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segunda-feira, 10 de abril de 2017

**TEATRO DE NÁUSEAS E PRAZERES**- Graça Fontis: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: CRÔNICA


O vazio é o cheio...
Não há furtar-me à plena gargalhada com direito aos olhares furtivos à vida em seus instantes. O copo de café, ao lado da térmica, está vazio.
Colocar mesinha numa praça pública, café na térmica, copo vazio. Quê belíssima encenação! Não esquecer de um pratinho onde todos porão moedinha para alimentar um pouco o estômago que anda vazio, a sandice que anda carente. Estaria isento desta comédia barata de monólogo, o coração pulsando, dores e sofrimentos indizíveis, inelutáveis, náuseas, angústias, sentimentos e emoções des-norteados, des-conectados, confusos, perdidos. Tudo pura encenação para mim próprio. Em praça pública, poderei chamar atenção, haver quem ouça todas as minhas verborréias, ajuizá-las coisas profundas, e com as moedas adquiro pães para o café da manhã, o prato feito no botequim. Um bufão, com isto a minha sobrevivência.
Como o vazio é cheio? Posso enchê-lo de nada com as minhas perquirições, questionamentos, na imaginação colocar pensamentos, idéias, teses do vazio dentro do copo, a última gota a transbordá-lo ser a razão em sua in-finitude de absolutos. Para o copo, tudo isso é simplesmente nada, então o vazio está cheio de nada.
Ih, ih, ih...
É tomar uma dose de cafezinho que só enche dois dedos do copo, e beber um pouco do vazio, cheio do cafezinho, a pensar o vazio que é cheio.
Estou cheio de pensamentos, idéias, buscas, desejos, esperanças, que, sinceramente, nenhum resultado me trazem, nada real-izo, sempre protelando, amanhã virá o encontro, sentir-me-ei feliz. A vida passando, passando, e nada, antes do último suspiro: "Gastei a vida com as brisas, vivi de orvalhos da noite sem promessas de amanhã, passei a vida em brancas nuvens". Sem possibilidade de retorno, jogar tudo fora, vazio até as mais profundas intimidades da alma. Pensamentos, idéias, buscas, desejos, esperanças enchem o nada, o vazio da vida, meras fugas para a aceitação da morte, e ainda aquilo da ressurreição, como reza, em terços de contas de ouro, o cristianismo, estas "cositas", se bem administradas na vida, garantem o paraíso celestial. Quê nada!!! Garantem sim a plen-itude do inferno con-tingente, o inferno é aqui mesmo no mundo, estas cositas só assinam embaixo, endossam. Estou vazio de tantas cositas a encher-me.
Herisberto está cheio de vazios, vazios de todas as ordens e categorias. Estou vazio, sou o vazio de coisas que id-ent-ificam o vazio que sou.
Ontem, à noite, tendo perambulado por algum tempo pelas ruas, entrando e saindo delas, acabei sentado num restaurante, acompanhado de Ernane Gouveia, quem vive sérios problemas psíquicos no matrimônio e como profissional do Magistério, dizendo-me com a empáfia do intelectual: "O vazio é o cheio e o cheio é o vazio. Simples: é só colocar o cheio dentro do vazio e o vazio dentro do cheio. Mas e quando "o tudo é o nada e o nada é o tudo? Esprema os miolos e compreenda isto. Só vai ter uma noção disto na vida, quando o nada de tudo for o tudo do nada".
Por vezes nas noites de andanças sem rumo, passo na Cantina do Zé Égua para jogar conversa fora com os intelectuais de plantão. Sentem-se Sócrates dialogando com seus discípulos, diálogo profundíssimo, os séculos continuarão discutindo sobre as idéias e teses, à busca de compreensão e entendimento, um gancho para novos caminhos da vida, mas só dizem asneiras, pavonices da incapacidade de pensar. Mas Ernane Gouveia disse coisa séria: "O tudo é o nada e o nada é o tudo". Depois de meu espanto com sua afirmação, que re-velei com "Explique isto...", disse-me haver visto num post de Rede Social, Facebook, de uma portuguesa, não se lembrava do nome, mas era professora de universidade.
Os clientes que se encontravam perto de nós, aquando sua afirmação, esbugalharam os olhos, as fisionomias sofreram mudanças, mas quando afirmara haver assimilado as frases num post do Facebook de professora universitária portuguesa, simplesmente um "affffffffffffffffffff". Estava Ernane Gouveia vazio de coisas cheias. Estavam todos com razão na manifestação do "afffffffffffffffffff", pois quem ele era para entender frases de europeus, cultura milenar, ainda mais em se tratando de Portugal, hoje vivendo a miséria social, política e econômica de toda a sua História.
O vazio é o cheio e o cheio é o vazio, o tudo é o nada e o nada é o tudo. Viver é tudo, viver é nada, viver é vazio, viver é cheio. Vivo o vazio no tudo, vivo o cheio no nada.
Herisberto quem poderia tecer todos os seus conhecimentos a respeito, nada dissera, permanecera quieto e silencioso, como quem diz: "...Não sou quem entende de bufonaria.", disse-o e Adão Boaventura respondeu gargalhando: "Entendo eu de Maçonaria".
Em que "buraco de tupiniquim" fui-me meter com as questões de conversar comigo mesmo, como se estivesse num papo de elevado nível com alguém, muitas vezes penso que estou deitado no divã de Bracellos, o grande psicólogo de nossas terras, dizem que a sua psicologia salvou e ressuscitou louco, transformou-lhe em quase perfeito, acabar não acreditando em nada do que digo, desejava ser sincero comigo, jogar-me as cartas sobre a mesa, e nada disso alcançando, diante de tanto drama o melhor seria a comédia pública. Simplesmente louco desvairado, ao menos sabe falar.
O que é isto mesmo de Espírito do Subterrâneo?
Mais um gole de café. Acender um cigarro, tragar a fumaça, expeli-la. Encher-me e esvaziar-me. Ser o não-ser e não ser o Ser.
Arre... Irri... Urre...


(**RIO DE JANEIRO**, 10 DE ABRIL DE 2017)


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