Total de visualizações de página

quinta-feira, 16 de março de 2017

PERERECA TUPINIQUIM - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Bons dias!

Devo de antemão às sorrelfas e revezes dizer que me não é sabido se o termo “tupiniquim”, usado no gíria, significa, o seu sentido seja de pessoa atoleimada, bocó, jacu – gíria é o tipo da coisa que de grupo para grupo, de tribo para tribo, de região para região, muda de sentido. Tupiniquins era uma tribo que habitava o litoral de Porto Seguro, Estado da Bahia, conforme o termo dicionarizado. Já ouvira este vocábulo sendo usado na gíria, parecendo-me sim que era pessoa bocó. Com certeza, aqui estarei usando este termo com este sentido específico, se não o for, tanto melhor, terei criado outro para ele.
Não saberia dizer se os bichos da tribo eram considerados no litoral de Porto Seguro também tupiniquins, por serem nascidos lá, por exemplo, se o jegue era tupiniquim, se o sapo era tupiniquim, se o peixe era tupiniquim, se a perereca era tupiniquim. Imagine: o jegue por si só já é um animal atoleimado, abestalhado, um jegue tupiniquim seria ainda mais atoleimado, abestalhado, atravessaria todos os limites terrenos e contingentes do abestalhamento, até acredito que em termos de nossa “última flor do Lácio” dizer de um jegue tupiniquim seria um pleonasmo vicioso, como descer para baixo, subir para cima, descer já significa ir para baixo, subir, ir para cima.
Na natureza também acontecem coisas do arco da velha, não estão elas restritas apenas ao ser humano, que por si só já é absurdo, por si só comete coisas absurdas, risíveis, se for atoleimado o absurdo é bem maior, e nós os normais, providos de razão e senso, que seguremos as nossas gargalhadas e risos.
Por vezes, terminado o expediente na redação, aprecio tomar uma cerveja no botequim ao lado do açougue de um amigo, Açougue Rocha, cujo nome não sei dizer, mas digo “bar do gordo”, o dono ou garçom não sei dizer é um verdadeiro hipopótamo de tão gordo, creio sofrer de obesidade mórbida. Encontro-me às vezes com um conhecido, Paixão, que adora contar histórias, piadas, fábulas, que não são de suas criações, são ouvidas de seus companheiros de botequins, memoriza, passa para frente. Ontem, assim que chegara e sentara à sua mesa, dissera-me que iria contar uma fábula. Não estava para piadas, estava precisando de renová-las, as que conhecia já estavam velhas, todos já sabiam, não era papagaio para ficar repetindo as coisas.
Para quem não conhece o que é fábula, muitas vezes tendo ouvido falar dela, conhecido algumas ou muitas, pois que Cristo contara inúmeras para o seu povo e para os seus discípulos, a fábula é uma composição, quase sempre em verso, em que se narra um fato cuja verdade moral se oculta sob o véu da ficção.
A fábula que iria contar-me era da perereca tupiniquim. Tendo pronunciado isto, dera uma daquelas suas risadas altissonantes, muito peculiares a ele, o que achei muito interessante, pois que ele não costuma rir antes de contar as coisas, só depois de contadas é que ri a bandeiras soltas. Seria uma fábula interessante ou preparava-me para rir, porque ela não tinha graça nenhuma, era tipo piada de americano, sem sal nem tempero, o riso surge somente devido ao incólume besteirol.
Numa mata, mata fechada, quase sendo impossível ao homem entrar nela, enfatizara Paixão a mata, uma perereca preparava-se para comer uma mosca, a mosca a estava incomodando muito, tinha de ser comida, embora não estivesse com fome naquele momento, quando um macho, que observava a cena lhe dissera que não comesse a mosca, esperasse que a abelha o fizesse, depois ela comeria a abelha. Ficaria bem mais alimentada. A questão não era ser mais ou menos alimentada, não estava com fome em verdade, apenas que a mosca a estava incomodando. A perereca assim fez e, efetivamente, passados alguns segundos, a abelha comeu a mosca. Felizmente estava livre do incômodo da mosca, poderia curtir o crepúsculo daquele dia serena e tranquilamente. Mas ela se preparou, então, para comer a abelha, uma fomezinha sorrateira lhe apareceu, mas o macho interrompeu novamente.
De novo, dissera à perereca que não comesse a abelha. Iria ficar presa na teia da aranha e a aranha iria comê-la. A perereca comeria a aranha e ficaria mais bem alimentada. Que espécie de amigo era o macho? Quis comer a mosca, aconselhou não o fizesse, ouvira o conselho porque não estava com fome, mas a fome apareceu, precisava saciá-la, e ele aconselhava não comesse a abelha. Por que não queria que ela comesse? Haveria algum problema sério de digestão ou coisa parecida? Se ela comesse a abelha ficaria bem alimentada, fora o que dissera quando se preparava para comer a mosca. Se não comesse a abelha, esperasse que a aranha o fizesse, seria mais bem alimentada. Por que a aranha iria saciar mais a sua fome? Por que estaria o macho tão preocupado com o seu estômago, com o saciamento de sua fome, com o seu prazer? Foram os questionamentos que fizera ao macho, mas ele não teve respostas, talvez não as tenha querido dar, o que é mais provável. Se a perereca não quisesse comer a aranha, argumentou o macho, comesse a abelha, mas não reclamasse depois que a abelha não deu nem para encher o buraco do dente, continuava com uma fome daquelas, daquelas fomes que se visse João Gome o comeria sem pestanejar, como dizem: “Está com fome? Mata João Gome e come!”, dizem que essa fala é dos kobus, pelo menos fora isto que ouvira.   A escolha era sua, fizesse o que achasse melhor.
A perereca decidiu que não, não iria comer a abelha, esperaria que a aranha o fizesse, não estava mesmo com tanta fome. A perereca, de novo, esperou. A abelha levantou vôo, caiu na teia da aranha, a aranha a comeu. A perereca preparou-se para saltar sobre a aranha, salto preciso e definitivo, já o tinha feito algumas vezes, os resultados foram supimpas. O macho interrompeu de novo. A perereca olhou-o já se sentindo um pouco enraivecida com ele. Não lhe fizera qualquer questionamento. Não iria responder. Seria perda de tempo. O olhar de enraivecida já dizia por si mesmo.
O macho lhe dissera que não fosse tão precipitada, a pressa é sempre inimiga da perfeição. Haveria de surgir o pássaro que comeria a aranha, que comeria a abelha, que comeria a mosca. A natureza é perfeita, tudo nela já está mais que predeterminado. Se esperasse, deixasse de lado a precipitação, comeria o pássaro e ficaria mais bem alimentada. Pensasse um pouco: mosca, abelha, aranha, um pássaro. Óbvio. A sua fome seria muito melhor saciada. Poderia até deixar o resto para o dia seguinte, se não pudesse comer o pássaro inteiro. Lembrasse dos ensinamentos da cigarra e da formiga: guardar a comida para os tempos de inverno forte.
A perereca novamente olhou para o macho, não mais enraivecida, mas pensativa. Vira o macho perto da serpente. Não teria ele aprendido as tramóias dela, quando seu objetivo era que Eva comesse a fruta da árvore proibida. Com que intenção o macho a estava convencendo? O que ele estaria tramando? Não iria comê-la! Ou iria? Não. Não. Estava viajando na maionese da batatinha.
Pensou, pensou. Reconhecia os bons conselhos do macho. Até aquele momento esteve com toda a razão. Se houvesse comido a mosca, a abelha não teria aparecido e a comido, se houvesse comido a abelha, a aranha não teria aparecido, se houvesse comido a aranha, o pássaro não teria aparecido. O pássaro, com efeito, iria saciar a sua fome até a aurora do novo dia, dormiria com a pança cheia, poderia até guardar um pouco do pássaro para o desjejum. A perereca aguardou. O pássaro demorou mais a aparecer. A fome da perereca aumentava a cada instante passado. O pássaro chegou e jantou a aranha, foi curtir o crepúsculo na grimpa de uma jabuticabeira, cantando à vontade, até dobrando de tanto prazer e satisfação, a aranha estava mesmo uma delícia, que prato para um crepúsculo que armava chuva, trovões e relâmpagos por todo o infinito.
O pássaro estava com toda a razão. Logo começara a chover e a perereca, ao atirar-se sobre o pássaro, com todas as volúpias, já esperava por algum tempo colocar alguma coisa dentro da barriga, não o tendo feito por interferência do macho. Escorregou e caiu numa poça dágua. Neste momento, uma cobra que passava por lá, engoliu a perereca e sumiu mata adentro.
O gordo, que estava encostado ao balcão, olhando para fora do botequim, enquanto palitava os seus dentes, caíra na gargalhada. Os fregueses todos fizeram o mesmo. Alguns transeuntes que passavam olharam para os clientes rindo, rindo; o que era a bebida, a pingudice, faz qualquer um rir à vontade sem motivo algum. Eu próprio estava sério. Paixão olhava-me estupefato, não estava entendendo o porquê de eu não estar rindo como os outros com a sua fábula da perereca tupiniquim. Não havia eu entendido, perguntara sério, estava se sentindo ridículo, sua intenção a priori era fazer-me rir e não aos clientes do botequim do gordo, e eu, no entanto, estava sério. O que eu não havia entendido? Dissesse, ele explicaria com todas as palavras possíveis e inimagináveis, aí iria entender. Não me esquecesse que fábula tem um sentido moral nas suas entre-linhas, talvez não houvesse entendido a moral de sua fábula.
A questão não era a moral, entendera com todas as letras, nem era preciso pensar muito para tirá-la da perereca, havia outra coisa que estava bem clara para mim, talvez houvesse eu perdido algo da fábula que a tornou obscura para mim. Seria absurdo pedir ao amigo Paixão que a contasse de novo, com todos os seus detalhes e pormenores, se possível até com as mesmas palavras. Deixasse eu de ser cretino, dera uma risada, cheio de coisinhas, ninguém conta uma história com as mesmas palavras, não havia decorado para contar. Não, não... Estava só dizendo isso, não iria precisar ouvi-la de novo, mesmo porque ele não iria poder contar sua fábula do mesmo modo, quem conta um conto sempre aumenta ou diminui um ponto, o ponto que aumentasse ou diminuísse iria influir ainda mais no meu não-entendimento da fábula. 
Os clientes pararam de rir. Olhavam-me estupefato. O gordo chegou perto da mesa, aliás, Paixão, pedira uma nova pinga para comemorar o sucesso da cobra, ela que nem pensava que iria comer uma perereca naquele começo de noite, que chovia, estava alimentada para o resto da noite, dizendo-me: “O que você não entendeu da fábula da perereca tupiniquim?” Perguntara com todos os jeitos e trejeitos de quem mangava de mim, ouvira dizer ser eu um homem de inteligência incomum, e não entendera a fábula. Olhei-o de banda. Disse-lhe que havia entendido a moral da fábula, era outra coisa que não estava entendendo.
- O que entendeu, então?
- Entendi  que quanto mais tempo duram as preliminares, mais molhada fica a perereca. Porém, cuidado! Se não comer logo, vem outro e come. Isso é o que entendi.
Era essa mesma a moral da história, disseram todos em uníssono. E por que não rira? Ou eu não sabia que “perereca” tem outro sentido? Estive quase dizendo que jamais ouvira o outro sentido que o povo dava à perereca, embora eu não soubesse mesmo, mas para ver a reação de todos. Se eles iriam explicar-me, pareceu-me que o sentido era impróprio, conforme a impropriedade não iriam poder fazê-lo, pois estava uma senhora tomando um lanche com o seu filhinho de uns seis anos. Não o fiz.
- Diga, imbecil, o que não entendera da fábula da perereca tupiniquim! – dissera Paixão em tom sério.
- O que mesmo não entendi foi a razão de a perereca ser tupiniquim? Qual a razão da tupiniquinidade da perereca? Haveria alguma?
Todos caíram na gargalhada. Paixão engasgara com a pinga, dera uma golada como se faz com a cerveja, trocou os copos, saírão lágrimas nos seus olhos. 
- É isso que dá contar fábulas para intelectuais! – dissera Paixão, ainda derramando lágrimas devido à troca da cerveja pela pinga. 


(**RIO DE JANEIRO**, 17 DE MARÇO DE 2017)

Nenhum comentário:

Postar um comentário