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domingo, 16 de abril de 2017

**A SABEDORIA E A LIBERDADE** - PINTURA: GRAÇA FONTIS/AFORISMO: Manoel Ferreira Neto


A minha jovem e in-sol-ente, ir-rever-ente sabedoria!
No alvorecer de clima suave, ventinho ameno, a natureza silenciosa, silêncio mágico, quiçá místico, deseja adentrar-se em bosques macios, a luz perpassando as frestas e frinchas das árvores, desenhando no chão espaços claros, límpidos, transparentes, desejaria ela espairecer-se, criar novos mundos, novos desertos, novas montanhas, onde ao entardecer, saboreasse a polpa de figos, umedecendo os lábios de delícias, a minha ventura e a minha liberdade.
Há um lago, embora imaginário, imaginário onde a jovem e ir-rever-ente sabedoria con-templa os raios de luz da lua incidindo na água forma marolas, ilusão de ótica, lago solitário, que a si mesmo se basta; a torrente de amor que flui livre das entranhas profundas da alma murmurejando nos vales o arrasta consigo para baixo - para o rio.
Tempo longo desperdicei à toa em anseios, olhando o nascer do sol, o trans-correr do dia através do badalar do pêndulo do relógio, pers-crutando os pensamentos e ideias que se me a-nunciavam, apenas frutos de inspiração fértil, o belo entardecer, o sol se distanciando atrás da serra, re-colhendo-se, cedendo o lugar à lua, às estrelas, sentimentos e emoções que fruíam atônitos, fantasiosos e quiméricos sonhos e utopias, as esperanças apenas cir-cunvagando... Tempo demasiado pertenci a solidão, era-me a companheira, a amiga inseparável, o carrapatinho, como se diz vulgarmente, pensando estar assimilando lições e aprendizagens, construindo o "eu", artificiando a visão, tornando-me por inteiro uma língua.
Cansei-me da velha solidão, do eu cristalino, cristalizado, da língua que só emitia palavras lindas, parecendo saírem da boca de antigos e milenares profetas. Olhando, vislumbrando, pers-crutando, con-templando os primevos raios desta manhã, perpassando as frinchas das folhas da mangueira, raios vermelhos, não quero mais trilhar, o meu espírito recusa-se a caminhar com solas gastas, des-aprendeu a solidão, quer precipitar minha palavra nos vales, nos chapadões, nos pampas, encontrar a ilha bem-aventurada onde vivem pessoas que desejam fervorosa e calorosamente as cores do arco-íris cobrindo , qual tapete, as veredas do campo, as sendas das estradas, quer navegar por amplos mares, não como nômade, andarilho, vagabundo, mambembe...
Os amigos atônitos, surpresos, admirados, quem aplaudiam a língua de palavras velhas, viam nelas inestimáveis dimensões outras da vida e do mundo, esta jovem e in-sol-ente e ir-rever-ente sabedoria que sinto estar evolvendo-se nos inter-ditos do íntimo, virarão as costas, sumindo-se na distância, dizendo estar eu bem equivocado, o que penso ser sabedoria é simplesmente o Maligno. A minha jovem sabedoria engravidou-se em silenciosas colinas, à vista da ampl-itude do mar, e nesta manhã de clima suave, ventinho ameno dá a luz o mais novo sentimento de liberdade...
O vento do leste sou eu para os limões maduros que serão suco para saciar-me a sede.


(**RIO DE JANEIRO**, 16 DE ABRIL DE 2017)


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