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sexta-feira, 7 de abril de 2017

**O DIABO A VINTE E QUATRO...** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Aumento vinte e, nos quatro do diabo, multiplico por cinco os mesmos quatro e somo mais quatro, isto para mostrar o altíssimo nível de minha inteligência, com mais quatro no quociente intelectual seria gênio, superando o maior de todos eles; também para mostrar que aprendi com distinção e louvor com os professores as quatro operações, e com elas fiz a vida, tornei-me imortal, encontro-me sentado numa das cadeiras do Olimpo dos deuses, trocando dedos de prosa com Pitágoras, Arquimedes, Isaac Newton, etc., etc.
O dia estava esplêndido, dia de início de agosto, sol magnífico, ar quente, sem contar as calças novas que mandei confeccionar na Laurentina costureira, por sinal que eram amarelas, o chapéu coco preto, camisa cor-de-rosa. A escolha do chapéu não foi uma ação indiferente, foi regida por um princípio metafísico. Não cuide que quem compra um chapéu exerce ação voluntária e livre; a verdade é que obedece a um determinismo obscuro. A ilusão da liberdade existe arraigada aos compradores, e é mantida pelos chapeleiros que, ao virem um freguês ensaiar trinta ou quarenta chapéus, para usar no seu primeiro de aula nalgum Instituto, ou fazer discurso na Tribuna da Câmara, ou ministrar palestra sobre a metafísica de Aristóteles na Universidade, e sair sem comprar nenhum, imaginam que ele está procurando um livremente elegante. O princípio metafísico é este: o chapéu é a integração do homem, um prolongamento da cabeça, um complemento decretado ab eterno; ninguém o pode trocar sem mutilação. É uma questão profunda que ainda não ocorreu a ninguém. Ninguém advertiu que há uma metafísica do chapéu. Talvez eu escreva uma memória a este respeito. Pode ser até que nem mesmo o chapéu seja complemento do homem, mas o homem do chapéu... Escolhi o chapéu coco para minha primeira aula, por ser de nossa cultura desde tempos memoriais, e um professor sem chapéu não impõe qualquer respeito aos alunos, eles precisam imaginar que ele serve para conservar o conhecimento fresco sem interferência da luz do sol que, em nossa comunidade, é bastante forte, se não houver cuidado é capaz de cozinhá-lo.
Saí de casa, como se fosse trepar ao trono de Jerusalém, estava indo lecionar, era minha primeira aula no Instituto. Piquei o passo para que nenhum outro professor chegasse antes de mim à escola; ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças. Não, que elas eram bonitas. Mirava-as, fugia aos encontros, ao lixo da rua...
Na rua encontrei uma companhia de batalhão do Tiro de Guerra, tambor à frente, rufando, estava ensaiando para a parada de Sete de Setembro. Nunca pude ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por mim, e foram andando. Senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir atrás deles, carregando a pasta, os livros. Já disse: o dia estava lindo, estava saltitante de felicidade, iria lecionar pela primeira vez na vida, e depois o tambor... Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar também ao som do rufo, creio que catarolando alguma coisa: Rato na Casaca... Marchava e pensava que os ratos egípcios, se pudessem saber que a verdade é imortal, o homem é um breve momento, teriam imitado os primitivos hebreus, aceitando a fuga para o deserto, antes do que a nova filosofia. A ciência, como a guerra, tem necessidades imperiosas; e desde que a ignorância dos ratos, a sua fraqueza, a superioridade mental e física dos filósofos eram outras tantas vantagens na experiência que ia começar, cumpria não perder tão boa ocasião de saber efetivamente o princípio das paixões e das virtudes humanas estava distribuído pelas várias espécies de animais, e se era possível transmiti-lo. Cheguei no Instituto, estava batendo o sinal para os alunos entrarem na sala. A calça amarela estava molhada de suor no meio das pernas. Curvelo que me acompanhou até à sala para me apresentar à turma não percebeu que estava andando de pernas abertas, estava assado. Fui apresentado com todas as honras pelo digníssimo Curvelo, diretor. Sentei-me. Felizmente que os alunos não podiam ver minhas calças molhadas de suor, pensariam outra coisa de mim, de tanta emoção com estar numa sala de aula, fiz xixi nas calças.
Nem tolo nem bronco, não ando mordendo as vaidades, arrancando-lhes pedaços a torto e a direito, cuspindo-lhes pelas avenidas e ruas por não conseguir engoli-las, a garganta se fecha em atitude de nojo, o estômago avisou-lhe com antecedência não estar poucochinho interessado em embrulhar-se, não está em condições de corroê-las com seus ácidos. Seria tolo e bronco, com direito a carteirinha, se mordesse as vaidades. Foi justamente com elas que atingi, alcancei os vinte e quatro do diabo, e pude enfim ser o mais difícil na história, ser homem – não foi fácil, tive de estar disposto a morrer pelo conhecimento.
Criança, não podia ver professor, não importando a disciplina que lecionava, parar o carro na porta da escola, tirar a sua pasta, livros, trabalhos dos alunos, que ficava pálido e virava os olhos, não sabendo como não lhes torcia as retinas, não lhes distendia os nervos. Não que a minha vaidade fosse ser grande professor, sentir-me um deus, sentado à mesa, de costas escrevendo no quadro, na sala dos professores na hora do intervalo, assuntos de alto nível, pelas ruas da cidade, sendo apontado pelos transeuntes, “aquele ali é professor, um dos grandes de nossa comunidade, vários alunos seus hoje são engenheiros, políticos, advogados, cientistas, literatos...”, andar em carro do ano, o riso aberto de orelha a orelha, almoçando em restaurantes suntuosos, tomando Jack Daniel´s, usando ternos de grife, rodeado de amigos de todos os naipes, dinheiro para jogar fora na carteira, para bancar jantares às lindíssimas senhoritas encalhadas, às senhoras descasadas, divorciadas, separadas, frustradas e fracassadas, às moçoilas sonhadoras. Não seria vaidade, seria unicamente aparência, pois que professores vendem o almoço para comprar a janta, usam roupas velhas e desbotadas, comem músculo, andam a pé, dizem ser o símbolo máximo do conhecimento, e alguns da Língua Portuguesa conjugam verbos com o pronome oblíquo, da matemática somam dois e dois e acham cinco, os ângulos obtusos se encontram no infinito e comemoram a grande façanha com os “tim-tins” da taça de champagne.
Para despertar nos alunos o espírito da Literatura, falei-lhes sobre os bichos da terra, que os deuses puseram, da água e do ar a essência de todos os sentimentos e capacidades humanas. Os animais eram as letras soltas do alfabeto; o homem era a sintaxe. A terra era grave como a íbis pousada numa só pata, pensativa como a esfinge, circunspecta como as múmias, dura como as pirâmides; não tinha tempo nem maneira de rir. Esta era a minha filosofia literária mais cara; esta era a que iria lecionar, a que deveriam aprender com distinção, com este conhecimento seriam grandes personalidades das letras
Durante os quatro anos em que servi de professor de Literatura, trabalhei muito, fiz muitas palestras sobre a tuberculose, alcoolismo dos românticos, não brilhantes, mas sólidas, cheias de fatos e refletidos. Irritei-me mesmo: vivia rodeado de parasitas, puxa-sacos, sanguessugas, o diabo a vinte e quatro. A ambição, despeito, ciúme, inveja habitavam todos os que me cercavam, sentiam-se importantes ao meu lado, enfim era inteligência incomum na Literatura, e eles por mais que enfiassem os miolos nos estudos, pesquisas, estavam longe de tanto conhecimento, a minha presença era-lhes alívio, paliativo de seus conhecimentos capengas, imperfeitos, duvidosos, os desejos e vontades da imortalidade não se realizariam nunca, no máximo seriam lembrados como “professores de meia tigela”.
Não mordi com prepotência a vaidade que me habitou durante anos de ser professor, exemplo de conhecimento e sabedoria, foram apenas quatro anos, enquanto esperava nova eleição para me candidatar outra vez a vereador. Ser professor é vaidade das mais ridículas, conhecimento não dá camisa a ninguém, não torna ninguém imortal. Criança é vaidosa. Jovem é realista. Jovem, mordi com categoria a ambição que me habitou, e consegui realizar, ser vereador, fabricar e criar leis inúmeras sempre em favor do povo, dos miseráveis, aposentadoria para os mendigos, pensão para as mulheres encalhadas, ajuda de custo para os esfomeados, consultas ginecológicas mensais para as prostitutas, camisinhas para os viados pobres, pretos e da periferia. Aquela dentada sem dó nem piedade, daquela que faz acordar a humanidade inteira de seu sonho de injustiçada e discriminada, de seus sonhos de liberdade sem limites e fronteiras.
No magistério, como já disse, devido aos conhecimentos profundos da Literatura, fui cercado de sanguessugas, invejosos, parasitas, puxa-sacos; como político, vereador, vivi rodeado de miseráveis, prostitutas, viados, mendigos, o diabo a vinte e quatro, sendo objeto de comentários de meus colegas, admiravam-se sobremodo como eu era capaz de conviver com a reles da sociedade, alguns torciam o nariz, quando um mendigo fedorento ia ao meu gabinete pedir um sapato velho, uma calça, dinheiro para comer um salgadinho, tomar um café no botequim do Pedrinho, uma prostituta para pedir ajuda para comprar batons, camisinhas, calcinhas, soutiens, uma roupa mais digna para sentar-se na boate da rua José Bonifácio, chamar atenção dos fregueses, viados pedindo conversar com os médicos para lhes fazer seios, os coleguinhas estavam reclamando, estavam carentes demais precisando de peitos suculentos para mamar. Nos plenários, só se via a reles presente, felizes, alegres, contentes, estava ali defendendo de unhas e dentes os direitos deles, fazendo leis que só beneficiavam a eles, e ninguém podia reclamar, pois estavam na casa do povo, dos carentes e necessitados de justiça e reconhecimento. Pelas ruas e avenidas, apontado por todos: “Lá vai o vereador dos viados, mendigos, prostitutas... Meu Deus! Como pode? Ninguém tem mais votos que ele, enfim esta laia é em grande número, oitenta por cento dos eleitores”.
Vivi principalmente de imagens, de frases translatas, de efeito. Havia no meu cérebro certo furo, por onde o espírito da ambição escorregava e caía no vácuo. Trago dentro de mim muitas óperas e missas, um mundo de harmonias novas e originais, que não alcanço exprimir e pôr no papel. Creio que sou ateu, mas não afirmo. Rio pouco e discretamente. A vida é pura e severa, mas o caráter tem uma ou duas cordas fraudulentas, a que só faltou a mão do artista; nas coisas mínimas, mente com facilidade.


(**RIO DE JANEIRO**, 07 DE MARÇO DE 2017)









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