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terça-feira, 25 de abril de 2017

**DOS TERRENOS BALDIOS** - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Êxtase - muita coisa há em vós que faz rir à revelia, em especial o vosso medo daquilo que, até o momento presente, se chamou "a Melancolia", pois o passado que ela re-presenta é a "Tristeza", o vosso passado.
Êxtase - enfastiei-me dos homens doutos, os que sabem tudo e tudo além do tudo; a "doutitude" dá-me nó górdio nas entranhas, vontade absurda de vomitar tudo de dentro, fugir para o alto do monte, para os cafundós do Judas, para o palhaço das verdades obtusas!
Êxtase - embriaguei-me tanto da neblina da madrugada que nesta manhã de primeiros raios brilhantes e quentes do sol estou exalando pela boca e ouvidos brisa, e não é in-verno rigoroso.
Êxtase - ontem, após o primeiro sono do dia que acontece de quatro da tarde às onze da noite, ainda deitado, a cama faltou-me debaixo do corpo, o relógio de minha vida respirava - jamais ouvi silêncio tão grande ao meu redor: a tal ponto que o meu debilitado coração se assustou.
Êxtase - desaprendi a obedecer, a rezar na cartilha do outro, a dar razão aos pobres de espírito; seria que agora devesse, cumprisse-me escrever dez mandamentos, nenhum deles podem ser desrespeitado, negligenciado, recusado, refutado, subestimado, são a minha lei insofismável, incólume.
Êxtase - o meu próprio eu e o que dele, de há muito, encontrava-se no recanto mais insólito de uma gruta, disperso em meio à escuridão, em meio a todo o vazio e nada, tornou-se o meu verdadeiro refúgio, e como todo refúgio revela perigo, tornou-se o meu perigo in-audito e inter-dito.
Êxtase - a rua Rio de Janeiro que leva o Cine Brasil para trás, para a Praça Sete de Setembro é uma eternidade e a rua João Pinheiro que leva a Praça da Liberdade para frente é outra eternidade. Sento-me na escadaria da Igreja São José, na avenida Afonso Pena, e fico "urubuservando" os pedestres passando apressados, precisam correr atrás dos prejuízos.
Êxtase - é chegado o tempo de ir embora, esta cidade ficar para trás, o tempo riscá-la de minha memória; oxalá o calor escaldante me faça suar por inteiro, o meu abismo moveu-se e o meu pensamento abocanhou-me. Já é mais que chegado o tempo de vislumbrar o sol, o mar.
Êxtase - o meu passado rompeu suas sepulturas, algum sofrimento que escrevia suas memórias póstumas acordou: tinha apenas tirado uma soneca, o silêncio ameaçava-lhe sufocar-se, a solidão ameaçava-lhe asfixiar-se.
Êxtase - bem-aventurado o nada que me envolve. Puros eflúvios a meu redor. Ah, como esse nada me inspira a multiplicar todas as coisas, passear por todos os gêneros literários, por todas as idéias filosóficas, e continuar seguindo a longa estrada até sumir atrás da montanha, de mim nada mais restar, muito menos lembranças e recordações.
Êxtase - tudo que é lendário, tudo que é "causo", tudo que é "estória da carochinha", tudo que é lorota de monsenhor, tudo ficou para trás. Clamo agora nos terrenos baldios a melhor sabedoria da coragem.


(**RIO DE JANEIRO**, 25 DE ABRIL DE 2017)


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