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sábado, 22 de julho de 2017

ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: ESCULTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO XII..............................


No mundo contemporâneo, Martin Heidegger irá tentar, através de sua “hermenêutica etimológica”, colocar em evidência alguns dos “sinais” e convidar-nos-á a interrogar a significação “original” ou fundamental da palavra Logos.


Com efeito, esse substantivo grego – “logos” – está associado ao verbo “legein”. O que quer dizer, originalmente, “legein”?
Antes de toda significação que se refira à ordem da linguagem, existe em “legein” um sentido primeiro que se encontra no termo latino “legere” e no termo alemão “lesen”: a idéia de colher ou coletar. Segundo Heidegger, esse primeiro sentido de logos será, portanto, a “colheita” (die Lese): coletar, colher, para colocar a salvo.


Heidegger mostrará que o ato de coletar comporta três idéias: levantar do solo (aufhbewharen), mas é o “colocar a salvo” que predetermina os atos do “colher” e do “reunir”, e que constitui sua característica fundamental. É por essa característica que o ato de colher é algo diferente da ação de levar tudo sem deixar nada, e que o ato de reunir é algo diferente de amontoar.


João Batista vive da luz para a qual está voltado. Forma uma só coisa com ela, do mesmo modo que o Logos forma uma só coisa com Deus, e, nesse movimento de “adesão” ou aderência, ele leva os outros a crerem, a participarem nisso com ele.


O Prólogo de João, versículo 8, “Ele não é luz,/ mas a testemunha da luz”, adverte-nos contra o perigo que consiste em tomar, algumas vezes, o reflexo pela luz, a tomar o Precursor pelo Messias.


No nível da experiência interior, podemos também tomar o reflexo pela luz. Podemo-nos iludir, enganar-nos, e tomar os sinais precursores da realização pela própria realização: certa sabedoria, certa calma e tranqüilidade, certa clareza de espírito ainda não são a luz.


Não é a intuição do nada, mas antes a imaginação de alguma coisa (ou seja, a negação do existente através de uma “outra” coisa) que é o elemento indispensável ao exercício da liberdade.


Quando o imaginário não é traduzido em realidade, a superação e a anulação do existente são impedidas pelo próprio existente, o homem é esmagado pelo mundo, oprimido pelo real e está mais próximo da coisa .


A imaginação é, portanto, a preciosa e essencial prerrogativa da consciência humana para transcender esse mundo com o qual está, no entanto, ligada, com isso mesmo afirmando a sua liberdade, é a capacidade de negar o ser na perspectiva de um novo ser que ainda não é, mas que pode ser, é a faculdade de distanciamento de uma determinada situação em nome ou em vista de nova situação.


É difícil negar ou negligenciar o fascínio da teoria sartreana do imaginário, que em alguns aspectos se parece sugestivamente aproximar de algumas teses do pensamento utópico-negativo (a liberdade como negação do que existe, a construção do novo como elaboração utópica de um não-ser, a razão como relação positiva com o real à qual se contrapõe a imaginação como superação e rejeição desse real), mas que revela um pensamento utópico-cristão, segundo Dr. Paulo César Lopes:


A fé está profundamente relacionada com a liberdade; quando falamos em adesão de fé, isso logicamente implica liberdade .


Importa sentirmo-nos incessantemente em gênese, em via de criação; não somos feitos uma vez por todas; o Logos está, incessantemente, em ação para manter-nos fora do nada.


De fato, e ao contrário do que haviam afirmado inúmeras teorias estéticas, o belo não se encontra já nas componentes concretas e visíveis da obra de arte nem no prazer psíquico e físico que dela possamos retirar, mas sim no fato de se dar como essência ou estrutura “irreal”, captada num mundo imaginário em relação ao qual o sujeito fruidor se coloca de um modo bem determinado (contemplativo, desinteressado, etc.) e que não é redutível a outros modos de consciência.


João Batista não é a luz. Ele transporta a luz. Sua presença é pura capacidade do outro, com Maria – por sua humildade, virgindade interior, vacuidade -, ele faz-se “capax Dei” = capaz de Deus.


Quando Nietzsche anuncia a morte de Deus, fala do Deus que tem de morrer mesmo, porque é o Deus das nossas cabeças, interesses, de nossas fantasias e quimeras, o Deus inventado, o Deus da metafísica, o Deus que não é vivo.


A linguagem não diz de modo positivo se Deus é e quem é. Contudo, pode dizer o que não é Deus. Deus não é o mais alto “Sendo”, o último elo da cadeia dos seres. Este Deus, assimilado à causa suprema, é homogêneo aos “sendos” que produz.


A teologia ocidental, defendendo a causa do Deus-Causa, contribuiu para o advento do Deus dos filósofos. O Absoluto dominador e criador apagou os traços do Ser, o qual não se pensa em termos de eficiência, mas de presença e de gratuidade. Libertar-se da imagem do Deus da filosofia para se aproximar do Deus verdadeiro, interrogando o Ser, tal é a função do pensamento e talvez também a da teologia.


(**RIO DE JANEIRO**, 21 DE JULHO DE 2017)


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