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quinta-feira, 16 de março de 2017

**DA IN-FECÇÃO À ESCLEROSE MÚLTIPLA - REVISADO E AMPLIADO** - SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


De Brás Cubas ao escritor Manoel Ferreira Neto com as vênias do reconhecimento.


Ah, sim, gostaria de com-partilhar com alguns, muito poucos, e só Deus saberia o porquê, algumas gargalhadas a plenos pulmões, risinhos de soslaio, risadas diplomatas e estratégicas, isso se considerar sejam pensamentos e intuições de um ser humano, se de um asno, só Deus saberia também o porquê, dizer as diferenças de um e outro, e, se fizer qualquer menção a isto, serei condenado a tecer outra rede do último nó até ao seu início, sem desmanchar um só ponto, também Deus sabe o porquê gratuitamente doou este dom...
Sinto que estou me tornando alguém entre línguas, muitas estratégias e tramóias, mas os dentes não perdoam, mordem com solenidades, e, acontecendo, aí os verbos ficam sem a carne. Mas isto não é que estou mudando de personalidade e caráter, mas um modo de arrancar os risos rasgados, e só assim é possível.
Aconselharam-me a contratar alguém especializado em "etiquetas da lingua", a minha andava sem qualquer princípio, ética, moral, verbos sem carne são inconcebíveis, os câes é que apreciam sobremodo o osso. A especialista em "etiquetas da língua" está a ensinar-me com excelência a arrancar risos.
Deixemos de preâmbulos e escusas as mais diversas, e digamos que só resta a alguns saírem dividindo as palavras aleatória e inconseqüentemente, dizendo assim que estão transformando o sentido das palavras, dando-lhes o seu real valor, isto dentro de certos princípios intelectuais, que não interessam a ninguém e nem a mim, contudo, se olhadas de soslaio, divididas e até colocadas em negrito e itálico, enfatizando que o vocabulário está muito modificado e humanizado, que, enfim, encontrou a expressão do momento, e todo o resto não interessa mais, pode-se dizer algo diferente e inusitado, algo que compromete até a medula espinhal.
Aliás, devo lembrar de antemão e revezes que afirmara “resta a alguns saírem dividindo as palavras”... Disse-o. Se houver alguma dúvida, é o caso de in-vestigar, lendo, desde o início, o parágrafo anterior a este. Não resta qualquer.
Se houver alguém que, ao escrever “infecção”, dividisse-a, “in-fecção”, colocando ou não as aspas, mas usando o hífen, para mostrar que os seus conceitos acerca do mundo e da realidade se evangelizaram desde dentro, não há de se crer, em hipótese alguma, que a sua inteligência e cultura, imiscuídos nas entranhas mais sórdidas do intelecto, estejam crescendo, re-colhendo e a-colhendo outras linguísticas e semânticas, estejam amadurecendo, daí a sabedoria plena e toda poderosa, e muito menos iriam fazê-lo, dariam crédito total e absoluto à linguagem vulgar: “quem tenta imitar o que não é imitável, acabará sendo ridículo”.
Não faria isto nunca. Será entregar-se de graça e falta de propósito numa bandeja. Se alguém fosse in-vestigar muito profundamente a palavra escrita, de modo normal, respeitando os princípios clássicos e eruditos da língua, dissesse, então, que, embora não a escrevesse, separando-a, mas nas entrelinhas, com um risinho de escárnio usara, para ridicularizar e espezinhar alguém que o faz de modo espontâneo e singular. Negaria, de pés juntos, que não tivera essa intenção, mostrando os porquês e entretantos por não o ter feito. E por quê?
Aí, está o escárnio, provocando os risinhos, gargalhadas, sorrisos, e tudo o mais que se possa imaginar ou criar, a respeito desta questão tão singular e originalmente dizendo, se não se acreditar nisto é só nas entrelinhas intuir o além das linhas, como dissera alguém a respeito de um seu amigo a quem adorava e venerava por sua enorme capacidade de brincar com as palavras, jogava-as fora e não se esgotavam nunca, isto era impressionante, ainda o é, se assim posso dizer. Há quem não tenha única palavra no instante da necessidade, e este joga palavras fora, nunca se esgotam. Isto é que é!...
Inveja. Dizem que a inveja é própria dos incapazes, inúteis. Não é de minha intenção exclusivíssima negligenciar este princípio secular, milenar, eterno, assim creio eu. Acrescentaria algo ainda muito sutil, não havendo ainda palavras que possam de algum modo conceituar, diminuindo o termo, aumentando, sei não, mas “definir”. Acrescentaria que a inveja não divide as palavras; reconhece quem sente inveja que são indivisíveis; os seus interesses é que são divididos de um extremo ao outro, desde o corpo, alma, espírito, até o resto que se possa encontrar nos vernáculos da língua e dos princípios, dos instintos e dos ossos honrados e dignos.
Ninguém iria separar a palavra para mostrar que os seus conceitos estão passando por mudanças e transformações, estaria decidido, desde então, a buscar caminhos outros que levam à originalidade e autenticidade. Não faria também a proeza de não a dividir, deixando-a como manda os figurinos dos séculos e milênios, intacta, extática e inerte. Não diria “in-feccionar”, usando ou não as aspas, para mostrar inteligência e espírito aberto ao seu tempo e época. Não usaria a palavra de modo normal, desejando que nas entrelinhas estivesse no sentido da outra dividida pelo hífen. De algum modo, as algemas e correntes estariam no chão de todas as pedras: “caíra num extremo ridículo”, aliás, dito não sei por quem acerca de alguém por quem tinha sérias e sinceras admirações pela sua originalidade da brincadeira com as palavras, mas quem tentasse imitar cairia num ridículo sem limites e fronteiras, estaria condenado a ser lembrado por seu ridículo.
Talvez ele não se referisse em hipótese alguma a esta palavra, saltasse-a, mas no seu espírito e alma estivesse desde toda a eternidade inscrito isto, não podendo negligenciar ou ridicularizar, escrevendo “à esclerose múltipla”, o que elimina em absoluto o sentido da palavra - outras idéias, intenções e intuições - e alguém quem aprendera desde a eternidade as correntes-algemas das palavras se encontram nos abismos da alma, de onde os ventos frios, vindos de todos os cantos do mundo e da humanidade, se reúnem e deixam a “saudade” de algo que sacia a sede e a fome.
Não cairia no ridículo de tentar imitar o que é inimitável. Antes, de acordo com os seus interesses e particularismos, reconheceria o inimitável, e nem procuraria o original, autêntico, seguiria simplesmente os seus instintos vulgares e imbecis, o de que sente inveja e nem as cinzas se esquecerão de tamanha inércia e inépcia – possível um homem assim, preferindo a inveja do que se ver por dentro, buscando algum modo de se superar, mas in-felizmente no seu espírito a palavra se acha dividida para que não se depare nunca com o que é e representa no mundo.
Se quem ler estas palavras escritas neste diário que trago comigo desde tempos imemoriais, após haver lido desde o início – quinze cadernos de espiral de duzentas folhas – disser que são palavras de um esclerosado, rindo a bandeiras soltas, não tirarei jamais a sua razão e motivos para isto, inclusive quem sabe até pudesse rir com ele, numa brincadeira de “vamos ver quem ri mais alto e o seu riso possa ser ouvido por toda a humanidade”. São sim de um esclerosado.
Agora, e se houvesse alguém quem mergulhasse mais fundo, dizendo que, em verdade, não se trata de mim, não sou quem está esclerosado, mas nas entrelinhas está bem definido e conceituado se tratar de alguém, aliás, quem resolvera aqui e ali imitar o que é inimitável, assim caindo no ridículo, e ainda há quem parabeniza e vanglorie, isto não é admissível.
Bem... para mim. Aprendi assim a ver-me de dentro.


(**RIO DE JANEIRO**, 16 DE MARÇO DE 2017)


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