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quarta-feira, 12 de julho de 2017

#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO VI...............


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO VI...............


Mister compreender que o problema da decadência também é o problema do cristianismo, um cristianismo que não começa com o Novo Testamento, mas que “preexiste”, no essencial, no socratismo e no platonismo, este mesmo cristianismo que, no outro extremo da história européia, além das Igrejas instituídas, se prolonga até os nossos dias entre os livres-pensadores, os democratas, os socialistas, entre os que recusam as Igrejas em nome dos valores do Evangelho, todos aqueles que desde o Conde de Saint-Simon (O novo cristianismo pós-1825) quiseram conciliar a fé em Deus e a fé no homem com o “progresso”, e inclusive, enfim, os agnósticos ou os ateus declarados. Assim se distingue o anticristianismo nietzschiano de todos os outros, e que os faz parecer na totalidade como pertencendo à mesma problemática que a do cristianismo, à mesma evolução, à mesma história da vontade de poder. E isto vale também para o pensamento do próprio Nietzsche, filho e neto de pastor luterano! A este respeito, a radicalidade crítica desse pensamento é impar e a tensão intelectual que ela supõe é prodigiosa; o que diz dela o autor em Ecce homo não depende, é óbvio, da megalomania, por pouco que sua obra seja tomada a sério.


Como conseqüência da morte de Deus, aparece o niilismo, pois tudo aquilo que era um referencial para o homem foi destruído, e isto gera sensação de vazio absoluto, de que nada tem sentido.


Contra o positivismo, que se limita ao fenômeno e afirma que “só há fatos”, devemos afirmar que “só existem interpretações”; não conhecemos nenhum fato em si, o mundo não tem nenhum sentido fundamental, mas muitíssimos sentidos - isso é o “perspectivismo” . E esperemos que doravante, com a morte de Deus, quer dizer, com o fim do “verdadeiro mundo”, o dogmático ceda seu lugar ao filósofo do futuro, e que hoje em dia não tenhamos mais


[...] a ridícula pretensão de decretar que nosso pequeno canto é o único de onde se tenha o direito de ter uma perspectiva. Muito pelo contrário, o mundo, para nós, voltou a ser infinito, no sentido de que não podemos recusar-lhe a possibilidade de prestar-se a uma infinidade de interpretações .


Isso também é o niilismo em suas conseqüências. A aclimatação dessa idéia de “interpretação” só é cabível em regime de niilismo, em clima de fim de festa para a noção clássica ou dogmática da “verdade”.


Em segunda instância, queremos aduzir uma proposta nova, sugerida por Nietzsche, que venha equilibrar o homem outrora desestruturado em suas bases frente a esse quadro chocante.


Com a idéia de eterno retorno, onde o mundo não terá nem início nem fim no espaço, onde as coisas estarão num constante vir a ser, Nietzsche acredita superar o niilismo. Agora sim, o homem se encontra pronto para o renascer de uma nova aurora, para acatar proposta nova que não se resume na supressão de si, mas na superação deste homem que ficou. No lugar deste antigo homem, o homem novo, o além do homem que, impregnado de amor pela vida, busca atingir uma verdadeira ou mais elevada vontade de potência, conceito este que se tornara um dos mais importantes da filosofia nietzscheana, onde não só os fortes o aspiram, mas também é desejado pelos fracos.


Será essencial jamais perder de vista que, para Nietzsche, a doutrina do retorno se constitui por oposição às hipóteses teístas. Porque é exatamente essa oposição que vai definir o estilo argumentativo que Nietzsche utilizará para estabelecer sua doutrina. Os argumentos que “demonstram” o eterno retorno serão essencialmente negativos: o filósofo considerará uma tese legitimada porque a tese contrária implicaria alguma hipótese teológica.


Nesta investigação, procuraremos expor o pensamento de Nietzsche de uma forma bela e, ao mesmo tempo, promíscua, com que ele se nos apresenta, fazendo valer que ao estudar o pensamento de um filósofo, é de capital importância não conspurcar, muito menos afrontá-lo; por isso, o mesmo é uma crítica da posição de Nietzsche, que ousaremos concluir como crítica quase adversa. Sua doutrina aponta meios, nem sempre suficientes para safarmos dos obstáculos da vida. No entanto, prezamos com bastante respeito e simpatia o ilustre filósofo e homem que foi Friedrich Nietzsche e consideramos seu pensamento um desafio lançado à humanidade e, principalmente, ao cristão de hoje.


A dimensão-Cristo se realiza sempre que se vive o amor-doação, se instaura a justiça, triunfa a verdade e se estabelece comunhão com Deus, em qualquer âmbito do tempo e do espaço. Jesus de Nazaré foi aquela pessoa histórica que viveu com tal radicalidade a dimensão-Cristo, a ponto de se identificar com ela. Ela tornou-se seu nome próprio. Por isso, professamos que Jesus de Nazaré é o Cristo. Em o Anti-Cristo de Nietzsche, em nenhum momento há qualquer alusão a Cristo, a sua crítica esteja endereçada a Ele.


O que dizer no tangente à tese da finitude das forças que se desdobram no vir-a-ser?


Outrora, diz Nietzsche, se pensava que a atividade infinita no tempo requer uma força infinita, que nenhum consumo esgotaria. Agora pensa-se a força constantemente igual, e ela não precisa mais tornar-se infinitamente grande .


Por que houve essa mudança de perspectiva? Porque agora prevalece o espírito científico sobre o espírito religioso, fabulador de deuses. É o espírito científico que leva a conceber o mundo como uma força que não pode ser ilimitada. Era o deus cristão que os homens concebiam como uma força infinita. Hoje, em regime de morte de deus, o espírito religioso quer ainda que o mundo, mesmo sem deus, herde seus atributos arcaicos e seja apto à divina força criadora, à infinita força de transmutação.


É sempre ainda a velha maneira religiosa de pensar e desejar, uma espécie de aspiração a acreditar que, em alguma coisa, o mundo é igual ao velho, querido, infinito deus ilimitadamente criador – que em alguma coisa ´o velho deus vive ainda´-, aquela aspiração de Espinosa, que se exprime na palavra ´deus sive natura” (ele chegava mesmo a sentir: ´natura sive deus´) .


(**RIO DE JANEIRO**, 12 DE JULHO DE 2017)


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