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quinta-feira, 6 de abril de 2017

**NOTÍCIAS FRESCAS DA FILOSOFIA** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Bons dias!


Se você, leitor pensar que aqui existe um ar de oratória chinfrim ou de sermão da filosofia, não mofe de mim, ficaria em verdade muito triste, desconsolado com esta atitude sua, quem sabe até derramasse lágrimas pujantes, pois que não é minha intenção; quem sou para tecer oratória ou com a filosofia dirigir-lhe um sermão daqueles? O meu fim não é só contar-lhe os atos ou comentá-los; onde houver lição útil para o seu dia que, normalmente, é sobremodo atarefado, se você não correr até de seus prejuízos, quem o fará, aí são preocupações as mais di-versas, cansaço, dores de cabeça, é meu gosto e dever tirá-la e divulgá-la como um presente muito carinhoso e eivado de apreços mil e dois a você; é o que pretendo nesta manhã de nuvens claras e azuis no céu que nos vela a vida desde lá de cima até ao asfalto, dele não passa, a menos que tenham o objetivo de nublar ou ensimesmar as profundezas do inferno.
Qual a lição que projetei dar-lhe hoje?
As virtudes todas que, desde tempos imemoriais, lutamos desenfreada e ilimitadamente para alcançá-las, alimentarmo-nos delas, vivermos delas em comunhão com os homens, na minha parca opinião de um indivíduo simples e humilde, estão com urgência necessitadas de substituição por outras – não as alcançaremos jamais, de nada irá adiantar dar murros em ponta de faca por mais não sei quantos milênios, no futuro seremos julgados como homens imbecis e idiotas por havermos insistido tanto com o impossível de ser realidade -, que são as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que não faz muito declarou abertamente não ser mais do que a mãe da nossa economia moderna, com a diferença sui generis que a mãe era robusta, e a filha uma verdadeira esgalgada.
Quem negaria de modo peremptório, aos berros para não ficar ninguém sem ouvir em todos os cantos do mundo, não se esqueça mesmo que o diabo faça milagres, seja mais uma dimensão do in-consciente, que é muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares – nada melhor que um típico manjar francês para satisfazer o apetite carente, aprazeirar o paladar exigente de outro gostinho que faz verter lágrimas de alegria e júbilo, com efeito regado de bom vinho do Porto para aportuguesar o sabor francês, enfim o estômago não está acostumado com requintes estrangeiros -, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum?
Por minha parte, esperando seja compreendido, não me joguem pedras ou ovos podres pelas ruas, as autoridades radicais não me proíbam de garatujar minhas letras, prometo substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha de Ferluci, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais magnificentes e esplendorosas cepas do mundo.
Seja-me permitido uma digressão, antes que me venha a inspiração, por inteira e a habilidade com as letras! Não me dado saber se é do conhecimento de alguns leitores, em se tratando da ira, da inveja, gula. Deixem-me com poucas esclarecer. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero: sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada. A gula produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos maravilhosos versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Lúculo, mas das suas ceias; foi a gula que o fez imortal. Quanto à inveja, prego fria e peremptoriamente ser a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chega a suprir todas as outras, e ao próprio talento. Quando um amigo, conhecido dizem-me que em nossa comunidade impera a inveja, e que ela é o ícone do que há de mais diabólico no mundo, de pior na vida, mostra-me um raminho de arruda no bolso da camisa, digo-lhe que não é bem isto o que está a dizer-me, a inveja é grande virtude, e para lhe ser mais sincero do que costumo ser, afianço-lhe que tenho inveja aos invejosos, pois não fui dotado desta preciosidade.
O povo corre atrás de mim entusiasmado, eufórico, querendo saber mais destas virtudes a que clamo e louvo com grandes ímpetos. Caminhando, incuto-lhes, a grandes golpes de eloqüência, eivada de linguagem erudita, a popular é logo esquecida, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, in-vertendo o sentido delas, tergi-versando-lhes o uso comum, fazendo-lhe amar as perversas e detestar as sãs. Urge que modernizem logo antes que a modernidade dê seu último suspiro, o povo tenha perdido de sentir o grande prazer dela; só nela as perversas têm valores inestimáveis, na antiguidade, não digamos na Idade da Pedra lascada ou da polida, é ir muito longe, mas no século XIX é que as sãs tinham sentido e valor. Antigamente não existia perversidade, hoje existe.
Alguém saberia dizer-me com ciência a definição que dou sobre a fraude? Creio já haver dito a este respeito, mas o capetinha da dúvida, talvez do medo de não incompreendido, julgado como um indivíduo pernicioso aos bons princípios, não cheguei a expressar-me direito, esperei o capetinha escafeder-se para entrar nos méritos da questão. Chamo-lhe o braço esquerdo do homem; o direito é a força; e concluo: muitos homens são canhotos nas mãos e nas palavras, e vivem à margem da sociedade, são condenados a isto, eis tudo. Não exijo que todos sejam canhotos para exterminar os destros, dar fim à marginalização, discriminação, preconceito; não sou exclusivista, aliás tenho verdadeiras e profundas náuseas ao exclusivismo. Que uns sejam canhotos, que outros sejam destros; aceito, admito a todos, menos os que não sejam nada disso.
Enfiemos a colher ainda mais no centro do angu quente, isto de comer pelas beiradas é cretinice e hipocrisia das mais relevantes. A venalidade... Certa vez, fui-me confessar numa primeira sexta-feira do mês, para receber a comunhão no primeiro domingo, dizendo ao padre, quando me perguntara se o que dissera eram todos os meus pecados, não existiria outro: “A venalidade é meu outro pecado, padre...”. Mandou-me sair do confessionário, estava proibido de receber a hóstia sagrada. Experimentei confessar-me com outro padre, fora o primeiro pecado a dizer, outra não foi a sua reação, proibido de receber a hóstia sagrada. Ainda não cheguei a caquetice soberana, mas isto foi no tempo do onça, hoje a venalidade está no menu de todos os bons princípios da sociedade, e quem mais vive a venalidade são os políticos. Édson Gamoa, um dos maiores casuístas a quem tive a grande satisfação de conhecer há uns vinte anos, dissera-me que a venalidade era um monumento da lógica, não me sentisse estupefato com os políticos serem veniais, sem a lógica e a eloqüência nada são, é a essência deles, o espírito que lhes habita as pré-fundidades. Concluíra, dizendo que a venalidade era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se posso vender a minha casa, o meu bode ou carneiro, o meu sapato, o meu chapéu, coisas que são minhas por uma razão jurídica e legal, mas que, no frigir dos ovos e claras, estão fora de mim, como é que não vender a minha opinião - o que seria de mim se não pudesse vender as minhas letras, o meu tablóide que a manifestação pura de minha opinião sobre o mundo, a vida, a modernidade, o que serão os homens no futuro? Negligenciá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Não há mulheres que vendem os cabelos? Amigo meu, tendo sido roubado na capital, ficou a nenhum, até para comer, e não tinha ninguém a quem recorrer para pedir dinheiro emprestado, não foi a um salão e vendeu os seus cabelos encaracolados por uma boa quantia? Por que não pode um homem vender uma parte de seu sangue para trans-fundi-lo a outro homem que está sofrendo de anemia em último grau? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, á porção moral do homem?
Demonstrando-lhe assim os meus princípios modernos, depois de longos anos nos do tempo do onça, por medo, não me demoro em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; mostro ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que é exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
Só se fala, só se luta, só se busca a eternidade – ela justifica todos os sofrimentos e dores, ameniza as dificuldades, as angústias dos atos espúrios, a vida contingente termina, mas a transcendente continua e, dependendo das obras e feitos não esquecida; ícone de exemplos e buscas de outro mundo e realidade é a eternidade. E a infernidade? Alguém tem coragem não de se lhe referir, mas dela falar, desejar, sonhar, buscar a infernidade? Ninguém. Pois lhe digo que praticando toda esta nova ordem de coisas não é preciso de tantos esforços – desejar, sonhar, buscar a infernidade são muitos esforços a serem empreendidos -, praticar é já estar vivendo, e nos nossos tempos modernos em todos os lugares é servida, estamos isentos das angústias da busca, das dores e sofrimentos da incerteza e dúvida de se tornar realidade em nossas vidas.
Estaria eu sendo transparente com a minha exposição de nova ordem de coisas que clamo e louvo a todos os ventos deste mundo. Está óbvio que combato o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proíbo formalmente a calúnia gratuita e arbitrária, mas induzo a todos os meus leitores a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie que porventura se revela; nos casos, contudo, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibiria receber salário, pois equivaleria a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito são por mim condenadas, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse . Mas essa mesma exceção é logo eliminada por mim – não julguem gratuitamente que falo em metáforas, ou tripudio com as palavras, a fim de que não seja marginalizado, considerado um homem diabólico, pernicioso -, pela consideração explícita de que o interesse, convertendo o respeito em simples bajulação, é este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar estes meus bons dias, sentindo-me regozijado com minhas ousadias, entendo que me cumprir cortar, ceifar com toda a solidariedade humana. O amor ao próximo, cantado e decantado os primórdios do cristianismo, era um obstáculo grave à nova instituição. Mostra que essa norma é uma simples invenção de parasitas, sanguessugas e negociantes insolváveis; ao outro não se deve dar senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. A noção do próximo era equivocada, e cito de memória uma frase de alguém de cujo nome me não lembra, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: “Leve a breca ao próximo! Não há próximo!” A única hipótese em que permito amar ao próximo é quando se tratar de amar as mulheres alheias, porque essa espécie de amor tinha a peculiaridade de não ser outra coisa senão o amor do indivíduo por si próprio.
Como alguns leitores, desconfiados, incrédulos, possam pensar que uma tal explicação, por metafísica que seja, escapa à compreensão do povo, claro não é só a inteligência, percepção, sensibilidade, que podem garantir a compreensão, mas com esta explicação estar dis-posto a seguir à risca, sem medos, pejos, relutâncias, garantindo assim a plena e absoluta satisfação e felicidade em nossos tempos modernos, recorro a um apólogo que recentemente um amigo de minhas relações íntimas e pessoais dissera-me, tendo inclusive tomado nota num guardanapo de botequim, foi ela a inspiração que me fizera pensar em colocar no papel a nova ordem das coisas que venho matutando a longo período de tempo: - Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos; é o que acontece aos adúlteros. Não saberia dizer com propriedade, mas, segundo Gê Doidivana, este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.
Todas as virtudes cuja capa de veludo encontra em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitam a capa às urtigas e vêem alistar-se na igreja nova. Não seria o caso de eu realmente terminar os meus bons dias alçando brados de triunfo a todos os cantos e recantos de nossa comunidade, pois ninguém ainda havia pensado nestas coisas para não deixar a modernidade terminar, e ninguém usufruir os seus grandes princípios, preocupados todos que estão em se livrar deles, são perniciosos, e quem os seguir outro destino não lhe será reservado senão o inferno. Sim, mas que no mundo vivam todos a infernidade que é a peculiaridade da modernidade.


(**RIO DE JANEIRO**, 07 DE MARÇO DE 2017)


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