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quinta-feira, 13 de abril de 2017

#PERERECA DA VIZINHA PRESA NA GAIOLA# - Graça Fontis: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Os caminhos estão cheios de tentações, abertura plena para cometer todos os pecados desde os da luxúria e gula aos das vicissitudes e concupiscências, com direitos a todos os orgulhos e envaidecimentos, os meus pés arrastam-se nos buracos de todas as ruas, alamedas, becos, avenidas, miséria de uma cultura, pobreza de uma civilização, fim de uma apoteose de orgulho e bem material, tendo até que criar performances de pisar aqui e ali, qual ator que ensaia a sua atuação e re-presentação para o avant-premier daquilo que está escondido dentro de sete chaves e que no íntimo a-nuncia-se, o desejo da VIDA na espiritualidade de todos os momentos em suas volúpias, êxtases, evitando atolar meus pés nas águas sujas, na lama - não me fora ensinada a arte de fazer a lama ferver - dentro circundada pela ilusão de ótica de asfalto.
Todas as coisas imóveis se desenham mais nítidas no silêncio. A língua está inerte dentro da boca, a respiração comedida na passagem dos sentimentos e emoções, comungados à transcendência do bem e do mal, o coração pulsando forte, esperando a a-nunciação do instante outro na proximidade do segundo etéreo e efêmero, os olhos brilham intensamente perscrutando o cão de fogo esculpido no mármore, frente à Cúria Metropolitana, "de onde vem o que rosnas para cima? toma a sua alimentação por demais na superfície!" O vento verga as árvores, o vento clamoroso do crepúsculo, o vento que a-nuncia a noite, a lua que ilumina a dança, a roda, a festa...
Desejo o céu! Aqui, censura-se amar a noite, gozar nas estrelas, sentir clímaces na escuridão, conversar simplesmente sobre os orgulhos da estirpe, vanglórias da raça, vaidades da laia, e mesmo acerca das virtudes, valores morais e éticos da vida e ec-sistência, e assentar no passeio público de shorts, camiseta, descalço, cigarro de palha no canto esquerdo da boca – fumo cigarro de palha só em casa, para não despertar as línguas venenosas para suas considerações arbitrárias de diferença e excentricidade -, observar os transeuntes perambulando por aqui e ali, vagando por lá e acolá; as musas envidraçadas nas janelas, a perereca da vizinha presa na gaiola (o que é uma injustiça notória e pública, por que não deixar a perereca livre para fazer tudo o que desejar?, a morte ser-lhe-á inevitável; livre poderá divertir-se à beça).
Desejo o céu! Recolher as palavras e levá-las sufocadas no último ônibus, fazê-las dormir ternamente no travesseiro de algodão, em que acontecem os sonhos mais profundos da plenitude e serenidade, acordo na aurora livre para outras tintas em meu coração. É tarde... Épica razão in-versa dentro do relógio da igreja central da cidade em insônia, cujas costas estão à luz da praça de águas iluminadas, a frente voltada para as origens da civilização e seus tabus, o princípio, RUA SANTO ANTÔNIO DA ESTRADA.


(**RIO DE JANEIRO**, 13 DE ABRIL DE 2017)


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