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sábado, 29 de abril de 2017

Ana Júlia Machado ESCRITORA E POETISA ESCREVE O POEMA /**O PROTELAR**/, PENSANDO NO AFORISMO /**A ARTE NÃO É APENAS PARA LOUCOS**/


O Protelar…


Ambiciono raciocinar que tudo sou idónea,
desejo velejar em uma imensidão serena ,
eleger a superior entoada.
Presentemente observo meu espírito isento,
desejo repousar plácida essa escuridão,
meditar no pináculo dos feitos.
Essa minha melíflua e antinómica existência.
Equivoca-se quem verbalizar que entender-te é um agrado
Os verbos por ocasiões alvitram felicidade no arejo,
insinuado que já não devo manifestar, não consigo conceber ,
Tão -só remanesce meditarem!
E quando desligo-me, posso adejar elevado...
no pináculo da mais elevada serrania .
o que hei a desaproveitar?
Nesse caso arruíno-me nas reentrâncias
da minha alma fragmentada,
no interminável do meu intelecto,
esbanjo-me galgando meu “eu”
e afagando minha demência.
Profiro que é preferível ser alienada
do que não avizinhar a local algum,
não habitar integralmente.
E assim caminho, assim sou usufruindo
os exíguos momentos de deleite
e aventurando protelar o que concebe-me padecer…


Ana Júlia Machado.


#ARTE NÃO É APENAS PARA LOUCOS**
GRAÇA FONTIS: PINTURA
Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Não é a loucura que vejo e observo num quadro de Van Gogh, a sua esquizofrenia, ou a epilepsia num romance do mestre Dostoiévski - o único que me administrou as lições das máximas mínimas da contingência, ipseidade, facticidade, em termos e perspectivas o símbolo, o signo da alma humana, mas a expressão livre de um homem, o dizer espontâneo de um indivíduo, a expressão livre de seu ser – só assim numa obra de arte me re-conheço, pro-jecto-me a outras visões e consciências do que sou, de quem sou, só assim numa obra de arte sou capaz de trans-cender e ver além de minha contingência, dores e sofrimentos, alegrias e felicidades, de meu estar-no-mundo, de sonhos e esperanças da eternidade, do eterno da morte e de cinzas, só assim numa obra de arte posso sentir que a criatividade me eleva e me real-iza, transforma-me, torna-me outro na outridade de meu íntimo e de todas as suas dimensões de êxtases e prazeres, na alteridade dos recônditos e regaços dos instintos ávidos de poder e liberdade, desejos e vontades, querências outras. Além de que nem todo o louco ou epiléptico, esquizofrênico é artista, a arte não é apenas para loucos, epilépticos, esquizofrênicos, esquizóides, hipócritas e imbecis, bufões; na arte, porque na escrita qualquer um deles pode fazê-lo, os hipócritas e os imbecis são os que mais têm livros nas estantes das livrarias, os esquizofrênicos mais se ajuízam os imortais, os que mais se aproximam da verdade, embora se lembrem de que o real só exista na imaginação fértil.
Toda a real-ização, por superior, implica o estar-no-mundo, ou seja a presença de um corpo nele. Pobre bocado de carne tão perecível, tão degradado na miséria que a cada instante o corrói ou ameaça.


(**RIO DE JANEIRO**, 22 DE ABRIL DE 2017)


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