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sexta-feira, 7 de abril de 2017

**LETRAS DE INFINITUDE RE-CRIADA** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Bons dias!


O equivoco supremo é crer que algo inventamos, quando em verdade o que fazemos é continuar ou simplesmente copiamos. Tanta gente pasma ou vocifera diante de pecados, sem querer ver que outros iguais pecaram, sem se dignarem a olhar para eles como coisas bem naturais, humanas, e ainda outros estão pecando, por várias outras terras pecadoras. Pecados são semelhantes a notícias ruins: encontram-se por todos os cantos desse mundo sem fronteiras e cancelas, andam em grandes velocidades, lugar algum pode ficar sem eles, são inerentes à vida, sua natureza, condição, instintos, e tudo o que se desejar imaginar, elucubrar.
Andamos em boa companhia. Não nos hão de lapidar por atos que são antes efeito de uma epidemia do tempo. Andamos na companhia da luxúria, da inveja, da gula; andamos na companhia da ladroagem deslavada dos políticos, da cobiça das mulheres alheias, de matar os outros sem causas ou motivos. Ou lapidem-nos – como será possível diante de tantas epidemias de nosso tempo? -, mas no sentido em que se lapida um diamante, para se lhe deixar o puro brilho da espécie. Neste ponto, força é confessar que ainda há por aqui impurezas e defeitos graves. Há inépcia, por exemplo, muita inépcia. Quando não é inépcia, são inadvertências.
Todos os juízos sobre o valor da vida se desenvolveram ilogicamente, e portanto são injustos. A inexatidão do juízo está primeiramente no modo de se apresentar o material, isto é, muito incompleto, em segundo lugar no fato de que cada pedaço do material também resulta de um conhecimento inexato, e isto com absoluta necessidade. Nenhuma experiência relativa a alguém, ainda que ele esteja muito próximo de nós, pode ser completa a ponto de termos um direito lógico a uma avaliação total dessa pessoa; todas as avaliações são precipitadas e têm que sê-lo. Entre as coisas que podem me levar ao desespero supremo está o conhecimento de que o ilógico é necessário aos homens e que do ilógico nasce muita coisa boa. Apenas os homens sobremodo ingênuos podem acreditar que a natureza humana pode ser trans-formada numa natureza puramente lógica. Mesmo o homem mais racional precisa, de tempo em tempo, novamente da natureza, isto é, de sua ilógica relação fundamental com todas as coisas.
O que mais encanta na humanidade, deixa-me em estado de êxtase? É a perfeição. Há uma quantidade incontável de conflito de lealdades de por baixo do sol. O concerto de louvores entre homens pode dizer-se que é já música clássica. A ópera de proselitismo entre as autoridades pode dizer-se que é já peça de teatro satírico. O teatro das hipocrisias entre os homens pode dizer-se que é já cântico dos cânticos. A maledicência, que foi antigamente uma das pestes mais perniciosas da terra, serve hoje de assunto a comédias fósseis, a romances arcaicos. A dedicação, a generosidade, a justiça, a fidelidade, a bondade, a lealdade, a sinceridade, andam a rodo, jamais se viu tanta numa só década de início de século, como aquelas moedas de ouro com que o herói do grande e inigualável Voltaire viu os meninos brincarem nas ruas de El-Dorado. Se vivemos próximos demais delas, de uma pessoa em cujo íntimo elas habitam viçosas e frescas, é como se repetidamente tocássemos uma boa gravura com os dedos nus: um dia teremos nas mãos um sujo pedaço de papel, o in-verso de todas elas, e nada além disso. Também a alma de uma pessoa, ao ser continuamente tocada, acaba se desgastando; ao menos assim ela nos parece afinal – nós jamais vemos seu desenho e sua beleza originais. – Sempre se perde no relacionamento íntimo com pessoas desta índole, dedicadas, generosas, justas, fiéis, boas, leais; às vezes, perdemos a pérola da própria vida. Os contemporâneos costumam relevar muitos equívocos, enganos, erros, tolices, hipocrisias, e mesmo atos de grossa injustiça dos seus grandes homens, de suas personalidades, de suas autoridades, de seus artistas, se encontram alguém que, como verdadeiro animal de sacrifício, possam maltratar e abater para aliviar os sentimentos.
Bem que eu amaria, sentir-me-ia feliz e exultante, se pudesse dispensar a organização social. Contudo, por mais que não deseje, sinta náusea dela, é prudente e inteligente conservá-la por algum tempo, como um recreio útil. A invenção de crimes, para serem publicados à maneira de romances, vale bem o dinheiro que se gasta com a segurança e a justiça públicas. O torneio das palavras, a que dá lugar entre advogados, constitui excelente escola de eloqüência. Os jurados aprendem a responder aos quesitos, para o caso de aparecer algum crime. Às vezes, como sucedeu há alguns anos, enganam-se nas respostas, e mandam um réu para ver o sol nascer quadrado, ao invés de o devolverem à família; mas, como são simples ensaios, esse mesmo erro é benefício, para tirar aos homens alguma pontinha de orgulho de sapiência que porventura lhes haja ficado.
Todo homem tem o seu preço, dependendo da necessidade, o olho da cara, para se divertir, por poucos tostões se vendem – isso não é verdadeiro. Mas para cada um pode haver uma isca que tem de morder. É assim que, para ganhar muitas pessoas para uma causa, basta que se lhe dê o brilho da filantropia, da nobreza, da caridade, da abnegação – e a que causa não se poderia dá-lo? – São os doces e guloseimas de sua alma; outras pessoas têm outros.
Não negligencio que um pouco de filosofia possa ter entrada nesta coluna, contanto que seja leve e ridente. As sensações também podem ser contadas, se não cansarem muito pela extensão ou pela matéria; para não ir mais longe, o que se deu comigo, por ocasião da posse, na Câmara Municipal. Terça-feira, quando ali cheguei, já achei mais convidados que vereadores e oradores, e mais pulmões que ar respirável. Na entrada da sala das sessões, enfrente à entrada do gabinete do presidente, muitos senhores e senhoras iam invadindo o lugar, sentando-se nas cadeiras. Daí a pouco, alguns vereadores e mesmo algumas prosélitos do prefeito ofereciam às senhoras as suas cadeiras, e todos aqueles vestidos claros vieram alternar com as casacas pretas dos políticos. Quando isto se deu, tive uma visão do passado – eu não sei mesmo explicar como é que sempre tenho visões quando vejo políticos reunidos para sessões, reuniões -, uma daquelas visões chamadas imperiais (duas por ano), em que o regimento nunca perdia os seus direitos. Tudo era medido, regrado e solitário. Faltava agora tudo, até a figura do porteiro, que nesses dias de solenidades mais que pomposas calçava as meias brancas e os sapatos de fivela, enfiava os calções, e punha aos ombros a capa. Os vereadores, como têm seus ternos especiais, vinham todos com eles, exceto algum padre, que trazia a batina da igreja. Se o vereador João Castanho, quem, por ser honesto, incorruptível, sofreu todas as pressões, não conseguiram destituí-lo do cargo, conseguiram-lhe um enfarto fulminante devido a todas as pressões sofridas, se ressuscitasse, compreenderia, ao aspecto da sala, que as instituições são outras, tão outras como provavelmente a sua cadeira. Aquela gente numerosa, rumorosa e mesclada esperava alguém, que não era o presidente, nem o grande orador Virgulino Pontes. Com efeito, eu amo a regra e dou pasto à ordem. Nos atos públicos também; aquela mistura de damas e cavallheiros, de legisladores e convidados, não das instituições, mas do momento, exprimia um “estado de alma” popular. Não seria propriamente um efeito da arte, concordo, admito, consinto que assim seja, e sim da natureza; mas o que é a natureza senão uma arte anterior?
Quando bons amigos elogiam um político talentoso nas tramóias e vigarices, ele com freqüência ficará alegre por cortesia e benevolência, mas, em verdade, isso lhe é indiferente. Sua autêntica natureza fica inerte diante disso, e não é possível movê-lo um passo para fora do sol ou da sombra em que está; mas as pessoas desejam causar alegria mediante o elogio, e significaria magoá-las não se alegrar com ele. É indício de completa falta de nobreza alguém preferir viver na dependência dos favores e benefícios políticos, à custa dos cofres públicos, apenas para não ter que trabalhar, e geralmente com secreta amargura em relação àqueles de quem depende. Parece risível esta minha deferência, mas pensando bem tal mentalidade é muito freqüente nos homens, e também muito mais perdoável, isto por razões históricas, infelizmente ninguém pode entender porque não conhece tais razões. Não sou quem as vai dizer. Deixo para os leitores a investigação percuciente – quanto a rirem ou verterem lágrimas, isto é com eles.
A idéia que tive naquela terça-feira, quando cheguei à Câmara Municipal, em parte se pode comparar ao chapéu escovado de encontro ao pelo; mas será culpa da escova ou do chapéu? Cuido que do chapéu. O dia corria fresco. A noite passada foi fresquíssima. As estrelas fulguravam extraordinariamente, e se o meu funcionário na redação tem razão, foram elas que me influíram o pensamento.
Não há razão para amiudar as votações de leis, fazê-las algumas vezes semestrais, bimestrais, mensais, quinzenais, anuais, e, tal seja a pouquidade do cargo, semanais. O espírito público ficará descolado; a opinião será regulada pelos lucros, e dir-se-á que os princípios de um partido nos últimos meses têm sido favorecidos pela Fortuna que os princípios adversos. Que mal há nisso? Os antigos não se regeram pela Fortuna? Gregos e romanos, homens que valeram alguma cousa, confiavam a essa deusa o governo da República. Um deles (não me lembra quem) dizia que três poderes governam o mundo: Prudência, Força e Fortuna. Não podendo eliminar esta, regulemo-la, que é bem prudente e inteligente.
O interesse público de conhecer os projetos será enorme. Haverá palpites, pedir-se-ão palpites, o povo sabe ser palpiteiro, falou em palpite é com ele mesmo; far-se-á até, se for mister, uma legião de adivinhos, incumbidos de segredar aos cidadãos as leis prováveis ou certas que serão votadas.
Se uma situação crítica (como os vícios de uma administração, ou corrupção e favoritismo em entidades políticas ou culturais) é descrita de forma bastante exagerada, a descrição certamente perde efeito junto aos perspicazes, mas age com tanto mais força sobre os não-perspicazes (que teriam permanecido indiferentes, no caso de uma exposição cuidadosa e moderada).
Os males não são gerais, mas são sobremodo grandes, quase inconcebíveis de todo. Há eleições boas e pacíficas, mas a violência, a corrupção e a fraude inutilizam em algumas partes as leis e os esforços leais dos políticos. Votos vendidos, votos inventados, votos destruídos, é difícil alcançar que todas as votações sejam seguras e puras. Para a violência havia aqui em nossa comunidade uma classe de homens, felizmente extinta, a que chamavam de “capangas”. Eram esbirros particulares, assalariados para amedrontar os eleitores e, quando fosse preciso, quebrar as urnas e as cabeças. Às vezes quebravam só as cabeças e metiam nas urnas maços de cédulas. Estas cédulas eram depois apuradas com as outras, pela razão especiosa de que mais valia atribuir a um candidato algum pequeno salto de votos que tirar-lhe os que deveras lhe foram dados pela vontade soberana do país. A corrupção era menor que a fraude; mas a fraude tinha todas as formas. Enfim, muitos eleitores, tomados de susto ou de descrença, não acudiam às urnas. O tempo dos capangas acabou, felizmente. Mas agora surgiu uma outra classe não de homens, mas de políticos, chamam-lhe de “Lex - éticos”, são aqueles que ameaçam os correligionários de lhes denunciar as faltas de decoro político, as corrupções atrás do pano, se eles não votarem a favor de suas leis, Enfim, muitos políticos, tomados de medo, de tremedeiras, de virem seus nomes na boca do povo, risco de perderem o poder, usufruir os salários gordos, não querem nem saber se o povo vai ser prejudicado, votam na lei, o resto que se dane, o importante mesmo é estarem livres das denúncias, do nome sujo na praça.
Dissera antes que a humanidade me encanta, o que me encanta nela é a perfeição.
Como, na perfeição, as dimensões sensíveis dos valores e virtudes estão bem organizadas, em comunhão plena, geralmente o homem perfeito é aquele que jamais pecou, nunca cometeu qualquer deslize de caráter e personalidade, só praticou o bem, seguiu à risca os Dez Mandamentos, louvou os dogmas do cristianismo, não há modo de me não sentir encantado com a humanidade.
Diante de tudo o que é perfeito, diante de todas as perfeições dos homens, estamos acostumados – juro por Deus que eu mais que todos os homens de todos os tempos – a omitir a questão do vir a ser desfrutar sua presença como se aquilo houvesse desabrochado, tivesse brotado magicamente do chão. Acredito estejamos os homens sob o efeito de um sentimento mitológico arcaico, sob o encantamento de uma sensação lendária erudita. Por um triz sentimentos que certa manhã um deus, por brincadeira ingênua ou por sarcasmo deliberado, Zeus era mestre nesta brincadeira, construiu sua morada com blocos imensos, ou que subitamente uma alma encontrou por encanto numa pedra, e agora deseja falar por seu intermédio.
Sei que a minha obra só tem efeito pleno quando suscita a crença numa improvisação - que improvisação melhor que me encantar com a perfeição da humanidade, quando é a imperfeição e as calhordices de todas as laias e estirpes que imperam -, numa miraculosa instantaneidade da gênese, e assim ajudo essa ilusão e introduzo na arte, no começo da criação, os elementos de inquietação entusiástica, de desordem que tateia ás cegas, de sonho atento, como artifícios enganosos para dis-por a alma do espectador ou ouvinte de forma que ela creia no brotar repentino do perfeito.
Todos os homens se dividem, em todos os tempos e também hoje, em perfeitos e escravos dos pecados; aquele que não tem dois terços do dia para re-fletir sobre as calhordices dos políticos é escravo de seus interesses e ideologias, não importa que seu nome seja um gostinho de apetitosa feijoada no paladar do povo.
Entre as correções que necessitamos fazer no caráter da humanidade está fortalecer em grande medida o elemento contemplativo. Mas desde já o indivíduo que é perfeito e constante de cabeça e de coração tem o direito inalienável de acreditar que possui não apenas um bom temperamento, mas uma virtude de utilidade geral e que, ao preservar esta virtude, está mesmo real-izando uma tarefa superior, não importando se árdua ou não, a arduicidade fica a critério das línguas com suas diferenças de pronúncia e sonoridade, a não-arduicidade fica a critério dos princípios e dogmas que imperam na cretinice da modernidade.
Falar de perfeição, quando sou o mais imperfeito dos homens, se não é chamar a atenção para as letras criativas, é justificar as minhas calhordices...


**RIO DE JANEIRO, 07 DE ABRIL DE 2017)


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