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quarta-feira, 12 de abril de 2017

**ELOGIO AO CINISMO** - Graça Fontis: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: SÁTIRA

O cinismo foi-me desenvolvido pela educação. Só conhecia os afetos, por assim dizer, familiares e inertes, os que não são conhecidos pela razão nem pelas manias instintivas dos “achismos”. Sarcasmo e ironia foram estendidos e ampliados através do conhecimento das hipocrisias manifestas e farsas latentes que os homens fazem questão de ostentar, sentirem-se orgulhosos e satisfeitos, são incompetentes e incapazes de ver além de seus instintos.
Mergulhei tanto neles, descobri tantas coisas, vivo em busca de outras, que me dei ao luxo de deitar na cama, rir à vontade e à revelia disto que se chama, é intitulado, ser homem, de mim próprio que trago dentro características de humanidade.
Murmúrio de outrora, de outrem de ribeiras próprias, de arvoredo meu, abre a porta, em grandes imaginações, em emoções súbitas sem “eira-nem-beiras”, em inspirações eternas sem uni-versos e horizontes. Abro as mãos ao tempo oportuno, e procuro, sem cessar, a misericórdia que me envolva para sempre.
Era o que desejava encontrar por cantos e re-cantos espalhados, semeados, sarapalhados: cínico, irônico, sarcástico? Por todos os lados, olhares, sorrisos amareliçados, merecedor de desdém, desprezível; por inacreditável que seja, não re-colhi qualquer evidência, não colhi qualquer sinal daquele fala que da comichão à urticária é insustentável: "Julga-se superior". Fosse-o, não precisaria de trazer no bolso estes utensílios. Porque não sou superior a ninguém, sou cínico, sarcástico, irônico. Isto não significa que me sinta inferior aos homens, cinismo, sarcasmo, ironia são a minha bengala, muleta, com eles me defendo, tiro-me da reta. Seria o mais alto nível do cinismo, caso deixasse vazar estes estados da alma - chamo-os assim; chamem-lhes como melhor convier - escondem, envelam um inútil, incapaz, imprestável.
Contento-me com eles, são objetos de alegrias, prazeres indescritíveis, constituem-me a vida. Penso com os sentidos, mister tirar as sombras do caminho, com a razão, todos assim pensam, as sombras intensificam-se, chegará o lugar das trevas. É o que move a sociedade, os princípios racionais, a moral estabelecida. Claro, claro, por que poria isto em discussão? Sou consciente. Tanto o sou que não ando nas trevas, nas brumas, o tempo é sempre sereno, serena é a manhã, serena a tarde, serena a noite, o orvalho da madrugada. Resguardo-me mais facilmente de qualquer impulso de hipocrisia. Se há no mundo algo que a hipocrisia não con-sente presença são do cinismo, ironia, sarcasmo, não tem pedigree para argumentar, sem quaisquer esclarecimentos para dialogar, encetar questionamento. Teria vergonha inconteste encontrasse uma côdea de hipocrisia nos cafundós da alma, creio que não teria coragem de colocar os pés na porta da sala de minha residência, do quarto à cozinha, ao banheiro.
Devo, então, atear fogo no meu castelo de espelhos, devido ao fato de o cinismo não ser con-sentido nas relações humanas e sociais, para alguns trata-se ele de um vício dia-bólico, ou mergulhar uma lâmina afiada no coração, após saber o que é mesmo ser "cínico", até o momento encontro-me cego, a visão se re-velará nalgum momento.
Certamente não o sentido de nossas tristezas, nem sempre muito acalentadoras, aliás desoladoras conforme alguns juízos. Certamente não o sentido de nossas dúvidas, nem sempre capazes de nos levar à esperança livre, ao sobrevoo que muitas vezes adormece o espírito e a alma, às observações com olhos de lince para o infinito das querências e esperanças de conquistas espirituais. Certamente não o sentido de nossos medos, nem sempre capazes de tornar topia as nossas ilusões ou mesmo as fantasias do sim e não. O espelho reflete certo, não erra porque não pensa. Errar é essencialmente estar cego e surdo.
O tempo acintura a forma de um corpo, pressagiado de amor. O espelho mostra o contorno de saudades, o bocejo de ansiedades, que fizeram o retrato da noite. Driblo o tremor que avassala o sono engomado. Dou a contrafé de mim ou a ambiguidade da fé contra o re-verso das versidades do além e absoluto. Não é de mim que as línguas são im-perfeitas para que o silêncio ec-sista. A solidão assiste ao medo, à morte do riso, e o silêncio baliza eloqüentemente quando naufraga a vontade. Espelham-se o verbo, o ato e o rugido, ou seria mugido? Não o sei. Porque não sei é que escolhi referir-me a ele. Pasmei do fracasso com que riem dos ossos sempre cobertos de carne, com que escarnecem dos ócios acompanhados do néctar dos deuses, com que vangloriam a farsa, a falsidade, acompanhadas dos gestos sempre re-vestidos de calor humano; surpreendi-me com o olhar à falta de pejo, vergonha de mostrar abertamente as mazelas de meu caráter, de cantar e decantar os vícios de toda ordem, não terei seguidores. Às vezes, faço de um raio de luz e da minha paixão o silêncio, e o porquê deixei de figurar nas respostas e ganhar uma face ensimesmada e triste, de pré-figurar nas certezas das verdades incólumes.
Posso citar com todo orgulho e empáfia o que respondi a alguém, quando me perguntou se era tão simples, após uma vida com alguém, sem quê nem porquê, seguir outros caminhos: "Tão simples assim..." Olhou-me introspectiva, circunspecta como quem diz ser a minha escolha, não recolhi no olhar, no semblante qualquer coisa que me dissesse ser a resposta muito própria de um "cínico, sarcástico, irônico"
(**RIO DE JANEIRO**, 12 DE ABRIL DE 2017)

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