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quarta-feira, 12 de abril de 2017

**FARSAS SUSPENSAS EM TRAPÉZIO DE GAIOLAS** - Graça Fontis: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: SÁTIRA

Vós, por vossas farsas suspensas em trapézio de gaiolas, onde pássaros vibram em grande emoção, não sabeis procurar onde se encontra o prazer.
Posso, hoje, despertar o meu desejo. Posso nitidamente ver o que acontece, mas existem outras coisas de que não posso ao menos ter uma leve lembrança, antes eu sonhava e agora já não durmo, relincho apenas amor e solidariedade entre os homens e a humanidade.
Silêncio. Solidão e angústia. Suspenso. Teia de aranha.
Devo dizer-vos que odeio tudo, tudo o que consegui aprender nestes anos. Tudo foi puro. Honesto. Detesto os conhecimentos adquiridos. É verdade. Pergunto eu: para quê? Não nos basta saber a existência de uma bomba H, com poder destruidor, a terrível Bomba A, cinqüenta vezes maior? Não nos basta saber que, criada em algum laboratório, como uma desconhecida doença, podemos, entre milhares, morrer? Será pouco ter Ciência que de modo assustador cresce a virologia para fins bélicos? Será deliciosamente ótimo morrer com a cabeça decepada, por um raio laser? E como se isto apenas não bastasse, temos, do outro lado do mar, a criação da antimatéria, em laboratórios dos socialistas, como complemento desta sátira macabra. Para que tanta invenção, se, indiferente de raça, crença ou cor da pele, todos os homens sanam em vermelho, babam em verde...
Pois bem, senhores, detesto-me, simplesmente, porque tive como tantos, no mundo bélico, a capacidade de memorizar certas retóricas. Temos a Matemática, dentre todas, a Ciência Exata. Temos a Física, com suas leis regendo os fenômenos terrestres e extraterrestres. Temos a Biologia, com suas bactérias e vírus, temo-la, em sua incansável luta, no desvendamento dos mistérios da evolução. Temos o Português, nossa comunicação, com suas regras e exceções, com todas as suas dificuldades. Tudo isso, e mais, não nos é importante.
Fazem parte da nossa sublime existência.
A vida é frágil, é fragilidade no decorrer do tempo, e nisso está inscrita, registrada a dimensão de suas magias e belezas, nas estesias do sol que nasce à soleira da aurora, das estrelas que re-nascem e re-id-ent-ificam na solidão e silêncio da noite e madrugada o cristal da fé nos sonhos e ilusões do futuro, que morre no embornal do crepúsculo, nasce, re-nasce na sombra de raízes da vida que serão promessa de outras sorrelfas e magias, sempre em busca do bem, dos versos da felicidade, alegria, dos verbos do amor e cáritas, koinonia da contingência e transcendência, kairós das utopias da eternidade, dos olhares aos infinitos, distâncias, longitudes.
O passado – eis o sentimento mais forte e presente – mexeu-me, remexeu-me por dentro, mudou-me os pensamentos e idéias, transformou-me os sentimentos e emoções, revolucionou-me a intuição e percepção das coisas do mundo.


O que é in-verdade
Será verdade,
O que é mortal
Será imortal,
O que é verbo
Será verso,
O que é Verso
Será Uno,
O que é vazio
Será cheio,
O que é vida
Será morte,
O que é verdade
Será palavra


Nas estesias do sol
Que nasce
À soleira da aurora,
Que morre
Nos braços do crepúsculo,
Promessas de outras
Sorrelfas, magias;
Das utopias da eternidade
Raízes da vida
Que serão koinonia
Da contingência,
Transcendência,
Que serão kairós
Dos olhares aos infinitos,
Distâncias,
Longitudes.


Relincho “sublime” com o coração na garganta. Parece que um discurso foi terminado com uma palavra de ordem, como fazem os engajados em um partido, a fim de receberem palmas dos ouvintes, para sustentarem as idéias do Partido, para serem acreditados por todos, recebendo, no dia da eleição, votos. Para os que votaram, eles são os homens que estavam faltando, são os homens adequados, a tábua da salvação. Com a existência destes homens, haverá justiça, não haverá miséria, fome, desgraça. O mundo será puro, sublime, todo-poderoso. Pergunto-vos se eles se adéquam a si mesmos, se são os puros, os justos, os sublimes, os todo-poderosos. Respondereis, com a certeza, que a sociedade precisa de homens com raça, dispostos a lutar pela justiça. Palavras deles? Qual nada? São princípios do partido o que eles têm medo de violar. No quarto, à noite, não acreditam em mudança, não creem em coisa alguma. São uns mentirosos, uns crápulas, uns caguinchos... Queriam a cadeira e a mesa em frente deles. No fundo, não acreditam em nada. São uns desesperados. Sentem a dor profunda da existência, mas a voz do Partido consegue abafar. Esta dor.
Eu não. Não faço discurso. Teria vergonha de ver-me na frente de várias pessoas, gesticulando, relinchando feito um louco, procurando frases de efeito e, no fundo, estar pensando que estou a iludir não a eles mas a mim. Ilusão de palavras é a pior ilusão. A pior amiga da humanidade é a ilusão. Toda a humanidade vive a iludir-se com palavras de falsos profetas, com suas próprias palavras. Já não me iludo com frases. Aprendi o gosto que é ver as palavras volatizarem-se, pulverizarem-se. Estou satisfeito. Nada me toca. Caso haja uma revolução, sei, de antemão, tudo o que vai acontecer. Apreenderei todo o processo da revolução, todas as suas idéias, mas sentir-me tocado nunca. Com o tempo, tudo serão cinzas. Uma nova necessidade. Serei até capaz de sair à rua, a fim de ver a angústia das pessoas, a polícia armada, os tanques de guerra, passeando pelas ruas, os tiros e as lutas, mas não me sentirei tocado. Nada, absolutamente nada, é capaz de tocar-me, de fazer sorrir ou chorar, de sentir-me alegre ou triste. Tudo virará cinzas em um breve instante. Restará o gosto insípido na boca.


(**RIO DE JANEIRO**, 11 DE ABRIL DE 217)


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