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domingo, 2 de julho de 2017

#ATEISMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - Manoel Ferreira Neto: Ensaio Filosófico


Há algumas semanas que a-nunciamos o desejo de revisitar a minha TESE /**ESPÍRITO SUBTERRÂNEO - ENSAIO EM DOSTOIÉVSKI/Koinonia: Desejo e busca da consciência-estética-ética na obra de Fyodor Mikhailovitch Dostoïévski".
Neste ensaio, está um capítulo intitulado ATEÍSMO, DOGMATISMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISIMO", sobre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Nietzsche na Modernidade é considerado o grande re-presentante do Aforismo, suas obras são aforísticas.
Assumimos a nossa trajectória aforística, que preenche solenemente o desejo, a utopia da síntese da Literatura, Filosofia e Poesia. Então, revisitando este capítulo da tese, intencionamos análise e interpretação de alguns Aforismos da obra nietzscheana, proporcionando assim uma visão do que é isto - Aforismo. Apresentaremos este Ensaio em Capítulos.


ATEISMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO


Capítulo I


FInal do século XIX: o filósofo alemão Nietzsche anunciou às quatro estações do século a morte de Deus, “Deus está morto”. O mundo teria entrado num processo de ateísmo irreversível e nada poderia deter? O homem seria o único quem responderia por sua vida, morte, atitudes e responsabilidades? Seria o “homem-Deus”? Seria projeto tentador – quem conseguisse tal proeza, poder-se-ia sentir o “mais” realizado de todos.
Contudo, há caminhos a serem per-seguidos no sentido de nos tornarmos homens, seres humanos, conscientes de nossa vida, cientes de nossas responsabilidades, compromissos, missões no mundo. Nietzsche, ao longo de toda a sua trajetória de filólogo a filósofo, de filosófo, propõe-nos uma consciência de quem somos no mundo, nossa caminhada no mundo em busca de realização. Sugere-nos Nietzsche a “vontade de poder” como projeto e trajetória, objetivo, como passos a serem dados na vida, no mundo.
Baudelaire observou que, numa cultura cristã, é inconcebível e blasfematório que Deus seja representado rindo. Uma teologia cristã certamente não pode fazer da Criação os jogos e brincadeiras de uma criança. Os comentaristas tentaram encontrar o simbolismo dessas representações, segundo Gilles Deleuze: “A dança afirma o devir e o ser do devir; o rir, a risada afirmam o múltiplo e o uno do múltiplo; o fogo afirma o acaso e a necessidade do acaso”.
Nietzsche conhecia de perto o cristianismo. Neste sentido, os dados biográficos são inquestionáveis, vindo de uma família de luteranos praticantes. Recebeu a formação educacional e teológica necessárias para prosseguir na jornada de pastor. Estudou os evangelhos, revirou-os, observou aspectos linguísticos, literários, normativos e estruturais. Preocupou-se com a forma e o conteúdo da Bíblia. A obra nietzschiana se situa em oposição frontal ao cristianismo. E quando algo existe em contraste ao outro, é porque relevância deste outro é vital.
Zaratustra, quando substitui a Criança bíblica pelo “céu da contingência, o céu da inocência, o céu do acaso, o céu do capricho”, mistura a dança e o jogo.


Ó céu sobre minha cabeça, céu puro, céu alto! A pureza aos meus olhos é que não há mais eternas aranhas, eternas teias-de-aranha da razão .


Gazin, Recordações da casa dos mortos, cujo aspecto dava a Dostoiévski a impressão “de uma enorme, gigantesca, aranha do tamanho de um homem” (a aranha é uma imagem freqüente em Dostoievski como símbolo do mal absoluto) pertence à espécie de gente que fascinava o escritor por seu horror.
Quando “todas as coisas” preferem dançar com os pés do acaso, é que se trata exatamente de uma cosmologia, em constraste com a vontade do Criador bíblico, racionalizado pela teologia e pela metafísica. Nietzsche, com efeito, observou isso ao comentar o famoso fragmento de Heráclito sobre “isto não é um orgulho culpável, é o instinto de jogo incessantemente despertado que apela para o dia dos mundos novos”.


Pois o riso reúne em si toda a maldade do mundo, mas santificada e libertada por sua própria felicidade e se o alfa e o ômega de minha sabedoria é que tudo que pesa deve tornar-se mais leve, todo corpo tornar-se dançarino, todo espírito tornar-se dançarino, todo espírito tornar-se ave – está efetivamente aqui o alfa e o ômega de minha sabedoria .


Nietzsche faz alusões à lenda do pássaro alcião que faz seu ninho nas profundezas das ondas e amaina as tempestades. Alciônica é a sabedoria que supera a infelicidade trágica sem desconhecê-la nem negá-la. O deus terrível, o deus cruel, o deus destruidor é também o deus risonho, o deus que ri com um riso “sobre-humano e novo”.
A famosa fórmula “Deus está morto” à qual se reduz, discrimina, negligencia, subestima, nega com muita freqüência o pensamento de Nietzsche sobre a religião não pretende abolir todo o sentido do divino, ela não anuncia a inconsistência de toda crença, mas anuncia a possibilidade, além do deus cristão, de um retorno de Dioniso.
Nietzsche proclama de forma muito natural, bem lúcida, transparente e consciente que todos os valores até então pré-estabelecidos pela moral cristã devem ser mesmo extirpados, eliminados vez por todas, de modo que possamos abrir novos rumos aos novos valores. A percepção de Nietzsche é sua capacidade de verificar uma mudança no processo de desvalorização dos valores no qual se apoderou a moral cristã. Nietzsche nos fornece a primeira idéia de seu projeto de transvaloração contra, especificamente, o cristianismo. “O cristianismo é entendido por Nietzsche como um substrato ético-religioso das mais importantes estimativas de valor do homem moderno” (Giacóia, 1997, p. 19), valores que representam a mais pura expressão da decadência do homem.
O projeto nietzschiano de transvaloração de todos os valores tem por objetivo fundamental operar agora no âmbito de tais valores estabelecidos pela Igreja cristã em dois milênios de história, ou seja, Nietzsche nos informa que os valores foram transvalorizados por completo e se esteabeleceram ao longo dos tempos e que agora esses mesmos valores deve ser também transvalorados, sob a forma de uma “vontade de poder”.
Para compreendermos melhor o significado desse termo atribuído por Nietzsche em sua filosofia, recorremos aos ensinamentos do célebre pensador Martin Heidegger: “Vontade de poder é, em suma, o nome para o caráter fundamental do ente e para a essência do poder. (...) essa expressão denomina aquilo de que parte toda instauração de valores e ao que todas elas retomam. (...) a vontade de poder enquanto o princípio de nova instauração de valores não tolera nenhuma outra meta estabelecida fora do ente da totalidade. No entanto, uma vez que todo ente enquanto vontade de poder, isto é, enquanto o superpotencializar-se que nunca se extingue, precisa ser um constante “devir”, esse “devir” jamais pode se movimentar progressivamente para uma “meta” fora de si mesmo, mas encerrado no círculo de elevação de poder, precisa retornar a essa elevação. (...) o caráter fundamental do ente enquanto vontade de pode determina-se, com isso, ao mesmo o eterno retorno do mesmo que diz como o ente dotado de tal essência na totalidade precisa ser” (HEIDEGGER, 2007, P. 25-26)


(**RIO DE JANEIRO**, 02 DE JULHO DE 2017)


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