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terça-feira, 11 de abril de 2017

**DOSTOIÉVSKI E A SÁTIRA DA VAIDADE** - Manoel Ferreira Neto: ESPÍRITO DO SUBTERRÂNEO, TESE EM DOSTOIÉVSKI


O capítulo II da segunda parte de Memórias do subterrâneo coloca em relevo, finalmente o verdadeiro alvo da sátira de Dostoievski. Afinal descobrimos – é claro que na forma de uma caricatura cuidadosamente distorcida – o que o homem do subterrâneo esteve lendo nos livros que julga tão importantes. Aqui ele assume os traços do “sonhador” romântico que Dostoievski retratara em suas primeiras obras e cujas fantasias literárias haviam sido comparadas com as exigências morais e sociais da “vida real” da qual tentara refugiar-se.
Observamos o que acontece, quando, esgotado pelos vaivéns da dialética da vaidade, o homem do subterrâneo recorre “a um meio de fugir que conciliou tudo”, ou seja, quando descobre “um refúgio ´no sublime e no belo´, em devaneios.
A dialética da vaidade se compara à dialética do determinismo na primeira parte e tem o mesmo efeito de emparedar o ego num mundo alienado de todo contato humano. Assim como o determinsimo dissolve a possibilidade de reação humana na primeira parte, do mesmo modo, na segunda, a vida bloqueia toda fraternidade social.
Vez por outra, Dostoievski enfatiza as conexões entre a dialética da vaidade na qual o homem do subterrâneo está preso e sua cultura intelectual.


Um homem culto e decente não pode ser vaidoso sem estabelecer um padrão excessivamente alto para si mesmo e se se desprezar, em determinados instantes, a ponto de odiar-se .


Impregnado como estava da cultura européia popular na Rússia nos anos 1840, fica claro que o homem do subterrâneo perdeu qualquer capacidade de mostrar um sentimento humano simples e direto para com os outros. Ao invés disso, sua vaidade e senso de importância ficaram inchados a tal ponto que perderam a proporção com sua verdadeira situação social; e “os conflitos gerados por essa discrepância fornecem um equivalente cômico da guerra fratricida de todos contra todos’ (aspas nossas”), que, na sociedade da Europa ocidental, tem origem na predominância do princípio do individualismo egoísta.
O “Homem do Subsolo” não só absorve todos os possíveis traços estáveis da sua imagem, tornando-os objeto de reflexão (a interveniência reflexiva tem também o sentido de sustentar a arquitetônica da narração, mantendo a unidade da diversidade e indicando que a significação de cada parte e de cada evento depende da totalidade descrita de forma temporal); nele esses traços desaparecem, não há definições sólidas, dele nada se tem a dizer, ele não figura como homem inserido na vida, mas como sujeito da consciência e do sonho.
Para o próprio autor, ele não é agente de qualidades e propriedades que podem ser neutras em relação à autoconsciência e coroá-la; a visão do autor está voltada precisamente para a autoconsciência e para a irremediável inconclusibilidade, a precária infinitude dessa autoconsciência. Por isto, a definição caracterológica-vital do “homem do subsolo” e o dominante artístico do seu modelo fundem-se num todo único.


(**RIO DE JANEIRO**, 11 DE ABRIL DE 2017)


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