comumente aos filhos, mas às que as mulheres dizem ao objeto de sua entrega, carinho... Nenhuma lembrança ou esquecimento se revela. Necessário excluir uma destas dimensões do tempo na terceira pessoa do singular, nenhum remorso ou orgulho obscurece a consciência ao dizer isto. Nem sequer, de longe, posso imaginar poderiam ser outros os sentimentos a unirem-me ao mundo, homens, coisas. Havia na expressão enorme tensão e ansiedade; a palavra necessitava de harmonia e sintonia com elas; enfim, a sinceridade é de importância sem medida.
Não sei por quê, insensível e inconscientemente, creio ser conivente, no sentido de algo que se aproxima, posso tocar, os olhos lacrimejam. Posso é justificar a emoção com esta força a habitar-me o espírito, a alma, deles é parte constituinte.
Talvez seja livresco a imagem que esculpo de quem estou sendo, representando, sinto-me em harmonia com desejos acalentados. Pouco que posso expressar acerca destas coisas, imagino que represento alegria e felicidade, deparei-me com elas vezes assinaladas em romances, como características de alguém privilegiado, talentoso, mas gosto que assim o seja, em sintonia com o vivido - possua este símbolo, signo, tão cálidos e ternos, para diferenciar-me de outros homens conhecidos.
Acho extraordinário o tom de voz que emprego para dizer-me estas palavras, tão simples – é como se não tivesse sentido qualquer dificuldade, medo de estar equivocado, de não se tratar de algo real, e exprimo uma ternura, cuidado, ou que não houvera vivido estes acontecimentos outrora. Depois de todas estas palavras, intui-as vivas e fortes, deveria ter dito assim; não importa, silencio-me, de modo tão repentino quanto iniciara a dizer.
Não importa que seja eu, é até melhor. Necessito de uma palavra, gesto a trazer-me à terra firme, tudo foge diante dos olhos, hostil, desde aquela monotonia, mesmidade que não conseguia suportar, apesar de esforços, até à lembrança de atitudes e ações antigas, pensara haver sufocado, a cada segundo, poderosas, ressurgem no pensamento e até mesmo – por que não dizer? – na carne.
Que há de falso nestas palavras, existem no fervor inexprimível, visando, precisamente, dizer? Não sei hoje como não sabia antes. Encontro-me deitado num sofá-cama, assistindo à televisão; distanciei-me por longos momentos.
A luz desta sala não é muita, interceptada pela cortina da janela que fora corrida. Mesmo assim, diviso os olhos a examinarem-me, são os da senhora, e descubro neles carinho tão grande, autênticas considerações e reconhecimentos, ternura e dedicação. Sinto-me surpreso. O sangue sobe-me às faces. Positivamente, mulheres se revelam quando se sentem felizes com os esforços e lutas; assim amam.
Durante algum tempo fico em silêncio, não olho para o aparelho televisor, não olho para a senhora, ainda se encontra de pé ao lado do sofá-cama, sem conseguir me libertar do constrangimento a enlear-me.
Mergulho na distância que não conheço. Brilha nos olhos como a lembrança de um mundo submerso. Parece-me a vida toca-me de sentido real e denso: o sentir-me eu, aqui componho e delineio, assume o novo aspecto com consciência inédita na figuração do caráter. Não há nisto vaidade, mas certeza de que devo seguir a caminhada, de peito descoberto – homem, experimentando o que é isto desejar.
No fundo, nesse insondável lugar onde representa a última cena de uma iluminação, talvez esteja contemplando o mundo, vida.
A estas palavras, que se esforçam por ser cordiais, não me movo, não faço a menor menção de gesto com as mãos; antes procuro sentir-me ainda mais deitado, como se me preparasse para reagir a qualquer espécie de fuga ou justificativa.


(**RIO DE JANEIRO**, 06 DE ABRIL DE 2017)


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