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quinta-feira, 6 de abril de 2017

CRÍTICO LITERÁRIO PAULO URSINE KRETTLI INTERPRETA E ANALISA A SÁTIRA /**TABERNA DOS POETAS**/



Em regra, tese é afirmação, antítese é oposição à tese e desse conflito surge a síntese; só que a síntese, por si só, premissas e fundamentos, torna-se nova tese que será confrontada por nova antítese para vir nova síntese e, assim, continuadamente, debate-se e reparte-se com profusão a dialética do pensamento humano.
Claro, pensamento humano, pois ainda não nos foi permitido dizer que o animal pensa, que o ar pensa, que o inanimado pensa. Essas situações têm elementos resultantes desse embate aparentemente consensual, mas que trazem as contradições da dimensão do pensar humano, e, desse pensar, a ação direta ou indireta do homem em seu meio, em seu processo histórico a desencadear cadeias persuasivas ou conflitivas para civilização.
Nas do nosso tempo, porém, as conquistas inclusivas do homem em seu status quo – social, política, cultural, artística, até qualidade de vida, iniciadas após a segunda guerra mundial e após o período ditatorial conservador e capitalista - vêm sofrendo um revés inacreditável para atender novamente a grupos de pensamentos novamente conservadores, capitalistas e, agora, extremistas com ligações religiosas, que somente se enxergam a si mesmos, colocando em risco toda a evolução do homo habilis, erectus, sapiens, quiçá, sapienssapiens!
Essa explanação filosófica - filosofia descreve a realidade e a reflete – reporta-me que a tese (ou todas as teses ou silogismos) não está sendo mais motivo de antítese, mas sendo morta em seu nascedouro e também, no meu entender, no seu aprofundamento.
Em Barroco Moderno, notadamente nas sátiras de Manoel Ferreira Neto, nota-se que a dialética humana está por um triz, pois o interpretar (mesmo que a dialética não interprete) e o refletir da realidade nos seus parâmetros e dogmas estão em subornamento das suas premissas, inclusive as mais lógicas.
Decerto, estamos sendo chamados a compreender os atuais implementos artísticos, culturais e literários sem a primazia da dialética.


Paulo Ursine Krettli


**TABERNA DOS POETAS**
FOTOS DE GRAÇA FONTIS E PAULO URSINE KRETTLI
SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto/Paulo Ursine Krettli


Dois poetas se encontram numa Taberna e enquanto tomam um vinho, dialogam sobre a Solidão e Amor..., lendo dois contos de suas autorias, publicaram juntos, em parceria, um livro. Só muitos anos depois se reencontraram. Sentados na Taberna dos Poetas, primeiro encontro, a obra em mãos, assim as lembranças e recordações de outrora.
Que vem a ser isso de amor, criação, cobiça ardente, estrela?
Porta de casa de discos, músicas nacionais, internacionais. Um mundo diferente. Uma realidade de baterias, guitarras e violões. Lá dentro dois jovens. Um lê reportagem que em letras garrafais diz: “Antigamente não existia metralhadora, hoje existe”. Ela, na porta, olha os pedestres, ônibus, carros que passam na rua São Paulo. Ele lembrava de quando residira por alguns meses em Itabira, época que fora lançada a música “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones”; achara muitíssimo interessante a lírica, especialmente a palavra metralhadora, talvez por existir a metralhadora fosse garoto tão solitário, tão sozinho no mundo, com todas as dificuldades, medos e ódios, ressentimentos que lhe habitavam a alma. Ela não se recorda de nada, poder-se-ia dizer não há qualquer vestígio de pensamento na mente, olha perdidamente barata que, correndo, cai numa boca de lobo, dá um sorriso disperso.
Ele, ao que parece gosta dela, mas é um gostar seco, duro, frio, diferente do amor: poemas dirigidos à amada, escondendo-lhe o nome e colocando-se diante dela como servo humilde diante do senhor, serenatas nas noites de lua cheia, trocas de palavras bonitas, promessas de realizações de vida a dois regulada e medida. Ela com seu rosto fino, olhar penetrante espera palavra, gesto de carinho com cigarro entre os dedos e fumaça no ar. De repente, levanta-se e com passos lentos vai até a porta e senta na caixa de som, cruza as pernas, encosta o rosto na propaganda de Filmes Kodak, Para Impresiones en Color, porque ali não somente vende discos, como também filmes virgens que, ao toque de dedo na máquina, fotografa sorriso, gesto, sentimento, dor. Filme, retrato, boa recordação aos amigos, parentes, de momento feliz, contente, inesquecível. Jornal, notícias nacionais e internacionais, política, economia, suplemento literário, crônicas de Carlos Drummond de Andrade, de livros e filmes nacionais e internacionais, futebol, crimes, classificados. Ela, na porta, continua olhando os pedestres, lotações, carros que passam na rua São Paulo.
O livro aberto sobre a caixa, havia lido um conto, intitulado A ILHA, de Paulo Ursine Krettli:


- Amando a ilha.
Que ilha?
- Da Grécia.
Tem sentido:
- O que é que tem sentido?
- O que é que tem sentido... Talvez nada tenha sentido, ou o sentido é justamente o nada. Falar de ilha?
- Por que?
Não conheço ilhas. Imagino-as tão longe, tão distante.
- E o mar?
Também não.
- A Grécia?
Muito menos...
- Você está certo, poeta!
Por que?
- Filosofando...
Isto é filosofar? Falar de ilhas que não conheço, de mar que nunca vi, de país que só conheço de ouvir dizer haver sido o berço da cultura.
- Na certa que é.
Não é palhaçada nossa?
- Minha, sei que não é... Talvez seja sua! É?
Minha, também, não!
- Então continue.
Continuar o que? Se o Ser se faz continuamente, a continuidade é também o ser.
- Falando da ilha.
Não tem sentido...
- Tem sim, cara, vou tentar explicar-lhe com algumas palavras: há dentro de sua ilha alguma coisa que vai além, que vem de cima para baixo; ela é tão forte que parece energia total, totalizante, magnética e aquecedora. Talvez seja uma oração confundindo-se em agradecimentos e pedidos, talvez querendo se aproximar mais um pouco de Deus e falar com Ele sobre a grande ilha que lhe habita. Oh, saquei tudo, e tudo tem sentido! Você coloca sua ilha diferente de outras ilhas, muitas ilhas que tenho visto. Sua ilha é teocêntrica, sendo ela visível quando você, voltando ao seu passado, da Grécia ou da Bíblia, se enche de alegria e vê o porquê do homem e de sua existência como homem que possui virtudes, erros e enganos, e sobretudo a possibilidade de pedir perdão a Deus. Sua ilha ainda terá, se já não tem, habitantes que sentirão, descobrirão e caminharão com o Pai envolvido num vulto humilde, mas cheio de sabedoria e poder.
A grande ilha ilumina seu peito jovem e agradecido pelos dons recebidos pelo Pai. Convicto do amor D´Ele, Helga encontrará o destino digno de seu nome, de seu mundo e vida; o seu coração é a grande ilha...


(**RIO DE JANEIRO**, 04 DE ABRIL DE 2017)


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