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quinta-feira, 16 de março de 2017

**VERBOS DE PRIMEVAS RELEVÂNCIAS** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Ubinam gentium sumus?
Façam o favor quem possa, esteja autorizado, sinta-se consciente de sua res-posta, com que cara – de pateta? Patético? Idiota? Não importa quanto tempo será necessário para uma res-posta além do cabimento, abarque todos os horizontes e uni-versos do conhecimento, sabedoria, sapiência. Se a verdadeira vingança é mais bem servida em prato frio, as grandes e insofismáveis res-postas serão sólidas após séculos e milênios de questionamentos e in-vestigações, in-ventários, pesquisas – ficaria um homem que se respeita, portador de amor-próprio sem precedentes, andando pelas ruas, avenidas, becos, alamedas, carregando uma pasta, só Deus sabendo o ue nela há dentro, e ouvindo perguntar a todos se sabiam do grande sucesso, do sucesso in-descritível e in-comensurável, o sucesso dos sucessos: Mané da Pasta reivindicou dos legisladores leis para coibirem a prática sem limites do adultério em motéis, o turismo está sofrendo conseqüências várias devido a este despautério, os escândalos aumentaram, ninguém ainda matou o cônjuge, mas as separações multiplicaram-se.
“Aos pés de V. Excia., digníssimo Presidente, vai o abaixo assinado, nome, manuscrito, o resto dignamente digitado, pedir a coisa mais justa e séria do mundo.
Rogo-lhe um “tempinho” de sua vida atarefada, trabalho e pré-ocupações di-versas são o que não lhe falta, dinheiro talvez, prestar-me a atenção devida por alguns instantes, a leitura não será cacete, intragável, perca de tempo, há pontinhas de humor ácido nestas palavras com que me dirijo à V. Excia, com que con-verso com os digníssimos legisladores desta egrégia casa de legisladores, que fazem rir à sorrelfa de idílios compactos; não é desejo ou intenções tomar-lhe o precioso tempo, incomodar-lhe com picuinhas irrelevantes, a corrupção anda tão à solta em nossa comunidade que as reuniões de votações de projetos de leis acontecem todos os dias, haja papel para editar as leis coibindo os infratores.
Não ignora, V. Excia., que, desde que nasci, nunca me furtei ao trabalho, em primeira instância no Armazém Patrícia, na rua João Pessoa, frente ao SAMDU, de secos e molhados, até a idade de dezenove anos, quando participei minha mudança para a capital, real-izar o sonho de ser advogado, estudei com afinco e responsabilidade, não fui gênio das interpretações e análises das análises das leis, cláusulas e emendas da Constituição Brasileira, também não fui aluno medíocre, a inteligência garantiu-me sólidos conhecimentos. A minha especialidade jurídica, uma vez graduado, é o direito familiar, divórcio provocado por adultério. Uma vez consultado pelos clientes, ávidos de justiça, re-conhecimento e con-sideração, resgatar-lhes os sentimentos e dignidade, tomo a cruz nas costas de divorciar-lhes vez por todas, nem no inferno ser-lhes-á possível qualquer reconciliação, não meço esforços e lutas, jamais os meios justificam os fins, os fins estão fundamentados nas leis como foram idealizadas pelos legisladores. Também não indago de outros serviços: podem ser políticos, literários referem-me aos direitos autorais, comercial, industrial, rural, o que for, uma vez que é direito do cidadão lá estou com toda pompa e categoria, defendendo - só trabalho com defesas, aos advogados de acusação sempre faltam as evidências e feitos comprometedores; assim é que escolhi o adultério como objeto, a cama e o casal adúltero são provas fatuais do delito, da infração do respeito conjugal. Trato com comerciantes, empresários, professores, gerentes de banco, funcionários, vereadores, prefeitos, açougueiros (no adultério não há distinção de classe, desde que se é homem o adultério se faz presente e real; só não trato com padres, bispos, cardeais, a especialidade de alguns deles é a pedofilia, o que resolve isto é o direito canônico, disto nada entendo).
Cheguei até, Sr. Presidente – (e digo para mostrar atestados de tal ou qual valor que tenho) -, cheguei a aposentar alguns casais por anos de fidelidade e respeito, trabalho exacerbado em nome da criação, formação moral, ética, acadêmica dos filhos. Alguns casais distribuíram as tarefas entre si, distinguindo-se uns, outros sobressaindo, outros pondo em relevo algumas qualidades particulares. Não digo que houvesse injustiça na aposentação, mas em determinados casos as mulheres mereceram uma aposentadoria maior, além de serem mais sensíveis e reais na criação dos filhos, mais compreensão e entendimento, souberam educar-lhes com primor no tangente à vida sexual, nenhum dos filhos neste despautério chamando adultério. Os casais estavam cansados, esta é a verdade. Trinta, trinta e cinco anos educando filhos cansa em demasia.
Ficando eu com a incumbência de ser justo, distribuir a aposentadoria, a cada um a quantia merecida, naturalmente tinha muito a que acudir, tinha muito a que cuidar, e repito a V. Excia. Que nunca faltei ao dever, não reivindiquei dois salários de aposentadoria à mulher por ser o sexo frágil – isto é um equivoco: quem é o sexo frágil é o homem; fizesse eu isto, seria criticado com categoria, não tinha noção da realidade, e teriam razão -, por sofrer e preocupar-se mais com os destinos da família, por haver perdido noites e noites de sono com os problemas quotidianos de uma família, em detrimento de só um do marido que se preocupou apenas com satisfazer as necessidades financeiras e materiais; não reivindiquei dois salários de aposentadoria ao homem, por haver sido mais sensível, compreensível com os filhos, por lhes ser mais afetivo, pelo amor incondicional que lhes devotara com esmero e engenhosidade, por haverem sido a mãe. O teto máximo de aposentadoria por fidelidade e responsabilidade com a formação e educação dos filhos sempre foram dois salários. Como só tratei de três casos neste sentido, todos mereceram dois. E para a gente de minha classe isto estrompa e mata. Direito familiar é um osso de pescoço daqueles.
Não tenho quaisquer presunções de ser digno, honrado, honesto, não tenho presunções de perfeito gênio. Não tenho presunção de jurista sem igual na história da humanidade, do século XX, de nossa comunidade do século XXI. Sou útil, ajusto-me às necessidades dos homens, indivíduos, cidadãos, ajusto-me às circunstâncias, e sei explicar as idéias, sei estabelecer e fundamentar as intenções, sei distinguir o trigo do joio. Alguém de minhas relações nesta íngreme carreira jurídica, não declinarei o nome, não se faz mister, diz que ao advogado de acusação cabe mostrar e de-monstrar que o joio transcende o trigo, e veja, Sr. Presidente deste egrégio Olimpo dos Legisladores, jamais perderam uma causa sequer.
Não é trabalho, mas o excesso de trabalho que me tem cansado um pouco – desculpe-me a sinceridade e franqueza, mas está para existir outra cidade cuja prática essencial é o adultério. Meu Deus!... Até na sombra tem adultério. Receio muito que me aconteça o que se deu com outros: aposentaram-se por cansaço mental, não conseguiam mais raciocinar com dignidade no que tange à execução das leis. Isso de se fiar uma pessoa no re-conhecimento alheio, na generalidade dos feitos e compromissos é erro grave. No Direito não se fia, des-fia-se as inconseqüências, imoralidades, corrupções, e tece-se a postumidade dos valores éticos e morais. Quando menos se espera, lá se vai o sonho, lá se vai a realidade, lá se vai a quimera, lá se vai a fantasia, é-se destituído de tudo, chega alguma pessoa nova, amante e defensora da modernidade, ad-miradora inconteste das ilimitações, e encontra cúmplices e álibis, a favor de tudo, que tudo seja permitido, o vazio é porta aberta para outros horizontes, ambas as mãos da experiência de um passo que só ocasionou alienação, não valem um dedinho, o mínimo, das esperanças da juventude.
Mas vamos, Sr. Presidente, ao pedido que lhe faço, às reivindicações aos senhores vereadores desta egrégia casa. O que eu impetro da bondade, solidariedade, compassividade de V. Excia. (se está na sua alçada; não sou daqueles que pensam que por serem vereadores, fazedores de leis, tudo é da alçada de vocês) são leis que coíbam o adultério em motéis da cidade, ainda que a motelaria seja extirpada vez por todos, os moteleiros vão para a porta da igreja com um pratinho na mão para acolherem as moedas – lembra-me do mendigo Chico que pedia esmolas pelas ruas, esmola para almoçar e jantar, não para beber e fumar, não fumava e nem bebia -, com elas comer um daqueles “pratos-feitos” do Bar da Praça, gordura além do limite (até se faz a pergunta contundente: afinal, estou comendo ou tomando gordura), sal à vontade, um convite solene ao colesterol e à pressão alta. Seria melhor que os adultérios sejam praticados nos lugares ermos da cidade, escuros, distantes, dentro dos carros; lá as mulheres jamais des-cobrirão seus maridos fazendo coisas que com elas não fazem, as mulheres praticando gestos indecorosos, acima de tudo não haveria escândalos, nenhum risco de crime passional. O que me importa é salvaguardar a nossa comunidade de tantos atos espúrios ao valor mais do que divino que é a família. Coibidos os adultérios em motéis, veremos que ainda se torna possível o resgate da idoneidade matrimonial e cristã, espiritualidade e sensibilidade. Creio que Deus exagerou na Tábua das Leis que entregou a Moisés, ao invés de 10 mandamentos, três já eram suficientes: não matar, não roubar, não desejar a mulher do próximo.
Peço pouco, Sr. Presidente e vereadores deste plenário: apenas impedir que o matrimônio seja riscado de nossa comunidade, os homens se tornem solitários, pinguços, cachaceiros, paus-d’água, destruam o bem mais preciso que é a vida, pois ninguém é capaz de viver sem alguém, ninguém é capaz de viver sem amar e ser amado, ninguém é capaz de viver sem comprometer o coração, enfim precisa de aventuras, chato isso de estar sempre bombando o sangue. Alguém que lhe dê condições de superar os problemas quotidianos, mulher não vive sem homem, homem não vive sem mulher, aliás, o próprio livro sagrado diz com divinidade: “crescei e multiplicai”.
Deus, feito o mundo, descansou no sétimo dia. Pode ser que não fosse por fadiga, mas para ver não era melhor con-verter a sua obra ao caos; em todo caso, a Escritura fala de descanso e é o que me serve. Se o Supremo Criador não pôde trabalhar sem repousar um dia depois de seis, quanto mais este criado de V. Excia., quem de todas as formas e modos reivindica a moralização do casamento, da vida conjugal.
Não faltará quem conclua, diante de todas estas palavras e sentidos profundos, que desejo de todas as pessoas, cidadãos, homens e indivíduos, libertar-me da saga de minha família, somos seis irmãos, e todos adulteraram os princípios matrimoniais, trariam com rigor e prepotência. Uma delas pensou que os filhos eram mais importantes que a vida dela, sofreu o diabo que o pão amassou com o rabo, apanhou do ex-marido por visitar as filhas, adoeceu, contraiu o lúpus, doença psíquica, devido às defesas que a alma e o corpo criam para não haver sofrimentos e dores, morreu em dois anos. Enfrentando sérias dificuldades financeiras, o ex-marido lhe dera o apartamento para viver; entrando em casa, as filhas lhe disseram: “Você não faz a menor falta nesta casa”. Assim dizem. Será que um homem solteiro trai? Nunca me casei. Não tenho nem casos. A minha vida é o “direito familiar”.
Se algum direito tenho a reivindicar a esta casa, maiores e infinitos têm os casais desta comunidade que sempre primaram pelas virtudes e valores do espírito conjugal, cujas esperanças são a imortalidade da família, secular e milenar.
Contando receber mercê, subscrevo-me com elevada consideração de V. Excia., admirador e obrigados verbos Salientar e Enfatizar.
Lavre-se portaria, dispensados os emolumentos”.


(**RIO DE JANEIRO**, 16 DE MARÇO DE 2017)


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