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domingo, 9 de abril de 2017

*ODISSÉIA DE ÁGUIA: SILÊNCIOS E EXPIAÇÃO COMENTADA PELA ESCRITORA E POETISA PORTUGUESA Maria Isabel Cunha**


O autor faz um paralelismo entre a sua vida, as peripécias por que passou até chegar ao ancoradouro que é o seu amor e o seu lar no momento atual e as narradas por Luís de Camões sobre o episódio da paixão de Pedro e Inês e todas as dificuldades dos marinheiros na célebre viagem de Vasco da Gama. Uma bela odisseia a sua, escritor Manoel Ferreira. Agora que se encontra no remanso do final da viagem, aproveite para viver esse AMOR DE PERDIÇÃO. Parabéns também para Graça Fontis que ficará imortalizada pela excelente pintura que ilustra a obra. Um abraço.


Maria Isabel Cunha


**ODISSÉIA DE ÁGUIA: SILÊNCIOS E EXPIAÇÃO**
PINTURA: Graça Fontis
ODISSÉIA: Manoel Ferreira Neto


Dizer ou afirmar com prepotência, com prospecção ou circunspecção, intros-pecção, extro-pecção, mesmo sem elas, de modo simples e humilde, a vida são mistérios, os mistérios são sementes da vida, são raízes abstratas do que há-de se a-nunciar, e até sentir-me extasiado por conhecer e saber o que ela é, todas as alegrias e felicidades habitam-me, por assim ser, ser o que me habita a essência do ser e de seus tempos e despertar-me para a busca de esclarecê-los e torná-los transparentes e re-{luz}-[entes}, não é está-la definindo de modo absoluto, seja verdade absoluta, jamais haverá quem isso conteste ou diga que nas situações e circunstâncias do tempo era essa a definição que se poderia obter, era o que se poderia considerar e reconhecer sublime e esplendoroso, as luzes plenas não haviam sido acendidas ainda, na continuidade das relações sociais, políticas e econômicas, é que seriam acesas, até que fora iluminado para assim definir com toda propriedade, fora muito feliz, mas os tempos são outros e tais palavras já não têm o menor sentido, quiçá haja o carnaval medievo comungado-se ao folk-lore moderno das dialécticas, nem se explica por que razão serem pronunciadas, por que motivo serem ditas com ênfase e euforia, as ciências e o conhecimento se desenvolveram, progrediram, não existem mais mistérios, a vida é livro aberto, mostrando todas as letras que podem ser lidas livre e espontaneamente, com olhos de lince ou simplesmente com olhos retinados, e com a leitura reverenciar o que há de vir, o que há de ser, con-templar a águia que voa de um extremo ao outro do uni-verso, em busca de seu in-finito, do horizonte onde pousará e olhará tudo de frente, baterá suas asas alegremente para mostrar e id-ent-ificar que os seus projetos foram sim concretizados, poderá atravessar o que há para além do bem e do mal.


Neptuno,
Em seus instantes de éritos do tempo e do espaço...
Visto da Terra,
Netuno apresenta uma alta magnitude
(quanto mais brilhante o astro, menor sua magnitude),
sendo impossível
observá-lo
a olho nu,
Tritão,
De longe o maior,
Tênue e incomum sistema de anéis também existe,
exibindo
Estrutura irregular com concentrações
de material
que formam arcos,
À soleira da Oliveira, nos auspícios da montanha,
Ovelhas perdidas
Comprazendo-se dos raios e fulminâncias do sol
Que se esconde nas retrógradas traseiras,
De por trás dos mitos e mitologias,
No espelho re-verso das in-versões dos deuses
E das tempestades, maremotos, tsumânis marítímos...


Quando pelo saber
o corpo se purifica,
é procurando o saber
que ele se eleva.
Para o sabedor, ante-sábio,
todos os instintos
tornam-se sagrados...


Mesmo para as verdades absolutas quaisquer definições são efêmeras, esvaecem-se num piscar de olhos, num passe mágico de uma arte ou de uma arbitrariedade solene e sublime. Viver sem definições ou conceitos é talvez o mais inteligível e aconselhável, o mais tranqüilo. O Livro Sagrado é testemunho divino de a vida serem mistérios, habita-lhe o ser, desde o Gênesis até o Novo Testamento, nenhuma ciência ou conhecimento superou essa verdade, sê-lo-á por todos os séculos e milênios. Seria que devêssemos os homens nos entregar por inteiro a in-vestigá-los e des-vendá-los? Ou seria que devêssemos fazer deles a pedra angular para as luzes iluminarem as nossas estradas, por vezes íngremes, por vezes não, a partir de nossas atitude e ações, de nossas palavras em busca da verdade, em busca da sublimidade da vida e da contingência de nossos desejos de saciar as nossas fomes seculares e milenares? Nem uma coisa nem outra, tenho dito, sentindo-me, por mais inteligível que possa parecer, eufórico e charmoso. Ou seria que devêssemos cruzar os braços e lhes sermos indiferentes? É seguir nas trevas e nas sombras, aliás o fim será esse mesmo. Quem disser que os mistérios foram dissipados, extintos, com efeito, está absurdamente equivocado, alienado ou ensandecido, ou mesmo não se sente vida, não sente estar no mundo, não se lhe concebe um ser, um instinto, servindo a interesses e ideologias que não são os seus, apenas para receber os cumprimentos das mãos que se tocam mutuamente, os sorrisos e tapinhas no ombro, à moda, linguagem, estilo dos mineiros, alfim estão esquecidos de si mesmos, não mais atribuem qualquer valor à vida, ou tentando ludibriar a si mesmo por não ter coragem suficiente para assumir a vida, os seus limites e incapacidades, os seus problemas, dores e sofrimentos, entregar-se à feitura do próprio destino através de lutas autênticas e peculiares.


Entre os milagres, os demoníacos,
menos concordam com a razão;
e no tangente aos milagres divinos,
a razão poderia ter ainda,
próprio para seu uso,
sinal negativo:
se alguma coisa é re-presentada
como ordenada por Deus,
numa aparição imediata d´Ele, ,
opõe-se diretamente à moralidade,
embora tendo toda a aparência
de milagre divino,
Enquanto Safo,
Escreve sobre as próprias dores e prazeres,
é perceptivo em seus poemas
uma linguagem autônoma,
feminina e fluída...


Não é difícil demais, absurdamente difícil viver com esta verdade, coisa de estremecer e encolher na posição ou no estado fetal, saber que nunca será possível conhecer alguma coisa da vida, a vida é invisível, inaudita, a ilusão acabou, os sonhos mergulharam-se no nada das ruas que foram de todos, nelas perambularam daqui para ali, de lá para acolá, todos os esforços e labutas serão em vão, este conhecimento será “pedra angular” – esqueceu-me há muito esta categoria! Em que “buraco de tupiniquim” me enfiei para me esquecer dela, ela com que fora o encontro de muitas realidades minhas, dera-me estruturas e alicerces para o egrégio empreendimento, ela que fora a bússola de minhas buscas do espírito da vida, ela que me angustiou em muitos momentos de minhas escritas para sentir a verdade minha, e não apenas um estilo de olhar e observar a vida e o mundo, e tive de tecer os terços de minhas orações a Maria Santiíssima, pedindo-lhe Iluminação nestes momentos. Fiz-lhe homenagens, tributei-lhe saudações di-versas e ad-versas, seguindo a sensibilidade de meus instantes e momentos, quem sabe até para lhe incentivar na continuidade de seus favores em meus benefícios, para as realizações todas que desejo obter?!
Felizmente, estou de volta, mais amadurecido, consciente, ciente de meus desejos e buscas - assim creio, assim ponho ambas as mãos no fogo, é assim que tentarei encontrar outras verdades mais profundas que me preencham os espaços vazios, que são muitos e incontáveis, que me satisfaçam e felicitam, podendo ser quem sou e o que serei - para outros verbos de todos os sonhos que os homens trazem em si dentro, para outros encontros e verdades? Sim, diria até mais que “absurdamente difícil”, isto é uma estética e solene metonímia, diria paradoxalmente difíceis e complicadas. A alma torna-se depósito de dores e sofrimentos dilacerantes, contundentes e pujantes, de angústias, tristezas, medos, inseguranças, e tudo o mais que se possa imaginar para enfatizar a idéia, além disso o vazio é indescritível, e nada pode criar a ilusão de algum ínfimo espaço estar sendo preenchido ao longo do tempo, os marinheiros mareados abandonam o mar, os alcoólatras embriagados deixam o botequim, e na passagem secreta de alameda a outra uma vela ao vento, o abismo é inimaginável. Só mesmo a morte para acabar com tudo isso.
Contudo, e não é estar iludido, fantasiando as coisas, criando quimeras di-versas, para conseguir continuar seguindo as minhas trilhas em direção a todos os infinitos e horizontes, não é estar tripudiando, enganando a mim próprio, facilitando as coisas, vejo e sinto luzes várias que podem iluminar e iluminam os caminhos de trevas, e mesmo que sábios me dissessem não iria dar em nada acreditar nessas luzes, ainda assim acreditaria, ainda assim juraria com a mão esquerda sobre o Livro Sagrado, trilharia todas as estradas do sim e do não, como é a própria vida, que são as viagens ao infinito dos verbos de sonhos explícitos e eternos. E que luzes são estas? – é o questionamento que todos os que comigo estão presentes nesse instante, incentivando-me a criatividade, sensibilizando-me a alma, dando-me coragem para adentrar-me no que há de mais íntimo em mim, em que teço essas palavras nessa página, com esmeros inestimáveis, quero lúcido e lúdico o que há de mistério e inconsciente, murmurando, sussurrando, em silêncio, os olhos perdidos no espaço de todos os versos e verbos da noite e do dia; estão ansiosos por conhecê-las, quem sabe esteja eu com razão, quem sabe possam destilar as minhas palavras, torná-las pedras angulares de suas buscas do espírito da vida?! São elas as nuanças e perspectivas da esperança.
Basta interrogar sobre o sentido da esperança, basta sentir o incompreensível de tudo, para que se ponha ao menos o problema de esse sentido ser possível. Perguntar para quê é pressupor o “para alguma coisa”; afirmar que a esperança não tem sentido é pressupor que o sentido dela deve existir; interrogar sobre o Mistério, ainda que nenhuma resposta se espere (e a profunda interrogação não a espera) é conferir-lhe o estatuto de ser, é admitir o mistério e portanto a necessidade de o decifrar, ou seja, de esse enigma não ser.
O tique-taque do relógio que move o ponteiro dos segundos, lentamente, à mercê do piscar de olhos, à mercê de passos mágicos, o tempo que passa na roda-viva dos desejos e sonhos esquentam na memória tão passadas águas, tão pesadas mágoas, contundentes ressentimentos, que moinhos movem, cata-ventos giram, farinhas fazem de cada pensamento, de cada idéia, haja sacos de aniagem para colocá-las dentro, entornando pranto na pedra desse peito, lágrimas que deixam em sua superfície o lodo e o sal. Sentado aqui na cadeira de balanço, nessa manhã ensimesmada, as montanhas cobertas de neblina, pernas cruzadas de por baixo da mesa, balançando-a, por vezes suspirando, abaixando a cabeça, observando os tacos sem qualquer brilho, há tempos não é encerado, apenas passo a vassoura para tirar a poeira, dando-me por satisfeito, ou olhando a parede de cor cinza de modo em absoluto abstrato, ouço músicas, os sentimentos são inúmeros, re-conheço-os sensíveis e melancólicos, não sei nem conheço o que lhes habita o mais profundo, se, em verdade, abrem outras janelas e portas de novas dimensões da vida e de meus projetos de felicidade e alegrias, de ser o que em mim sou, ser o outro de mim. Com poderosas mãos egressas das esferas paraliso toda ânsia, todas as inquietações e inseguranças, todas as dúvidas e desconfianças, separo o joio, e das espumas das vidas in-definidas deixo fluir da morte a fonte mais bendita.


Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.


Mesmo o fulgor do que acontece no tempo e salta para além dele, uma música de outrora, mistério das coisas simples, vêm ter comigo e é na dimensão última de mim que tudo se revela e tem razão. No contato comigo, na convivência com a raiz íntima de mim é que a beleza é o indizível e o insondável, é que a esperança é o ininteligível e o incompreensível, é que a esperança se pro-jeta para o que há de ser, há de vir. Assim a eternidade dessa manhã em que escrevo, o silêncio de estalactites da cúpula do céu, é na rarefação de mim que se abre e entende.


Da morte a fonte mais bendita,
Da eternidade, o silêncio último do mistério,
Da esperança, o mistério das coisas simples,
Da raiz íntima de mim, a beleza que se projeta
Para o que há de ser, há de vir.
Na rarefação de mim, o tempo salta para além,
Na música de outrora, tudo se revela e acontece.


Faço versos e conjugo verbos
Do indizível e sondável
Deixo fluir a morte,
Ser o outro de mim,
Ser o que em mim sou.


Para que o silêncio ressurja e o olhar suspenso e a aflição dos espaços e a surdez absoluta da montanha e o intocável da noite, é necessário transpor o limiar do imediato e aceder às origens de mim, aí onde a consistência se dissolve e a eternidade se desprende da sucessão do tempo, e o meu olhar se descola da apreensão do ontem e do amanhã, das situações e circunstâncias que me algemaram ontem, que me libertarão amanhã. Suspensos os meus olhos, o meu ser, um arroubo alevanta-me, vertiginoso ergue-me e o espaço abre-se da comunidade de mim com o espaço sideral, o alarme e o augúrio, o sufocante mistério, a profundidade da noite.


Ser o que em mim sou,
“Não bastasse o profeta
Se vingar do futuro”,
Deixo fluir em versos
A morte que conjuga
Verbos.
"Não bastasse o peregrino
Re-colher e a-colher as areias do deserto",
Deixar flanar as tempestades...


Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais misterioso, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua própria existência. Se imagino a existência de um indivíduo como um quarto mais ou menos amplo, vejo que a maioria não conhece senão um canto do seu quarto, um vão de janela, uma lista por onde passeiam o tempo todo, para assim possuir certa segurança, até mesmo certa confiança.
O que me questiono neste instante em que ouço músicas, deixando-as mergulharem bem íntimo em mim, alegrando o que há de triste em mim, o que há de dúvidas e inseguranças, o que há de medos e relutâncias, os sentimentos di-versos e ad-versos se a-nunciando, manifestando, re-velando, escondendo-se por vezes, o que é inteligível à minha sensibilidade, é quando é motivo de enfiar a alma entre as pernas e, de suspiro em suspiro, de olhares evasivos em olhares evasivos, ruminar perdas, aprendendo nas estradas, em seus aclives e declives, nas sinuosidades das curvas, na reta de longa distância, no encontro das árvores de ambas as margens que cobrem a estrada e lhe confere uma beleza toda especial, que o sofrimento é desvairada, enlouquecida, varrida alavanca para a esperança. Quer dizer, então, que a esperança só se mostra a partir do sofrimento, das dores múltiplas que habitam a vida? É uma verdade inconteste.
Enquanto no silêncio falsifico o verbo, defectivo suas conjugações, e me faço caverna, no teu corpo, oh esperança!, a eloqüência da forma, a verdade pontuda da carne e o amor, planície lúcida e transparente, olho para ela com olhos de criança inocente e ingênua, sinto-a com a sensibilidade de um grande sonhador, quem argumentaria não sê-lo eu, não o fosse, não estaria aqui trabalhando as idéias e os sentimentos, os pensamentos e as emoções, os desejos e os sonhos, de onde emerge a montanha do ser, de onde eleva as suas corcovas às estrelas que velam o ossuário do mundo e de sua história que anda na contramão de todos os princípios. Enquanto no silêncio desenho turva a mímica das sombras, a mimésis das brumas, a alethesis das trevas, em teu corpo raia a claridade da transformação, raia a transparência da metamorfose, “´tá tudo mudando”, a esplendorosa e mágica revelação da fêmea em seu solar o sagrado ofício. Em teu corpo esplende o perfil das iluminações, a lua-cheia dos seios, o orbe rútilo do ventre e as redondas nádegas da luz.


Vou singrar teu sono
feito veleiro louco
e ancorar de repente
no teu ventre virgem e livre;
o mar lúcido de teu olhar,
pouco a pouco,
amainará o peixe de minha vertigem.


Desejo arar tuas vigílias com palavras claras,
com versos transparentes e ser,
subitamente,
fruto no teu chão,
searas e prazeres que me eram
raros por tua causa
hão de brotar nessa canção silenciosa,
que componho e musicalizo
à mercê da criatividade e ilusões
as mais diáfanas
e também as mais obscuras.


A esperança não é um conhecimento, pois todo conhecimento é ou bem o conhecimento do eterno excluindo o temporal e o histórico como indiferentes ou bem o conhecimento puramente histórico. Nenhum conhecimento pode ter como objeto este absurdo de id-ent-ificar o eterno e o histórico. Se reconheço a doutrina de Thich Nhat, não me ocupo no momento em que a re-conheço, de Thich Nhat, mas de sua doutrina, e nela encontrar a pedra angular de outras realizações e conquistas, sobretudo o de tornar-me espiritualizado e humanizado, entretanto posso, num outro momento, ocupar-me historicamente dele. Ao contrário, a relação do discípulo com o mestre em questão é a de um crente, isto é, ele se ocupa eternamente com a existência histórica do mestre.
Embrenhei-me na floresta silvestre do pensamento filosófico para tecer as minhas idéias a respeito da odisséia dos mistérios, de a vida serem eles, de existirem luzes que iluminam os caminhos das trevas, o mergulho é mesmo mui profundo, e todos estão colocando as cartas do pôquer sobre a mesa, querem ver as minhas, estão pagando por elas. Só nesta floresta é que estou seguro de poder colher as minhas lindas flores para colocar na mesa da sala de visitas para despertarem o brilho infinito nos olhos de minhas visitas, e também sentir-lhes o odor suave e singelo.


(**RIO DE JANEIRO**, 09 DE ABRIL DE 2017)


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