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quinta-feira, 6 de abril de 2017

**A LESTE DO DESERTO MONTANHAS E FLORES...** - PINTURA: Graça Fontis/PROSA POÉTICA: Manoel Ferreira Neto


EPÍGRAFE:


"O milagre da obra humana, à face da montanha, vejo sumir-se na poeira – no silêncio da ordem universal súbito clamor de misericórdia atravessa de alvoroço a paz dos homens." (Manoel Ferreira Neto)


"Qualquer mistério é liame do silêncio e inspiração o tempo amarra na eternidade."(Manoel Ferreira Neto)


Seja-me permitida oportunidade de - num fim de tarde de quinta-feira, ventando, sol ameno, deitado na rede na sacada da residência, fumando, criando musiquetas das razões absolutas do efêmero, fugazes da eternidade, suscitando fará friozinho na madrugada, não os que exigem três cobertores de lã, mas agradável de se conciliar o sono - sonhar a natureza em harmonia com o espírito, sentir preciso aquecer, com paixões outras, desejos que me habitam, reclamam revelações.
Assim pedindo e rogando, não estou interessado em diplomacias. Muito embora prefira ser verdadeiro, sem me inspirar nestas características, creio divulgar sentimentos outros, sem os quais não seria indivíduo ardiloso, deixando as palavras ressonarem em antemão de sinuosos avessos; creio expressão da espiritualidade seja poucochinho sutil e, assim, destilo venenos singulares, pois que amaria se a revelasse, podendo até rejubilar-me por encontro com ideais.
Devo dizer, antes de seguir, o pedido não se justifica como se fora condenado ao silêncio, nada restando senão pedir para dizer o que me vem à alma, não me importando se a derradeira vez. As palavras sejam último desejo, desnecessário cumprir, publicar. Tendo sido ouvido, certifico-me de não esquecer palavras célebres - a Leste do Deserto não serão esquecidas por terem sido espetáculo da natureza.
Este mistério de viver sente desejo de conhecer, na jornada, a vagarosa caminhada. Por lance de dados, acreditando nada poder causar-me surpresa ou suspensão, sem arrogância de análise, janela mostra imagem de homem com a frincha de desejo impossível, para ser lugar concreto nas encruzilhadas recorrentes de tempo e espaço.
A alma será saciada em grande banquete. Jardins de rosas brancas, flores variadas, lágrimas (quando contidas), partidas e lutas são para amanhã. O céu abrindo fontes de luz no espaço, alegrias se assemelham a utopias.
Quem nasce é ainda nada. Quem morre, a infinitesimal aparição; é a plenitude, pura necessidade de ser. Um homem só é perfeição, realiza-se até aos limites, após a morte o não poder anestesiar. É assistir à aparição de ventos de aquéns-em-aléns, na madrugada, mesmo por breve tempo - enquanto raios de luzes emergem da espessura em que deslizam os dedos - pessoas tagarelem o cotidiano de louvores, reconhecimentos.
Reconheço-me mundo fechado – voz obscura que me fala transcende passado e futuro, vibra desde as raízes ao universo, - indissolúvel, olho sensações que me foram habitando, sei-me ser instalado em esperança originária de pão necessário. Como é estranho este esforço de captar na palavra instante infinitesimal, ainda não é, mas se faz presente e é antecipado pelos anelos do coração.
Não tenho direito de me orgulhar desta voz obscura senão assumir sou ser instalado em esperança originária de pão necessário, outra não sendo senão a de mergulhar fundo n´alma, arrancar-lhe desejos de assistir as necessidades humanas. Valores e virtudes pertencem aos homens.
A dimensão de infinitude que nos habita, este poder incrível de saber-nos, é em nós que se limita e torna absurdo o desafio que nos lança a contingência e morte. A experiência de nós, bom moço, do inverossímil milagre do que somos, é difícil, e de si miraculosa.
A luz que nos esclarece a razão, ilumina a sensibilidade, é a mesma que nos alumia a sabedoria, vontade de compreensão das coisas do mundo. A alma subindo às alturas, podendo vislumbrar e contemplar a luz, leva consigo vontades de júbilo, que, do mais fundo, remontam à nascença, pela mesma lei que faz subir ao nível originário a água derivada do topo da serra, esteja longe ou próxima aos olhos.
Não me é dado pensá-la, se não a relaciono com o talento, todos somos talentosos, a fim de poder criar o pão de cada dia; este talento é arma divina, não tenho quaisquer dúvidas, que Deus concede aos homens para que a empreguem no melhor serviço dos semelhantes. Se esta luz a priori não seja dirigida aos homens, em verdade perdera o brilho, nada resplandece, e o tempo fá-la extinguir-se.
Homem novo vai nascer. Há no coração o mistério de re-novação para todos, esse poder que instaurará as verdades na terra, todos serão filhos de Deus e será isto o advento do Reino. História nova, porém, e vivida no sangue, tenho sim, mas é minha. Em tal caso, se não falo ao futuro, se é história “individual”, mais do que de “pessoa”, “homem”, se é “historieta infantil e ingênua”, de que servem os cigarros para elaborá-la?
Em verdade, fumei único, dei poucos tragos, não podia interromper as idéias que me surgiam para apanhar o cigarro no cinzeiro, sobre a mesa do lado direito, trazendo-lhe aos lábios, tragando, recolocando-o no cinzeiro. Se o fizesse, teria de espremer os miolos para recompor a idéia, óbvio perdendo a originalidade. Por momentos me sinto vazio e só consigo vencer, se interrompo e dou trago no cigarro. Quanta vez me deparei com dois queimando-se!...
Só nos ermos em que não caíram as cinzas do exílio, a vida conserva a divindade do talento e do dom. Os olhos ofuscados vêem os sonhos como vasto campo a revelar-se entre duas realidades, a do horizonte e a do infinito. É verdade que se me revelou ao espírito, estando a relembrar esta fala, e que, salvo não estar tergiversando as idéias, concedendo-lhes substancialidade, não pude me furtar ao desejo de contemplá-las.
No sonho, alarme, mistério, a presença de mim a mim, mundo submerso na intimidade – só há problema para a vida, o de conhecer a condição, e de restaurar a partir daí autenticidade.
Será que estou cedendo ao tempo avaro, inverno do mundo? Mas é a nostalgia da palavra, melancolia do verbo que emocionam o coração e faz o espírito vibrar de júbilo.
O segredo está enterrado no vale de oliveiras, sob a relva e violetas frias, em volta de casebre cheirando a tinta fresca. Noite e dia, falo, levanto a voz, clamo. Tudo se inclina. Surdo a todas as vozes.
Talvez, estando preste a morrer de fadiga, possa renunciar ao túmulo dos néscios para ir deitar-me na areia do deserto sob a mesma luz, e possa apreender o fogo ardente penetrou-me. Quase sem forças, rasgo verbos.
Muitas das dores amenizaram-se, iniciando outro estilo de ser. Alegria humilde e, todavia, excessiva, eleva-me, transfere-me à evidência dominadora que respiro como ar de alhures.
Penso e imagino que a tarefa humana é fechar e apertar os olhos, e ver se continua pela escuridão do quarto de dormir o sonho avesso da ambição e volúpia.
Não sei dizer se fazia pouco de mim, se procurava feixe de luz por abertura estreita; gostava dela, muito. Dizia “eu” e, dizendo “eu”, era extraordinária maravilha.
Sempre em torno rebenta a esperança de quem inicia, renova-se a vida, re-nascem experiências de comunhão. A vida, o minuto primeiro – ignoro, se não tenho podido explicar aos homens de alma e coração puros, cenas e imagens sobre que nem sempre falo.
Todo imenso, abençoado, envolvido por neblina, estende-se diante da alma; coração, alegre e saltitante, como convém à criança que sai da mercearia chupando pirulito, aí mergulha e se perde, da mesma forma que os olhos, ardentemente aspiro a entregar-me aos prazeres efêmeros, deixando-me impregnar de sentimento único...
Ai de mim!... Lá chego, cansado de tantas subidas, às vezes de ladeiras absurdas às pernas, vejo nada sofreu metamorfose; encontro-me mesquinho como outrora, a alma sequiosa suspira por água refrescante.
Homem que, tomado de espanto diante da mediocridade, apela para forças e transporta facilmente cargas que, de sangue frio, mal poderia empurrar. A natureza humana suporta a tristeza, alegria, até certo limite; se o ultrapassar, sucumbirá. A questão não é saber se o homem é digno de respeito ou dó, mas se pode aturar a medida da imbecilidade, que lhe é de vocação e direito.
A vida é sempre a primeira hora.
No silêncio da noite, a voz firme ergue-se ESPERANÇA a ESPERANÇA... Na mocidade, era antes taciturno, não por medo ou timidez, pelo contrário, por espécie de preocupação interior que me fazia esquecer de tudo, impossível sabê-la, e por mais procurasse estilos de a saber, parecia-me criação, impossível esconder ser alguém de imaginação fértil.
O milagre da obra humana, à face da montanha, vejo sumir-se na poeira – no silêncio da ordem universal súbito clamor de misericórdia atravessa de alvoroço a paz dos homens.
Há no homem, bom moço, dor silenciosa; entra em si, cala-se. Há outra que explode: manifesta-se por lágrimas de comoção e se expande em serviços. Semelhante dor não quer consolações, repasta-se com a idéia de ser imortal.
De novo, levanto harmonia de idéias, coroada de eternidade – num longe imaginado (aí onde a lembrança é só pura expectativa) passam ventos em linha, voz de espaço ressoa à atenção suspensa.
Só morre o que temos ainda para projetar. Nada tenho? O amor. Envelheço-me. Morrer. Que importa se agora ou daqui a segundos? Faria diferença? Não acredito. Convivo com esta realidade. Outrora a desejei ansioso, seria melhor que continuar com tantas dificuldades. Sacudir de mim o que me enfraquece. Este vil bocado de carne. Os planos atingem planalto extenso, cercado de alvos picos de neve... Construção solitária de madeira escura e pesado teto branco, perdido e sozinho na vastidão debalde(?).
Volto, talvez na esperança de reencontrar liberdade cuja lembrança me acompanhe, recordação que esteja a seguir-me passos e traços. Gosto de sorriso lívido de olhos brilhantes, do privilégio de blues num botequim de rua sem luz, ninguém presente, o som baixo, luz turva, proprietário com cotovelos enfincados no balcão, palitando dentes. Ficar o dia sozinho, perquirindo e analisando a beleza. Mister conhecê-la pouco mais. E, para recriar beleza, amor dilacerante, só uma atitude é suficiente: olhar profundo numa sala vazia, o eco primordial de sons. Só assim consigo descrevê-la. Se tinha enorme ternura, entregando-me, era afinal a mim, porque não há senão esta entrega para nos restituir a nós.
Seja dito que o segredo grita, frágil, para a insolência da meiguice, nas sementes dos sonhos do verbo; é isto que deve ser dito, qualquer mistério é liame do silêncio o tempo amarra na eternidade.
A brisa antes dos oceanos desliza-se em palavras a desejar de si fluírem sons eternos e solitários, nada mais posso esperar que sejam ouvidas sem talentos ou dons; apanho pedra no chão e, mãos em concha, distribuo olhares em direções outras do horizonte. Neste instante, que talvez esteja servindo para algo, esteja a fazer-me bem, (se não bem, mal espero não fazer!) deixe a verdade iluminar-me.
A beleza encontra-se suspensa. A suspensão encantoa e borrifica os segundos e minutos, esboroa o deslizamento das horas.
Músicas.
Fácil. Vejo-me andando por um jardim. Florido. Rosas, lírios, crisântemos formam harmonia inverossímil.
Incrível a força para as evasões. Apanho o cachimbo. Dou puxadas. Fumaça não sai. Tiro do bolso caixinha redonda, cor-de-rosa, onde está colocado o tabaco. Ponho. Acendo o isqueiro. Abaixo, invertendo a posição da mão. Entupido.
Beira de lagoa. Água clara, sendo possível ver-lhe o fundo. Pequenos peixes, dando continuidade à existência. Apanho pedrinha, atirando-a na água, a fim de ver-lhe o ricochet. Peixes espavoridos, fugindo. Ao lado, o orvalho da manhã sobre o capim. Chilreado de pássaros. Nova imagem. Apesar de calma, há muito de sinistro e misterioso. Como desvelar isto? Quase impossível. Ao longe, rezes pastam. Braços para trás, olhando a natureza. Face sombria a custo de esforço consigo tirar. Transborda ao frio exuberante. Inverno. Último homem.
Dilação indefinida – desde que tomei consciência desta expressão, tenho sobremodo pensado nela; talvez seja categoria. Consiste em manter o processo em uma das fases iniciais. Para conseguir tal coisa é preciso que o acusado e colaborador, certamente este último, mantenham ininterrupto contato pessoal com a justiça.
As horas acham-se encantoadas. Os minutos, presos no pêndulo, entorpecidos. Os segundos, parados nos ponteiros. É à tarde, quando o dia penetra no abismo do tempo, que a existência é quotidiana. Há ansiedade vã na noite, céu sem luminosidade. Até neste torpor sem limites, cada ação e gesto revelam-me.
Tenho essa vida para viver, e seria quase traição faltar à entrevista – entrevista endossada desde a eternidade. Por isso, procuro-a ao amor, em toda a parte onde sei esperar-me palavras.
Tenho fumos de insigne nas horas de pachorrice. Quem não é de todo pachorra? Releva observar não recorrer à idéia de antes da melancolia estes fumos de insigne servirem de máscara, que não admito, sendo mais aconselhável perecer; serviram de fuga, para não estar de frente com a indigência.
Creio na harmonia entre os desejos e as relações, dizendo haver superado as expectativas.
Devia ter percebido para que porto o coração selvagem se dirigia, e, selvagem, os sentimentos puros se revelariam, apesar de a sombra ombrear os passos. De que me valeria a selvajaria, não fosse a presença da sombra a ombrear-me os passos. Não sei elucidar os contrários e adversidades. Quem sabe o caminho da consciência seja itinerário a ser seguido para vencer as dificuldades!...
Falo com paixão. Paixão louca pode justificar quimeras e fantasias deléveis. Não justifica o mais importante: o erro. Sendo este incontestável, fatos não podem trapacear. Muitos, não olhando de soslaio e se afastando, fá-lo de longe indecisos, com hospitalidade de sorriso mesclado de dúvidas e medos. Quem sabe realizo algo esperava veemente, apesar de ser pudico nalguns valores e virtudes de homens célebres!...
Sei a minha arte: ininteligível seria supor e desejar não a soubesse, sem ela ser-me-ia impossível estar falando neste estilo, às avessas, portador de veneno sem precedentes, os encômios satisfazem a todos os paladares, dependendo dos achaques e pitis. Não me esqueço do outro lado da moeda.
Melhor haver menos sentimento nestes colóquios, navegar mais junto às pedras das montanhas, ao invés de lançar-me às palavras de conduta ilibada. Mas, enfim, posso afiançar, não apenas com palavras medíocres, ser questão de estilo.
De outro modo, pareceria entregar-me por curiosidade, talvez por costumes; seria enfadonha esta dúvida traidora sobre nuvens que cobrem os céus da humanidade, experiências que edificam as realizações, embora revezes e antemãos. Não me ando a seduzir há muito. Além de outras coisas...
Não sou homem quem afasta experiências vividas em detrimento de única, isto movido por interesses mesquinhos, sentir-me confortável no meio dos homens. Creio a consciência que se me revelou da profundidade de não me andar a seduzir há muito explica o passar ontem deprimido, e para conseguir não me entregar ao torpor, pus-me a jogar paciência com velho baralho encontrado numa das gavetas na biblioteca do quarto, pequeno móvel em que guardo vinte e sete livros. Seja então início de outros risos e ouros ao longo do caminho decidi-me trilhar. Parece-me melhor que paixão desinteressada; aliás, poderia ser internado nalguma Casa Verde, não acredito.
Seria ininteligível não revelar o sonho que tive esta noite, ficar-se-ia a criar hipóteses sobre algo que tenha gerado este conhecimento, e que, em verdade, tenha dele dúvidas atrozes da veracidade por se encontrar envolvido em hipocrisias.
Sonhara que no interior de mim lia algo. As palavras reconheci-as como se constituíssem canção. Aliás, surpreendi-me, dizendo: “Há uma canção nestas palavras. Há ritmo, melodia, arranjo”. Não me admira que desta lembrança, difícil de não perceber e perscrutar perturbações, primeiro clarão da aurora, atravessando os vidros da janela da alcova, alumiasse o rosto, grave e plácido anterior à calma antes da tempestade.
Seria até não assumir o que digo, enquanto cofio o bigode, hábito que adquiri. Não me admira não tenha dúvidas acerca da veracidade, o que escondem palavras às avessas, inclusive desde o início, quando poderia haver dito “selvageria”, dizendo “selvajaria”, e compreendo haver verniz de celebridade no uso.
Fecho os olhos, e, se o verniz de celebridade torna-me inoportuno, devendo continuar a falar em voz inaudível com absoluta atenção se alguém não percebe esteja conversando sozinho, amanhã não haverá quem não saiba converso sozinho, e todas as galhofas far-se-ão notórias, não o deve à vontade, mas à situação, porque nem todo o engenho de Voltaire pode fazer homem interessante. Enfim, jamais fui quem haja negligenciado o homem trabalhar sem raciocinar, é o único modo de tornar a vida suportável.
Sou propenso que esta fala se fundamenta no lema adotado, desde a mocidade, idade em que os espíritos jovens são extraordinária vocação para o tabernáculo de imbecis. Por que me arriscaria a vida insuportável, esquisita? À parte todos os senões, desde o de que é preciso coragem para ser feliz, e não sou homem corajoso, aventureiro; aliás, muitas vezes até me pergunto sobre a veracidade da selvajaria não ser imaginação; desde o de fuga, conduta de má-fé, mais precisamente falta de responsabilidade com quem represento.
Pareço-me indiferente aos sentimentos que inspiro – não haveria modo de não sê-lo, pois que as dúvidas sobre esta fala são traidoras. Se não indiferente, não seriam dúvidas, mas distúrbio de personalidade - palavras dizem algo, sou diferente delas. Sendo indiferente aos sentimentos que inspiro, obedeço ao lema não menos que a disposição do espírito. Sei a fundo a retórica da paixão, não a emprego sem parcimônia.
Nada dissimulo, não revelo os desígnios. Deixo transparecer no rosto o que sinto no coração. Poder-se-ia dizer seja espírito compulsivo, não negligencio. O senão está justamente que me aproveitei dele com sapiência, sublimei-o. Mas jogo cartas na mesa sem previsão. Expansivo e discreto, possuo estes contrastes aparentes, não sendo mais que harmonias de caráter.
Haveria quem não pensasse, se me estivesse ouvindo, uma consciência assim não daria o troco, o retorno não seria depressão, momento de fazer inventário, saber o porto a que me destino. Defeitos nascem de qualidades. Sou crédulo à força de ser confiante, ríspido com tudo o que me parece fútil. Tenho a imaginação quimérica, às vezes – a inteligência austera, mas compenso estes defeitos, se o são, por qualidades sedutoras e raras.
Os olhos estranhos buscam esconder o segredo. Afianço nada dissimular, não sabia de que segredo se tratar, visto neste monólogo a distância entre as palavras e sentimentos ser considerável. Acho-me perfeito demais. Que razão haveria para esconder-me dos olhos dos outros? Não revelar algo não tardaria a ser público? Pode ser que me engane, mas creio haver imaginação criativa.
Olho, digamo-lo assim, por baixo das pálpebras.


(**RIO DE JANEIRO**, 06 DE ABRIL DE 2017)


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