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sábado, 15 de julho de 2017

#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO



DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO VIII.....................

Para começar a vislumbrar o significado do anúncio da morte de Deus, é preciso verificar como a crítica de Feuerbach à teologia permanecia presa às ilusões do objeto criticado. A originalidade e a dimensão do ateísmo de Nietzsche são dados sobretudo por sua distância em face do “ateísmo” da filosofia alemã, essa “teologia insidiosa”.

Para o projeto de Feuerbach, não é suficiente retraçar o caminho da alienação, refazer a gênese das propriedades divinas a partir do finito. O projeto exige que se desvele o verdadeiro sentido que tinha a infnidade de Deus. Por isso, para esse projeto não basta destronar Deus enquanto personagem de conto de fadas. É preciso determinar, ainda, em que sentido devemos interpretar seus atributos, isto é, sua “toda suficiência”, sua “toda potência”, sua “toda bondade”.
Questão que Feuerbach não deixava sem resposta:

Ele é o infinito no sentido de que o gênero é infinito, não está limitado a um lugar, um tempo, um individuo, uma espécie... ele está acima dos homens no mesmo sentido de que a cor está acima das cores, a humanidade acima dos homens... ele é o ser perfeito no sentido de que o gênero o é em relação aos indivíduos...

Assim, estabelece-se a envergadura da trama toda: uma coisa é provar que o conteúdo do divino tinha a sua verdade apenas no finito; outra coisa é penetrar em sua significação e compreender qual é a verdadeira infinidade, a verdadeira ilimitação. Só então se pode começar a vislumbrar o significado da “desmistificação” feuerbachiana, assim como o sentido de seu “ateísmo”: o cristão e seu “crítico” compartilham do mesmo ideal e, ao invés de subversão do cristianismo, na verdade há ali apenas um deslocamento, que o infinito teológico só mudou de lugar, descendo do céu para a terra.

O mistério da plenitude inesgotável das determinações divinas não é, portanto, nunca diferente do mistério da essência humana, enquanto ela é infnitamente variada, infinitamente determinável, mas também, precisamente por essa razão, enquanto ser sensível. É somente na sensibilidade, no espaço e no tempo, que tem seu lugar um ser infinito, realmente infinito, rico em determinações .

Qual a dimensão do ateísmo de Nietzsche em face daquele da filosofia clássica alemã e o quanto essa filosofia pouco percebera sobre o verdadeiro significado da morte de Deus? Se este é o maior dos acontecimentos recentes, resta que ele
[...] é grande demais, distante demais, demasiado à parte da capacidade de apreensão de muitos, para que sequer sua notícia pudesse já chamar-se chegada: sem falar que muitos já soubessem o que propriamente se deu com isso – e tudo quanto, depois de solapada essa crença, tem agora de cair, porque estava edificado sobre ela, apoiado a ela, arraigado nela; por exempo, toda a nossa moral européia .
Se a dimensão do acontecimento ainda não foi apreendida pelos europeus, é porque eles não se deram conta de que, com a morte de Deus, todos os valores e ideais de sua civilização perderam sua sustentação.
Embora o Estado tenha uma função a desempenhar no desenvolvimento da cultura – ser o utensílio para moldar a sociedade sem a qual uma verdadeira cultura é um impossível – o Estado é apenas um meio para a cultura e não o fim.

O Estado, que está interessado na formação de cidades obedientes, tem tendência para entravar o desenvolvimento da cultura livre e esta se torna estática e estereotipada. Em Humano, demasiado humano, Nietzsche faz, a respeito da cidade grega, um juízo mais severo do que havia feito no ensaio sobre o Estado Grego. Nesta última obra, havia ele comparado a atitude da cidade grega perante a cultura com a do Estado Alemão, com grande vantagem para a primeira; mas em Humano, demasiado humano declara que;
A polis grega era excludente, como todo poder político organizador, e desconfiava do crescimento da cultura entre seus cidadãos; em relação a esta, seu poderoso instinto básico se mostrou quase que estritamente paralisante e inibidor. Não queria admitir história ou devir na cultura; a educação fixada na lei do Estado deveria ser imposta a todas as gerações e mantê-las num só nível. Mais tarde, Platão quis a mesma coisa para o seu Estado ideal. Portanto, a cultura se desenvolveu apesar da polis: é certo que ela ajudou indiretamente e contra a vontade, porque a ambição do indivíduo era estimulada ao máximo na polis, de maneira que, tendo tomado a via da formação do espírito, ele continua nela até o fim .

Neste ensaio sobre o Estado grego, Nietzsche afirma que

[...] contra o desvio da tendência-Estado para a tendência-dinheiro... o único remédio é a guerra e ainda outra vez a guerra, em cujas emoções uma coisa, pelo menos, se torna óbvia, isto é que o Estado não estava fundado sobre o medo do demônio da guerra como uma instituição protectora de indivíduos egoístas, mas que, no amor à prática e ao príncipe, esse medo provoca um impulso ético, que é sinal dum destino muito mais elevado .

Este pensamento da primitiva fase de Nietzsche havia de ser desenvolvido mais tarde com a concepção do Super-homem, que é o alvo e o mais elevado ponto de cultura, e para cuja realização os outros homens têm de desempenhar a sua verdadeira função. No Zaratustra, a revelação do Super-homem, Nietzsche encontra a vontade forte de domínio na alma negra como explicação do gênio helênico.

Na segunda parte, Assim falava Zaratustra, Dos virtuosos, lê-se:

Surjam à luz todos os segredos do vosso interior, e quando os virdes expostos ao sol, rasgados e dilacerados, então ficará a vossa mentira também isolada da vossa verdade .

Não é a única passagem em que Nietzsche atribuiu uma posição benéfica à religião. Em Para além do bem e do mal, diz Nietzsche que

O Ascetismo e o Puritanismo são meios quase indispensáveis para educar e nobilitar uma raça que procura elevar-se acima do seu baixo estado hereditário e trabalha para conseguir uma supremacia no futuro .

Ainda em Genealogia da moral, assim nos diz Nietzsche:

[...] todo o respeito perante o Antigo Testamento! Nele encontro grandes homens, uma paisagem heróica e algo raríssimo sobre a terra, a incomparável ingenuidade do coração forte, mais ainda, encontro um povo. No Novo, porém, nada senão pequeninas manobras de seitas, nada senão rococó da alma, nada senão volutas, tortuosidades e bizarrias, mero ar de conventículo, não esquecendo ainda um ocasional sopro de doçura bucólica, próprio da época (e da província romana) e não tanto judeu quanto helenístico .

(**RIO DE JANEIRO**, 14 DE JULHO DE 2017)




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