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quinta-feira, 6 de abril de 2017

**MISTÉRIO DA INTRUJICE** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


EPÍGRAFE:


"Todo sentimental é um cínico, e que o sentimentalismo é, na verdade, apenas o feriado das repartições públicas do cinismo."(Manoel Ferreira Neto)


Bons dias!


Um olhar de águia, sempre severo; altiva, sobranceira. Teria vinte e sete, vinte e oito anos. Uma beleza como poucas vezes é possível contemplar, vislumbrar. Não se tratava de uma beleza rebelde, agressiva; também não significava que, olhando-a, tivesse algum medo, rejeição. Era uma beleza adstringente, fria. Consideravam-na fria como um gelo e a sua virtude, temível e inacessível, assustava toda a gente que se aproximava. Aproximar-se dela só mesmo com o seu consentimento, assim mesmo após um exame minucioso, calculista. E, antes, desse exame, somente olhares e observações de atitudes e ações. Não havia homem que se aproximava dela, se houvesse decidido o silêncio com alguém. Creio até que se o próprio Deus se mostrasse a ela, estando à sua frente, sairia de seu silêncio.
No seu círculo, como diziam, não havia, como ela, outro juiz tão implacável, tão inflexível, tão intransigente. Condenava não só os vícios, mas as pequenas fraquezas de todos os homens, e isso sem apelo e sem agravo. Não sou capaz de afirmar se endossava as boas ações, as atitudes gloriosas, os comportamentos ilibados. Com efeito, uma simples manifestação de modos e comportamentos estranhos era de imediato criticado, a língua ferina punha-se em ação, e ao oponente não restava alternativa senão colocar o rabo de por baixo das pernas, saindo, e se possível sem retorno à sua presença.
Reverenciavam-na. As moças mais orgulhosas e mais tremendas pela sua virtude estimavam-na e procuravam ganhar-lhe as boas graças. Fitava todas as pessoas com impassibilidade cruel. Os rapazes temiam-lhe a opinião e as sentenças. Uma simples observação, uma referência passageira bastava para destruir reputações. E afinal? Não havia mulher mais depravada do que essa: tive a sorte de lhe merecer inteira confiança. Talvez “depravada” não fosse o termo adequado, consciente, mais em verdade não existia mulher mais estranha e estrangeira como aquela.
Por outras palavras, fui amante dela, em segredo. As nossas entrevistas eram preparadas tão habilmente que nem sequer os amigos tiveram a menor suspeita. Só a sua governanta estava iniciada na intriga; podia-se confiar por completo nela, pois era cúmplice. Renata tinha tanta volúpia que o próprio Marquês de Sade poderia ser seu discípulo. O prazer maior de nosso relacionamento residia no mistério e na impudência da intrujice. A maneira de meter a ridículo tudo o que ela pregava em público, o riso diabólico e interior, o modo de calcar aos pés tudo o que é intangível, e isso desmedidamente, levado até ao último excesso, até a um ponto em que o espírito mais inflamado é incapaz de imaginar, constituía, na verdade, o maior gozo, o prazer em absoluto divino, o que me fazia questionar sobremodo. Como podia sentir um prazer divino com tanta frieza, com tanta intransigência? Algo divino não tem estas dimensões e características, ao contrário.
Sim, Renata era o Diabo encarnado, mas oferecia uma sedução irresistível, o que é sobremodo interessante, pois o nome já tem um significado adverso, “renascida”. Obriga-me, então, a dizer que era um renascimento do diabo, não só a sua encarnação. No ardor dos prazeres mais intensos, ria de súbito como uma possessa, e eu, compreendendo o motivo desse riso, ria-me também. O meu riso talvez fosse até mais escandaloso, pois no fundo tinha eu vontade de ser um pouco como ela, em nada eu endossava o meu lar interior. Rejeitava o homem sempre muito compassivo, misericordioso, humano, sempre pronto a compreender e entender as arbitrariedades humanas. Se me olhava ao espelho, via-me um perfeito imbecil, idiota. Se ouvia algum desagravo de quem quer que fosse, calava-me, e no íntimo concordava. Ainda hoje, relembrando-me, dá-me vontade de rir, embora haja decorrido tanto tempo. Fátima, às vezes, comentava: “Não entendo você. Por que aceita tudo o que pensam de você? Isto de não ser você o que penso, não ser eu o que pensa, fique no seu cantinho, fico no meu, não passa de ser uma hipocrisia sem limites. Creio que você deve mostrar o homem radical e intransigente que é. Não o fosse, não estaria comigo”.
A minha personalidade, o meu eu. Tudo é para mim, para mim é que foi criado o mundo. Ouça, bem se me afigura que ainda se pode viver neste mundo. É a melhor das crenças, sem ela nem se pode viver, mesmo mal: só restaria uma pessoa envenenar-se. Desde há muito que me libertei de todos os laços, e até de todos os deveres. Obrigações, só se me derem algum proveito... é claro que você não vê as coisas deste modo, tem entraves nos pés, age como um cavalo que dá saltinhos, que marcha solene e pomposo pelas ruas de pedras da cidade, um gosto depravado. Julga segundo o ideal, a virtude. Estou mesmo preparado, pronto a admitir tudo o que quiser, mas o pior é eu estar persuadido de que na base de todas as virtudes humanas se encontra o mais profundo egoísmo, se encontra a mais pura hipocrisia e falsidade. E quanto mais uma virtude for uma ação, mais egoísmo ela contém. E quanto mais se sustenta uma sinceridade, fidelidade, lealdade, mais hipocrisia e farsa existem em todas as ações. Não tenho ideais e não quero tê-los; nunca senti saudades de quem quer que seja, de com quem tenha tido um relacionamento dos mais agradáveis, dos mais espirituais. Creio até que nunca me relacionei comigo próprio, o mais que possa ter havido é ter suportado a condição de existente, seguindo o caminho deixando todo o resto para trás, sem dar a mínima atenção, enfim estaria nalgum campo santo com uma cruz mostrando o nome, data de nascimento e de falecimento. Aprecio a devassidão obscura e oculta, estranha, original, até mesmo um pouco sórdida, para variar.
Bem sei que vivo numa sociedade frívola. Mas até ao instante presente tenho uivado contra os lobos, finjo defendê-la tenazmente; mas, se houvesse necessidade, oportunidade, seria o primeiro a abandoná-la. Remorso é coisa que nunca senti. Aceito tudo, uma vez que não implique com o meu bem-estar.
Estou persuadido de que me consideram um homem cheio de perversões, talvez até um patife, como o são os maridos fiéis e leais, os namoradinhos sensíveis, carinhosos, humanos, um monstro de vício e de depravação. Vou-lhe, contudo, dizer algo. Se fosse possível (o que, dada a natureza humana, jamais acontecerá), se fosse possível que todos nós descobríssemos os nossos pensamentos íntimos, sem receio de revelar não só o que não ousamos dizer aos melhores amigos, mas até o que receamos confessar a nós mesmos, exalar-se-ia da terra tal pestilência que toda a gente ficaria sufocada. Eis, aqui para nós, o motivo pelo qual as nossas convenções e as nossas conveniências mundanas são tão preciosas. Possuem significado profundo, não moral, não digo tanto, mas simplesmente preservador, confortável, o que mais vale, pois a moralidade, no fundo, é a mesma coisa que o conforto, ou melhor: foi criada unicamente para este fim, servir de conforto para os sentimentos reais de inutilidade e capacidade.
E que mais é o viver nessa espécie de mundo, senão uma ilusão entre dois nadas: o passado e o futuro? Dois nadas ininteligíveis, intocáveis, obscuros, que fecham uma hipótese, chamada presente. Todo este nada respira aniquilamento e tristeza; contudo, parece haver uma voz mágica e sobrenatural, que, semelhante aos fogos-fátuos dos cemitérios, sobreerguem-se trêmulos e duvidosos das ruínas.
Os astros, a terra, este quarto são uma realidade, existem, mas é através de mim que se instalam em vida: a minha morte é o nada de tudo. Não me permito esquecer de lembrar-me de que todo sentimental é um cínico, e que o sentimentalismo é, na verdade, apenas o feriado das repartições públicas do cinismo.


(**RIO DE JANEIRO**, 06 DE MARÇO DE 2017)


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