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terça-feira, 11 de abril de 2017

**ESBOÇO DE UMA VISÃO DA MENIPÉIA EM DOSTOIÉVSKI - EM ESPÍRITO SUBTERRÂNEO, TESE, MANOEL FERREIRA NETO**


As fontes européias da menipéia em Dostoievski são inúmeras e heterogêneas, as quais revelam a riqueza e a diversidade da menipéia. Ele conhecia, provavelmente, a menipéia polêmico-literária de Goethe, Deuses, Heróis e Wieland. Conhecia, tudo indica, os “diálogos dos mortos” de Fénelon e Fontenelle (Dostoïévski foi excelente conhecedor da literatura francesa).
A particularidade mais importante do gênero da menipéia consiste em que a fantasia mais audaciosa e descomedida e a aventura são interiormente motivadas, justificadas e focalizadas aqui pelo fim puramente filosófico-ideológico, qual seja, o de recriar situações extraordinárias para provocar e experimentar uma idéia filosófica; uma palavra, uma verdade materializada na imagem do sábio que procura essa verdade.
A menipéia se caracteriza por um amplo emprego dos gêneros intercalados: as novelas, as cartas, discursos oratórios, simpósios, etc., e pela fusão dos discursos da prosa e do verso.
Para compreender as tradições do gênero em Dostoïévski, são essencialmente importantes as menipéias de Diderot, livres pela forma externa, porém típicas pela essência do gênero. Mas o tom e o estilo da narração em Diderot (às vezes no espírito da literatura erótica do século XVIII) diferem de Dostoïévski, evidentemente. Em O sobrinho de Rameau (em essência, também uma menipéia, mas sem o elemento fantástico, o motivo das confissões extremamente francas, sem qualquer indício de arrependimento, está em consonância com Bobok).
Por sua profundidade e ousadia, Bobok é uma das mais grandiosas menipéias em toda a literatura universal. São característicos a imagem do narrador e o tom da sua narração. O narrador encontra-se no limiar da loucura. Afora isto, porém, ele não é um homem comum como todos, ou seja, que se desviou da norma geral, do curso normal da vida, ou melhor, temos diante de nós uma nova variedade do “homem do subsolo”. Seu tom é vacilante, ambíguo, com ambivalência abafadas e elementos de bufonaria satânica (como nos diabos dos mistérios).
No início do conto há um juízo sobre um tema típico da menipéia carnavalizada, isto é, o juízo acerca da relatividade e da ambivalência da razão e da loucura, da inteligência e da tolice. Em seguida vem a descrição de um cemitério e de cerimônias fúnebres.


“Um talento tão original, dizia-se... e eis no que resultou por fim... aliás há muito tempo era de se prever...” ainda assim, não falta uma certa impostura; se se considerar do ponto de vista da arte pura, pode-se mesmo aplaudir. É assim que, de repente, os outros se tornam duas vezes mais inteligentes. Todavia, se é fácil entre nós fazer perder a razão, não há nenhum exemplo de que a tenham inculcado...
O mais inteligente dos homens é, na minha opinião, aquêle que se trata de imbecil ao menos uma vez por mês, e já ninguém hoje é capaz disso! Outrora, a rigor, um imbecil se convencia ao menos uma vez no ano de não ser senão um imbecil, no presente – na-da, na-da, está acabado. Foram tão bem embaralhadas as cartas que o homem inteligente não se distingue mais do imbecil. Fêz-se isso de propósito .
Lancei um olhar para as sepulturas: era ignóbil. Água, e que água! Tôda verde... e, meu Deus, sim, a todo instante o coveiro remexia, para as esvaziarr. Saí, ainda antes de terminada a cerimônia, e perambulei do outro lado da grade. Pertinho há um asilo; um pouco mais longe, um restaurante. Não é mau, esse restaurantezinho: comi ali um pouco e deixei o resto. Não tardou muito a se encher de gente que tinha assistido às exéquias. Notei muita animação e alegria comunicativa."
É através da literatura cristã antiga (isto é, através do Evangelho, do Apocalipse, das Vidas dos Santos e outras) que Dostoievski está vinculado da maneira mais direta e estreita às modalidades da menipéia antiga. Ele esteve indiscutivelmente a par dos protótipos clássicos da menipéia antiga. É bastante provável que tenha conhecido as menipéias de Luciano, Menippo, ou uma viagem pelo reino de além-túmulo ou Diálogos no reino dos mortos (grupo de pequenas sátiras dialogadas). Nessas obras, aparecem diversos tipos de comportamento dos mortos no reino de além-túmulo, ou seja, no inferno carnavalizado. É necessário dizer que Luciano – o Voltaire da Antiguidade – foi amplamente conhecido na Rússia a partir do século XVIII e suscitou inúmeras imitações, tendo a situação-gênero do “encontro no mundo de além-túmulo” se convertida numa constante na literatura e até em exercícios escolar.
É provável que Dostoievski conhecesse também a menipéia de Sêneca, Apdokyntosys..., pois encontramos nele três momentos consonantes com essa sátira: 1) é possível que a “alegria sincera” dos acompanhantes do enterro em Dostoievski tenha sido inspirada por um episódio de Sêneca: ao passar pela Terra em vôo do Olimpo para o inferno, Cláudio encontra na Terra seus próprios funerais e se eonvence de que todos os acompanhantes do enterro estão muito alegres (à exceção dos chicaneiros); 2) o jogo de cartas no vazio, “de memória” talvez esteja inspirado no jogo de dados de Cláudio no inferno, este também no vazio (os dados rolam antes de serem lançados); 3) a descoroação naturalista da morte em Dostoievski lembra a representação naturalista ainda mais grosseira da morte de Cláudio, que morre (entrega a alma) no momento em que está evacuando.




(**RIO DE JANEIRO**, 11 DE ABRIL DE 2017)


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