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sexta-feira, 14 de abril de 2017

#SERPENTE DO CONHECIMENTO# - Graça Fontis: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


A dilação por prazo ilimitado, indeterminado ocasiona, con-duz para o acusado certos infortúnios inconcebíveis cuja importância não pode ser negligenciada. Não é intenção falar da questão de jamais se encontrar livre, já que, para falar com propriedade, também não o seria com a absolvição aparente. Mister pensar com acuidade, esmero, deixando a mente livre de quaisquer pensamentos a priori.
Trata-se de outra cosita bem diferente. A diferença faz a diferença. A instrução não pode ser suspensa sem que haja ao menos motivo, razão aparente. Assim, em nível eminentemente teórico, deve seguir, prosseguir. E, de tempos em tempos, medidas são necessárias, organizar interrogatórios, ordenar perquirições, elencar in-vestigações. Apenas com uma palavra: é preciso que o processo não pare de girar, qual catavento no alto da colina, no pequeno círculo a que, inda que de modo artificial, se limitou a sua ação. Para o acusado - ele é a nossa personagem convidada - isto, queira ou não, comporta incômodos agônicos, que, todavia, também não se deve levar ao paradoxo, ao exagero. Fica tudo na aparência; os interrogatórios, se se pensar com os botões da casaca, são em demasia curtos; se não se tem tempo ou disposição, vontade de comparecer, há como se desculpar algumas vezes, apresentando as devidas justificativas.
Aí vem os juízes, como não poderia deixar de faltar. Acusado e juízes andam de braços dados, até que a absolvição ou condenação os separe. Com certos juízes, tomando em conta ser ele flexível, estar de bom humor, pode-se até combinar com antecipação o emprego do tempo por um longo período; no fundo, trata-se apenas de se apresentar de quando em vez ao magistrado, para cumprir o dever de acusado.
Neste ponto, não há como refutar o pensamento dominante e a alma sagaz, o sol de ouro e a serpente do conhecimento.


(**RIO DE JANEIRO**, 14 DE ABRIL DE 2017)


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