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quarta-feira, 15 de março de 2017

**AS BULHUFAS DE MACHADO DE ASSIS" - CRÔNICA: Manoel Ferreira Neto


Há coisas que nos fazem rir sempre delas nos lembramos, e o riso é ainda mais aberto, mais escrachado.
Lembrar-me de um acontecimento na vida do mestre Machado de Assis é sempre motivo de riso. Sobrinho da mulher dele deixou uma gramática na mesa da sala da casa de Machado. Ele não podia ver livros que comia com farinha, devorador de livros. Leu a gramática de fio a pavio. Foi trabalhar. Amigo de seu o encontrou na rua rindo, rindo, rindo, rindo. Presenciar risada de Machado era a coisa mais difícil. Sempre muito sério. Engraçado isto: o mestre da galhofa, do jocoso, da sátira, da crônica, fazendo tantos rirem, ter feito tantos rirem, e ele mesmo não ria com facilidade. O amigo perguntou-lhe o motivo do riso: "Meu sobrinho deixou uma gramática lá em casa. Li o livro inteiro. Não entendi bulhufas". O amigo caiu duro e fedendo. "Você faz a gramática brasileira e não entende a gramática".
Aquilo de dizerem quem tentar imitar Machado cai num ridículo daqueles; depois do ridículo, é jogar a pena no terreno baldio e nunca mais aparecer em cena. Verdade, não se lhe imita, até o plágio fica vergonhoso.
Assimilar o espírito machadiano, algumas de suas caraterísticas, sabendo-as trans-literalizar, enfiar o próprio espírito neles, não se lhe imita, plageia, escreve-se com excelência. Só tem um pequeno pormenor: é preciso que dons e talentos habitem quem escreve se inspirando nele, fazer as pessoas rirem de chorar, molhar as calças não é coisa fácil mesmo. E um segredinho de alcova: nunca pensar que lhe ombreia, supera, transcende, isto é cúmulo do orgulho e da vaidade. Se me perguntassem; "Qual é o cúmulo do orgulho e da vaidade". Responderia sem pestanejar: "O escritor achar que supera Machado de Assis, inspirando nele, mesmo que não usando as suas digressões".
Não me canso de tecer as minhas sensíveis considerações ao meu grande mestre. Não me lembra mais em que texto inspirei para escrever a minha primeira sátira TABERNÁCULO DE IMBECIS. Queria a todo custo fazer o leitor cair na gargalha. Saiu um texto tosco. Fiquei com vergonha de mim próprio. Disse-me com aquele sentimento de ridículo, de imbecil, de idiota: "Em mim, em minhas veias corre o riso, por que não continuar tentando?" O texto que fizera alguns amigos rirem bastante foi ORADOR DE SOBREMESA. Até hoje faz, acredito que continuará fazendo. Nele está o espírito de Machado enfiado no meu. Quem lê as minhas sátiras riem, riem, riem. E nunca ouvi de ninguém minhas sátiras são ridículas.
Não existe aquilo de estar na hora certa no lugar certo? A hora certa de conhecer Machado foi na infância, o lugar certo foi a sua obra. E lá se vão romances, sátiras, a erudição da linguagem e estilo. Agora lá vou eu trilhando pelas crônicas, bem no início, preciso de tempo para as perspicácias da linguagem.
É de rir, não é? Assimilar tanto o espírito de um escritor até trilhar os seus gêneros, conservando as próprias características, linguagem e estilo particulares. Quando me dizem ser eu grande escritor, não subo nas tamancas. Penso comigo mesmo: "Se sou mesmo grande, quem me ajudou a fazer essa grandeza foi Machado de Assis, o grande desejo da eternidade".
A emoção transbordou. Melhor parar por aqui.


(**RIO DE JANEIRO**, 16 DE MARÇO DE 2017)


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