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terça-feira, 11 de abril de 2017

**VERTIGEM DE SONHOS UTÓPICOS** - Graça Fontis: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: CRÔNICA MENIPÉIA


Livre.
Incrível isto, mas não é fácil viver entre os homens porque é difícil conservar-se uma esfinge, preservar-se uma serpente; o olhar adentra como seta os pensamentos, estas esfinges põem-se a rir e dizer com tranquila sabedoria todas as experiências e realizações ao longo de todas as caminhadas, de todas as conquistas, de todas as contemplações e desejos do eterno.
Talvez, “Homem Sublime”, todas e quaisquer desesperanças, todas e quaisquer des-crenças, todos e quaisquer empecilhos ou dificuldades, tudo quanto haja de estranho e esquisito no mundo, sejam apreendidos por mim, transformando a união de todos os silêncios, de todas as vozes, da totalidade dos sonhos e objetivos, das impulsividades, das dores, dos sofrimentos, dos prazeres e delícias, todo o Bem e todo o Mal que me habitam, todo este conjunto é o mundo, é o rido dos destinos de todos nós os homens, é o hilário das sagas, é o paradoxo das sinas humanas, quando ouvimos o que ele canta, com o seu coro de muitas e suaves vozes, cessando de unir a alma a determinada voz e de nela interiorizar com o espírito.
Soubesse atrair-vos de toga com flauta de pastores, ao invés do livro de leis e o martelo em mãos!
Nesta altura de meu colóquio com empáfia de discurso e embófia de oratória, paro, como de imediato maravilhado pela luz ofuscante. O declive de entre montanhas de onde o olhar se precipita para a profundidade e a mão se estende para os píncaros, o coração se apodera da vertigem de meus sonhos utópicos. Os olhos precipitam-se para os píncaros, enquanto as minhas mãos ao longo do corpo desejam agarrar-se em algo e ampararem-se... no abismo. É mesmo possível sentir alguma nobreza de si, aquele que se entregou a contemplar as suas situações, o mundo e o real, a volúpia, na consciência de seu ridículo, de sua humilhação, de sua vergonha, de sua ofensa e desdém?
Acreditais ou não vós, mas por alguns anos, sendo testemunha ocular, residi nesta cidade, sendo vendedor ambulante de produtos de beleza femininos. Na noite de São João, chegava o casal Mansur numa carruagem puxada por cavalos brancos, vestidos os cônjuges à Luiz XV, e dançavam o forró com todas as pompas, gestos, performances, com todas as etiquetas, ficando até uma hora da manhã, quando recebiam os aplausos da multidão. Não mais voltavam à cidade, só no próximo forró. Eram ricos fazendeiros, criadores de gado de corte. Havia o servo que adquiria as coisas necessárias da família, coisas da despensa. Num forró, estava presente, quando uma mulher coxa, vestida de modo estranho, olhos frios, aproximou-se deles, dizendo: "Se me disserem o porquê vir aqui na noite de São João, de carruagem, vestidos a rigor, dançarem, receberem os aplausos, irem embora, e que seja a verdade, não serão jogados, jogo-me eu, mas se não for a verdade, jogo-lhes na fogueira. Qual fora a resposta que deram à mulher, ninguém ouvira, embora o silêncio que imperava na praça por parte de todos os presentes. Vimos todos as chamas da fogueira dos festejos joaninos intensificarem-se e a mulher atirando-se nela.
Imaginai, vós, o em que se transformou aquela cidadezinha do interior: não se falava noutra coisa, e cada um tinha a sua res-posta mais escalafobética para o enigma do casal.
Por mais deseje, que trabalhe com perspicácia e inteligência, a preocupação fundamental seja a de ser leal e fiel a mim mesmo, não temendo dizer algumas coisas que não digo nem mesmo para o travesseiro, enfim, mergulhar no rio, atingir-lhe a profundidade, abrir mergulhos deixando o corpo tocar as pedrinhas, o resultado é sempre o mesmo.
Sei bem que se torna imprescindível titilar-me os segredos e mistérios da alma, afagar, lisonjear os desejos de redenção e ressurreição, derramando sinceras lágrimas de júbilo e resplendor, ridículos risos de micos de circo e esplendor, e continuar a viagem tempo adentro, mar em fora, no espaço e no universo, ficando-me suspenso, com os cotovelos na mesa, com os meus quarenta e seis anos, tão ciente e consciente de que, enfim, posso sentir de perto o que é isto recompor o pretérito, refletindo e meditando sobre quem fora que pedira ao crepúsculo da tarde o eflúvio da manhã, ao longe, a dançar ao som de uma sétima, de uma opereta da juventude e da maturidade.
Já vos falei alguma coisa sobre a vingança? Talvez haja e com certeza não tive a coragem suficiente para abordá-la, confessar o nível existente em mim. Comuníssimo ouvirmos que um homem se vinga para justificar seu orgulho, seu amor-próprio, para não levar desaforo para casa. Também bastante comum ouvirmos que um homem se vinga para ser capaz de manifestar nobreza de seus sentimentos, emoções. Porque ele sente que é justo. Encontra, enfim, a origem do princípio essencial que tanto procurava: é a justiça. E como nossos advogados, Juízes, promotores já não se preocupam em defender suas causas legitimamente, justificados por sistemas corruptos, não devemos, se somos conscientes, perspicazes, inteligentes, não devemos acreditar na Justiça. A Justiça Divina é muito lenta, e acontece uma vez dentre milhares de outras, a vingança se estabelece com toda a sua pujança.
Se a minha mão alguma vez misturou o mais antigo com o mais recente, a água com o trabalho, o fogo com a arte, como não hei de estar ansioso pela liberdade, sôfrego pelo brilho resplandecente do anel de ouro? Como não hei de sentir correr por mim como um rio por seu leito, e lá fora um grande silêncio como um deus que faz a sua sesta?
Se assim o for, dou-vos razão, mil vezes razão e com todas as reverências; os vossos métodos só constituem um processo se os admitir eu como tal. É o que quero fazer por enquanto e, de certo modo, por piedade, que é a única razão para que se vos conceda alguma atenção. Não digo que vossos métodos representem uma "sabotagem da justiça", mas gostaria de sugerir-vos esta expressão, para que ela vos venha à mente quando pensardes no assunto.
A alma exaltada tem sede de liberdade, de espaço. Acima de minha cabeça, a abóbada celeste estende-se até o infinito, as estrelas calmas cintilam. Do zênite ao horizonte aparece, indistinta inda, a Via-Láctea. A noite serena envolve a terra. As torres brancas e as cúpulas douradas destacam-se sobre o céu de safira. As opulentas flores de outono, em redor da casa, haviam adormecido até a manhã. A calma da terra parece confundir-se com a dos céus, o mistério terrestre confina com o das estrelas.
Miragem que é oásis de alegria, que enche os olhos de fé e esperança, e faz-me forte, escorando a noite vista do alto deste píncaro. Daí, no deserto inóspito de mim eu ter a glória de perder-me em pensamentos felizes por a imagem haver criado raízes, ademais daí nalguma ilha perdida no oceano ter eu o júbilo de esquecer-me por a moldura e a imagem se sintetizaram, uno-verso. O pão nosso de cada instante do sentido de cada palavra, de cada belo, de cada feio, de cada gesto, de cada inspiração. O sentido está em, nascendo do mais íntimo, abrir-me para o outro. Quero viver, não sei viver, por isso, anônimo e encantado, reflito para me pertencer, o que soube o perdi, o que sonhei já o fui – e tudo é ser que não sou – não importa o que fizeram de mim, importa sim o que faço de tantas ausências e desejos.


O que no silêncio de ser aproxima-se rastejando em semelhante noite? Que quer? Persegue-me e segue-me – não estando disposto a ouvir as suas vozes muitas, múltiplas, ad-versas, de palavras, linguagem e estilo re-versas, encontro-me perdido e sem localizar o lugar em que estou. Aproximou-se demais! Ouve-me respirar, espreita o meu coração, ciumento e despeitado! Mas, de quem tem ciúmes, despeitos? Deixe-me, afaste-me daí? Para que essa escada? Quer penetrar no meu coração, penetrar os meus mais ocultos pensamentos e omissas idéias! Atrevido! Desconhecido! Ladrão! Bufão maldito! Que pretende roubar? Que deseja ouvir? Ou terei de me arrastar na sua presença como um cão, entregando-lhe o meu amor, acorrentado e fora de mim?
Tornar-me livre: "ser libertado da servidão sob a lei do pecado para viver segundo a justiça"? Esse é o benefício supremo que o homem pode obter. Não fica menos exposto e sempre aos ataques do princípio mau e, para assegurar sua liberdade continuamente atacada, deve necessariamente permanecer sempre armado para o combate. O que vos digo em verdade? Digo-vos com apreço e desprezo, prazer e dor: ´´ejustamente o vosso ser próprio que deseja, quer morrer, ansia pela morte, e que volta as costas à vida.
Vertigem de me perder, de tudo negar, de nada idolatrar, de não me assemelhar a nada, de quebrar para sempre o que me define, de oferecer ao presente a solidão e o nada, de encontrar a única plataforma da “Estação Liberdade”, onde os destinos se podem re-iniciar, ascender. A tentação é perpétua. Não acredito que possa mentir com o silêncio. Penso não ter dentro de mim mesmo o necessário para mentir e dizer estar a mentir com sabedoria e inteligência.
Continuo a olhar a noite fixamente. Atrai-me. Convida-me a penetrar-me, adentrar-me, introduzir-me, intronizar-me nela, em seu mistério, sem vontades nem pensamentos. Se os sentimentos não são poucos, não são estéreis, ao contrário. Gozar todas as paixões, paisagens, fora do autoritarismo dos homens.
Onde vamos esquecer a cúpula do edifício do pensamento e dos sentimentos da humanidade?


(**RIO DE JANEIRO**, 11 DE ABRIL DE 2017)


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