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sexta-feira, 21 de abril de 2017

#CARDÁPIO RECHEADO DE MISTÉRIOS# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


O ele-ir-passando-até-não-se-saber-quando, até-não-se-saber-há-quanto-tempo, até-não-se-saber-onde é motivo de enfiar a alma entre as pernas e, de suspiro em suspiro, soluços em soluços, ruminar perdas, uivar fracassos, rosnar frustrações, cacarejar decepções, grunhir desilusões, relinchar mágoas e ressentimentos, aprendendo, na estrada, que o sofrimento é louca alavanca para a esperança, e só há ressurreições onde há túmulos, redenções onde há cinzas.
O ele-ir-passando-até-não-se-saber-quase esquenta na memória tão passadas águas e tão pesadas mágoas que moinhos movem, que cataventos giram, que farinhas fazem de cada pensamento
entornando pranto na pedra deste peito.
O ele-ir-passando-até-não-se-saber-Quem com poderosas mãos egressas das esferas paralisa toda ânsia, separa o joio e das espumas das vidas indefinidas deixa fluir da morte a fonte mais bendita.
O ele-ir-passando-até-não-se-saber-o-que enxota dos olhos o sono e tudo o que debilita e cega a vista, queda a língua, emudece as palavras, ensurdece os ouvidos.
Oh, solidão, quão alegre e terna me fala a sua voz. Anunciam-se todas as palavras e o escrínio de palavras do ser; todo o ser quer, aqui, tornar-se palavra, todo o vir-a-ser quer que lhe ensine a falar.
O cadáver sobre a mesa esse macabro cardápio recheado de mistério, enigmas, silêncios, congelado em pergunta, choro, rezas e velas, sussurros ao pé do ouvido.


(**RIO DE JANEIRO**, 21 DE ABRIL DE 2017)


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