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quinta-feira, 16 de março de 2017

**METAFÍSICA DE NAVALHAS ALHEIAS** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


O que restou da modernidade está às portas da morte. Está caindo aos pedaços. Está com os pés mais lá do que aqui. Pele e osso são o que ainda pode-se observar a olhos nus. É de dar pena – sou em demasia sensível, e meu coração derrete por mínima coisa, gotículas de lágrimas descem na face -, mas é assim, só mesmo os porcos morrem inchados de tão gordos. A modernidade está velha demais.
Pergunto-me o porquê de os juízes não con-sentirem já com o pedido de eutanásia que a humanidade inteira fez, através de abaixo-assinado, são milhões de assinaturas. Creio que estão temerosos de nada haver para colocar no lugar, as conseqüências do vazio serem catastróficas, corre-se o perigo de a humanidade morrer. Falta de percepção, pois que só o vazio acolhe o múltiplo, as novidades, as inovações. O segredo é começar do zero nu e cru.
Assim, estive pensando – melhor ainda, cogitando, este verbo “cogitar” no gerúndio, além de ser erudito, haver toda uma filosofia de primeiríssima qualidade atrás dele, é muito mais profundo; “pensar” cabe mais à modernidade que prima pelo supérfluo e superficial – em contribuir com o novo tempo que se a-nuncia, espera apenas o consentimento dos juízes ao pedido dos homens, acabar com a vida da modernidade, para prosseguir a sua caminhada, trilhando outras veredas até então inimagináveis na história do mundo, procurando estabelecer outras definições para a nova ordem das coisas.
Em primeira instância, a coisa que cogitei definir é a fraude. Mentes esplendorosas, espíritos divinos gastaram a massa cefálica para explicar com clareza a fraude na modernidade, caíram na mesmidade de atribuí-la aos crápulas, canalhas, súcias; são eles os lídimos representantes dela, são os verdadeiros falsificadores, clandestinos. Obras e mais obras nas prateleiras das livrarias, nunca se gastou tanta tinta com único tema, papel nem se fala. Acabaram fazendo apologia, e os homens, eufóricos, extasiados com tantos encômios, serviram-se delas em taças suntuosas, beberam à vontade, ininteligível como não morreram ou de barriga dágua ou afogados.
Chamo a fraude de braço esquerdo do homem, o braço direito é a força. Muitos homens são canhotos. Que uns sejam canhotos, outros destros, não sou exclusivista, aceito a todos, menos os que nada sejam. Por isto, não aceito mais a modernidade: ela nada mais é.
Mais rigorosa e profunda é a definição de venalidade. A venalidade é o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se posso vender meu chapéu, sapato, calças e camisas para o brechó, a minha cadela pura raça para quem deseja cruzá-la com cão puríssima raça, meus livros de Carlos Drummond de Andrade, não me servem para nada, para um sebo, coisas que são minhas por razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, são-me exteriores, como é que não vender a minha opinião, a minha palavra, a minha alma, o meu voto, coisas que são mais do que minhas, íntimas e interiores, porque são a minha própria consciência, isto é, eu mesmo – não há outra consciência semelhante ou igual à minha, nem nas bordas, nem no miolo.
Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório – nos tempos modernos, a obscuridade e a contradição eram normais, sem elas nada tinha qualquer sentido, não lhes dar adesão era nonsense dos mais profundos, tudo começa nelas, por elas, por intermédio delas, inspirado nelas, embasado nelas, fundamentado nelas, eram alicerce, pedra de toque e angular, prova de altíssima inteligência, cultura e intelectualidade, até mesmo comprovação de genialidade, deu no que deu, a torre de Babel das idéias, homem confundindo fraude com venalidade, ideologia com interesses espúrios, liberdade com libertinagem, personalidade e caráter com instinto... Cumpre safar destas coisas neste momento em que a luz dos novos tempos está entrando por todas as janelas e portas. Não há mulheres que vendem os cabelos da cabeça? não pode um homem vender os ossos dos braços, esquerdo e direito, para quem nasceu sem eles? Os ossos e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem?
Não cuido expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária – vale dizer que estas idéias que se me anunciaram, assim que abri a janela de minha alcova, e os primeiros raios de sol do novo tempo se mostraram, são esboços, é ainda muito cedo para mergulhar profundo na temporalidade e pecuniaridade, a carroça do tempo precisa subir e descer muitas ruas, avenidas, becos e alamedas, o jegue tem de suar muito para entregar os fretes no seu tempo devido, empacando e apanhando, calando como mostra de sua conformidade com o destino que lhe coubera desde tempos imemoriais, e eu necessito de enxugar as gordurinhas de meus miolos. À vista do preconceito social, que, infelizmente, será eterno, enquanto houver as fases da vida, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, refiro-me à venalidade, o que é exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é merecer duplicadamente.
Examino tudo, retifico tudo. Nos tempos idos da modernidade, retificava-se para ratificar e ratificava-se para retificar, o que exigia inteligência primorosa, era necessária muita habilidade e engenhosidade, mais ainda que caçar perdizes com jegue, quase arte, para não se tornar objeto de mofa e riso. Retificar a metafísica das navalhas alheias, para ratificar a filosofia da barba bem escanhoada tinha mesmo de ser muito inteligente, quiçá puro gênio. Retificar a corrupção política para ratificar o analfabetismo dos políticos era ser Deus. Em nossa retífica Novo Horizonte, ratificar é pecado original. Combato o perdão das injúrias, a solidariedade aos canalhas, a compaixão com os homens que surram as mulheres, a ditadura dos militares, a condenação dos inocentes e liberdade dos culpados, e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proíbo formalmente a calúnia gratuita, mas induzo a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que a calúnia gratuita seja uma expansão imperiosa da força imaginativa, da fraude criativa, e nada mais, proíbo receber salário, mesmo que mínimo, só para valorizar o trabalho, pois equivale a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito são condenadas por mim, como elementos possíveis de certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Essa mesma exceção logo elimino, sentindo-me orgulhoso e lisonjeado com a inteligência que se me a-nunciou, sem ela cairia na mesmidade dos tempos modernos, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples bajulação, é este o sentimento aplicado e não aquele.
Dissera antes que a fraude fora tema que encheu páginas e mais páginas de livros, as prateleiras das livrarias ficaram mais do que entupigaitadas, nalgumas editoras faltaram papéis. Olha que era dificílimo publicar tais obras, os editores recusavam de pés juntos e mãos postas, não tinham lucros; só se publicava, filosofia erudita, literatura clássica, teologia dos dogmas. Alguém ousou fazê-lo, vendeu igual água, obtiveram lucros exorbitantes, todas as outras editoras entraram de cabeça na “fraude”, os lucros foram mais do que exorbitantes, qualquer um publicava livros. Mas outro tema foi além de todos os limites, e esse acabou de enriquecer muitos editores, jogaram dinheiro fora, rasgaram notas de cem, queimaram capitais, deram divinas esmolas. Que teima é este, meu Deus? O amor do próximo. Este é um obstáculo grave à nova instituição. Isto é uma simples intenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se deve dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo, nojo e asco – nojo e asco, quando o próximo não sabe falar a sua língua, o seu pronome oblíquo conjuga verbos, o seu “trem” define e esclarece a cruz de Cristo, os seus pleonasmos viciosos conceituam as fraquezas dos sentimentos e emoções.
A noção do próximo, excelentíssimos, digníssimos, divinos leitores, está errada. De-monstro o erro, servindo-me da suprema inteligência e espiritualidades, dimensões que me foram doadas por Deus gratuitamente, embora soubesse Ele que iria me utilizar delas com sapiência, era a Sua intenção, com elas contribuiria para fazer amadurecer a sensibilidade e a consciência dos homens. Cito uma frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: “Leve a breca ao próximo! Não há próximo”, homem igual esse não nasce em nosso país, inteligência assim tão primorosa não nasce em nossa comunidade. A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns seguidores, discípulos, cúmplices, álibis cogitassem que uma tal explicação, por metafísica, não podia ser por outra coisa, nem mesmo pela filosofia, antropologia, sociologia, escapava à compreensão das turbas, alguém de imediato recorreu a um apólogo: - cinqüenta pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos; é o que acontece aos adúlteros.


(**RIO DE JANEIRO**, 16 DE MARÇO DE 2017)


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