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domingo, 9 de abril de 2017

**DE MOLDURA E ESTILO** - PINTURA: Graça Fontis/PROSA: Manoel Ferreira Neto


EPÍGRAFE:


"Assusta-me com a necessidade de quebrar um dos fios de ouro que tecem os meus crepúsculos inocentes e felizes; sofro com a idéia de ver em luta duas das afeições calmas e serenas de minha vida." (Manoel Ferreira Neto)


Sem qualquer volúpia, euforia, êxtase... sem vanglórias, vaidades, orgulhos... Sem nada, em verdade. Às vezes, suponho distinguir aquilo que desejo con-templar, ver, e essa ilusão – ou deveria dizer quimera? não seria um vocábulo mais feliz para a questão? -, é uma felicidade que se esvai num átimo de segundo, ao tentar alcançar a bela miragem!... - oásis continua sendo o mais apropriado para o que sinto. De pés e mãos atados, então. De mãos vazias. Com as mãos nos bolsos sem fundo.
Comprazo-me em deixar-me penetrar pela tristeza misteriosa, melancolia e nostalgia enigmáticas, circunspecção sombria do crepúsculo, prospecção luminosa do anoitecer, fico longas e esquecidas horas a olhar vagamente para o horizonte, que, além, se atufa nas derradeiras matizações da luz do sol, ouvindo-me ser, o que sobremodo me orgulha a mim, por mais que isso por vezes cause-me sensações as mais di-versas, perdendo-me nelas, e por derradeiro a natureza parece ir morrendo em passos de preguiça à proporção que lhe exaure o dia, escapem-se-lhe as horas todas, como se lhe fugisse a alma. Há em todas as coisas, em todas as criaturas a sombra melancólica de uma saudade, saudade de uma esperança, saudade de um sonho, saudade de um desejo, saudade de vida outra, saudade da vida mesma, "saudade de existir", a liberdade, a responsabilidade, os compromissos, atitudes e consequências, sendo no mundo, o que é simplesmente a luva e as mãos em perfeita harmonia para as angústias trago em mim; as árvores murmurinham numa magnífica e deliciosa agonia, e no seio da terra caem as primeiras lágrimas da noite.
O tempo não existe – é no crepúsculo que isto não é uma ideia em mim, mas sentimento de realidade, sentimento real; a idéia dele é toda relativa; ao passo que o amor não tem relações, nem admite leis, não aceita correntes e algemas, não se ajuíza sobre as coisas efêmeras, o vindouro constrói com a entrega, afago. É um fato real; existe! existe, que o sinto palpitar aqui dentro, sinto dar-me asas para vôos além de todos os limites, de todos os uni-versos, do infinito, não como um miserável relógio que mede a vida gota a gota, ininterruptamente, mas desvairada e desnorteadamente, como neste instante... instante em que sinto amar, o amor habita-me profundo, em ilusões, quimeras, fantasias, sonhos e utopias, conjugo o verbo de meus desejos e vontades de rebentar-me no coração grande alegria, sair a chorar de contentamento pelas ruas, chorando e dizendo desta felicidade, a entrega. Quiçá no íntimo versando algumas ilusões em comunhão às sorrelfas do entardecer.
Estes sentimentos são toda a minha vida; no meio deles sinto-me feliz, nada me falta: também nada mais ambiciono, de mais nada sinto saudades, nada mais quero buscar, nada mais quero encontrar, sinto-me pleno, e a plenitude invade-me por inteiro. Enquanto posso sorrir na presença da tarde que se vai, o sol se esconde, a noite chega, o céu revela as estrelas, cobre-lhe delas, a lua se mostra, em mim afloram sentimentos, emoções, a sensibilidade aguça-se, a ek-sistência para mim é sublime e esplêndida. Assusta-me! O quê? Tomado de tanta beleza interior, não deveria assustar-me. Deveria curtir isto com todas as euforias, êxtases, volúpias. Assusta-me com a necessidade de quebrar um dos fios de ouro que tecem os meus crepúsculos inocentes e felizes; sofro com a idéia de ver em luta duas das afeições calmas e serenas de minha vida. Teria menos um encanto na minha vida, menos uma imagem nos meus sonhos, menos uma flor na minha alma; porém não faria ninguém desgraçado.
Às vezes, ad-miram-me algumas lágrimas vertidas, assim que a noite desce no mundo, ainda umedecidos do pranto, meus olhos castanhos claros brilham com um fulgor extraordinário; parece que um pensamento delirante passa rapidamente no meu espírito desvairado. Então, já no meu quarto, janela de vidro aberta, ajoelho-me, e faço uma oração, no meio de que minhas lágrimas vêem de novo orvalhar-me as faces.
Todo o cabedal das minhas habilitações, pouquíssimas, devo ressaltar e sublinhar, consiste em saber fumar - cobram-me os amigos e íntimos, fumo muito, ainda estou jovem, posso ter muitos anos de vida, querem-me vivo, tenho muito a contribuir com a cultura e as artes – e beber, nem tanto, jogar e femear não fazem parte de minha índole, não gozo com superficialidades, não me sinto orgulhoso da raça. Não me intitulo boêmio, profanando este poético nome, tão consagrado no métier artístico e intelectual pela revolta do talento incompreendido ou ainda não vitorioso. Talentos desde a eternidade, jamais serão compreendidos, enfim os valores eternos dos homens são a hipocrisia e a aparência, por intermédio de que se imortalizam, haverá sempre alguém que ufanize-lhes a memória. Mortos os talentos, são ufanizados pela hipocrisia e inveja por parte daqueles que têm uma inteligência só para a sobrevivência no mundo. O que é a vitória para o talento verdadeiro? Nada, aliás, para ele, não passa de asnice sem limites, a missão é fazer obras, é buscar valores e recusar as cretinices.
Boêmios! como se fosse possível conceber a idéia de boêmia, sem a idéia do sacrifício e de pungente esforço, físico, corporais mesmos, além dos milhares de neurônios gastos na conquista do ideal e do belo, correndo ainda o risco de o ideal e o belo serem apenas frutos da imaginação fértil, para a humanidade mais uma desgraça que se prolongará por tempo indeterminado, quiçá por sempre.
Sinto, mais que repugnância, asco da lama em que se chafurdaram os homens na modernidade – a grande serpente reencarnou-se após tantos milênios -, tanto asco que prefiro, ao crepúsculo de todos os dias, sentar-me neste banquinho de mármore, no alpendre de minha residência, ficar pensando na vida, como foi, como poderia ter sido, como é, como pode ser, como poderá ser, re-fletindo sobre as minhas posturas e condutas, enganos e erros, às vezes sentindo-me feliz e alegre com sentimentos e emoções que me perpassam o íntimo, louvando a vida, a estar numa mesa de restaurante, tomando uma cerveja, jogando conversa fora com um grupo de pessoas, colegas, companheiros.
Ninguém tem ânimo de romper com a lama, porque só nele consegue atordoar-se poucochinho ou muitíssimo contra os últimos desastres das relações humanas, políticas, sociais, individuais, das tragédias íntimas, morais e éticas, dos amores não correspondidos, dos poderes não concretizados. Ser rebelde, revoltado, polêmico com a realidade humana, com as coisas do mundo, não leva a lugar algum, não se chega a nenhum, causam só problemas e dissabores, o melhor mesmo é aceitar tudo de mão beijada, contribuir para que tudo piore mais, melhor dizendo, melhore ainda mais.
Em termos de minha insistência, persistência, de minha teimosia, cabeça dura, em con-servar, pré-servar o espírito de minha ek-sistência, a ek-sistência de meu espírito, a alma de meu corpo, o sangue que percorre nas veias, penso tratar-se antes de minha índole de pensador, quem tem grande necessidade de valorizar as idéias e os princípios que regem a vida, que regem as utopias e sonhos do paraíso terreno, que praticamente crítica deslavada aos chafurdados na lama da modernidade, sei que eles são soberanamente dominados pelos nervos e pelo sangue, desprovidos de livre arbítrio, arrastados a cada ato de suas vidas pela fatalidade da carne, não há salvação para eles, seus atos não são determinados nem pela vontade, nem pela consciência.
Sei que jamais fui rancoroso e jamais me comprazi com o sofrimento alheio, ser dominado pelos nervos e pelo sangue, desprovido de livre arbítrio constitui dores e sofrimentos pujantes, desesperos e angustias inestimáveis; mas tanto fel me verteram cá dentro, tanta e tanta lama me atiraram, por questionar os valores, atitudes e idéias de nosso tempo, por destilar os ácidos mais críticos contra as hipocrisias, que, afinal, todo eu me con-verti num verdadeiro satírico, insensível a qualquer nível de solidariedade e compaixão, frio mesmo.
Não sou o que sou desesperadamente: medito e maldigo o meu ser vicário, pois o que sou é ser exatamente o extremo de meu ser, mas ao in-verso.


(**RIO DE JANEIRO**, 08 DE ABRIL DE 2017)

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