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quinta-feira, 16 de março de 2017

[**À LUZ DE DIALÉCTICA DE SILÊNCIOS A ALGAZARRAS**] - PINTURA: Graça Fontis/PROSA: Manoel Ferreira Neto


Em tempos de outrora, saí a semear as esperanças em versos, terras, nuvens e estrelas, um viajante de silêncios e sublimidades, perdi-me mil vezes nestas andanças, dores que adubei, tive de colhê-las, sofrimentos que reguei, tive de re-colhê-los, medos que senti profundo, tive de armazená-los, memorizá-los. Compreensível isso: esvaziei-me, era mister encher-me novamente. Tudo em torno corria a passos largos, não movia sequer única perna, não era necessário, a eternidade cuidava por si da continuidade da conquista, da glória; permanecia estagnado e a vida era rio que fluía incessantemente, e era eu navio encalhado em fantasmas, e era sargaço. Tudo em volta estourava, explodia e era pavio que engolia o fogo e implodia fracasso (até as musas perceberam o meu triste e indizível cansaço, assumiram o ser de mim, generosas e solidárias que sempre foram, o objetivo era ajudarem-me, não queriam ver a minha estrela apagada de todo) e naquele mundo pleno andava tão vazio, o peito me dizia de modo eufórico e extasiante: “Re-nasça, re-nove-se, inove-se, os horizontes e universos para si estão todos abertos e escancarados, entre por essa porta e siga a sua viagem”. Do turbilhão dos turvos pensamentos retirei os que se fizeram luz, os que a-nunciaram verdades outras que antes apenas intuía, e entreguei meus melhores momentos à vida e ao mundo, estava presenteando-lhes como se faz a um ser querido, à mulher estimada e amada, ao amigo de todas as jornadas e itinerários, às amigas de todos os sextos sentidos e sensibilidades, um gole de cachaça que me embriaga o coração, fá-lo pulsar sensações várias, re-versas de minhas utopias e sonhos, in-versas de meus projetos e propósitos, puras e singelas. Seguirei os caminhos do tempo, tomei nos pés outras veredas, senti-as bem fortes e presentes em mim, mostrar-me-iam outros horizontes e uni-versos.
Um quadro não é soma de tela e de tintas, nem sequer de linhas e cores, nem sequer sentimentos e emoções, projetos e sonhos, nem sequer a síntese disso, nem sequer o que viso por inter-médio disso, a intenção com que tudo isso trespasso e trans-cendo e re-construo, lá onde ec-siste o meu apelo de beleza. Porque, então, o quadro ec-siste apenas como quadro que é e a minha intenção como a voz da minha procura. Uma verdade não é apenas a concordância que quiser e nela descobri, porque ela então é apenas a exatidão de si, indiscutível, presente, petrificada. Mas o quadro, música, verdade, para que eficazes ec-sistam no mais abismático, insondável de mim, precisam de encontrar-se com o insondável que me transcende e sou eu ainda no que sou mais do que a vida e o mundo, mulher estimada e amada, a companheira de todos os momentos e instantes, amigo e amigas, lilases a leste do éden. A todos o amor propõe problemas e conflitos, quem é só, furiosamente sonha e crê ser sua condição medonha, tenebrosa, e exagera a dor em seus poemas. Se pelo menos quem não amasse com o ermo de si mesmo contentasse!
Há uma verdade além da verdade, há uma beleza além da beleza, há uma poiésis além da estesia, há uma poesia além da metafísica, há uma filosofia além de todas as razões puras e práticas, há uma prosa além da realidade do quotidiano de situações e circunstâncias, do folk-lore popular, das lendas, mitos e ritos, há um mundo além do mundo e só aí ele ec-siste, há caritas além da amizade sincera e séria pelas sensibilidades que extasiam, conquistam, pelos sentimentos e emoções que o coração, prazerosamente, guarda no seu lugarzinho bem singular, como o belo e o verdadeiro, como o absoluto e o eterno.
Espírito informe de uma fugitiva presença, luz incerta que se acende por dentro do que é iluminado, invisível realidade visível, é quando vem a mim o raro privilégio de assistir ao encontro desse espírito e do que o manifesta, é quando o visível e o verificável se encontram com o que se furta à verificação e visibilidade, é então que a verdade se incendeia de fulgor, o belo de beleza, o eterno de eternidade, o imortal da imortalidade, o ec-sistencial de ec-sistencialidade, o historial de historial-idade, o histórico da historic-idade.
O silêncio lentamente cala no peito, cobre-se no sudário da re-flexão e meditação, em serena displicência vou vivendo acostumado a ser mais-do-que imperfeito do indicativo, a ser-mais que perfeito do subjuntivo, carente, o peito a chorar de tristeza e falta, ausência, a alma a soluçar de carência e falta-{de}-ser, a carne a rogar a presença do verbo, ajoelhado aos pés da vida e dos desejos da ressurreição e redenção; o cotidiano compõe minha agonia, da vida se deduz o que se vai morrendo e anulo meu ser a cada dia, e a cada dia busco-lhe de outros modos, em estilos e linguagens outros, até de manhãs diferentes em que trilho os mesmos caminhos vou tecendo outras ilusões de arrebiques, contudo os olhares e sentimentos se dirigem a outros panoramas e vou acreditando que ele é o que me fora dado desde a eternidade, desde o nascimento no per-curso da minha jornada sem limite e fronteiras em busca de mim, na querência de outras luzes e incidência delas na imagem dos louvores e conquistas reais, verdadeiras, a verdade sob a luz do DIVINO e do ESPÍRITO.


Do divino e espírito,
Tecendo ilusões de arrebiques,
Bordando ornamentos de fantasias,
Em estilos e linguagens outros,
O imperfeito se veste de perfeito,
Sentimentos se dirigem a outros panoramas,
As retinas fotografam a forma e o conteúdo
Da realidade,
Visão e sonhos do belo e beleza
Transformam isso em estesias
Do sonho.


(**RIO DE JANEIRO**, 12 DE MARÇO DE 2017)


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