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segunda-feira, 10 de julho de 2017

#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO IV.........


Colocamos o nosso corpo em estado doentio e atribuímos tal aparato aos próprios erros cometidos e, quando superamos esta enfermidade, apontamos Deus como força interventora que agiu de maneira a libertar-nos, perdoar-nos. Então, o homem se redime diante desta potência estranha e passa a viver não por si, mas em conformidade com ela. A humanidade viveu, até então, de práticas puramente psicológicas e religiosas, todavia “não se cura um doente com preces e conjurações de maus espíritos” , eles não inspiram confiança alguma.
Não se curar um doente com preces e conjurações de maus espíritos é ironia sem precedentes – e Nietzsche, quando queria, sabia ser irônico -, mas procurar servir-se da doença, como de mais um meio para agarrar a vida, aí é sarcasmo dos mais geniais possíveis. É de se conservar sério, caindo na gargalhada.


Se é normal a condição doentia do homem – e não há como contestar essa normalidade -, tanto mais deveriam ser reverenciados os casos raros de pujança da alma e do corpo, os acasos felizes do homem, tanto mais deveriam ser os bem logrados protegidos do ar ruim, do ar de doentes. Isso é feito?... Os doentes são o maior perigo para os sãos; não é dos mais fortes que vem o infortúnio dos fortes, e sim dos mais fracos .


A inveja, por exemplo... Ninguém irá sentir inveja de alguém vencido, fracassado, frustrado, traumatizado, inútil; sente do vencedor, do realizado, do consciente e lúcido, do útil. O invejoso não sente inveja do invejoso, eles são absolutamente iguais? Cremos só haver um modo de um vencido, fracassado, traumatizado, inútil, sentir inveja de outro nas mesmas circunstâncias: quando o fracasso de um for mais pujante, total. O próprio Nietzsche diz que não se deve desejar filhos para um invejoso. Ele sempre terá inveja do filho por não mais poder ser criança. Seguindo esta linha de raciocínio, a criança também terá inveja, fruto da influência advinda da convivência, do pai por não poder ser adulto, e adulto, terá inveja do pai por ele ser velho, e velho terá ainda inveja dele por já haver morrido. Seria o caso de o invejoso correr? De qualquer forma, os que lhe desejam estarão atrás dele, pois que corre à frente, assim são os “animais de rebanho”.
Nessa expressão “animal de rebanho” Nietzsche visa atacar o igualitarismo, o elogio à supressão das particularidades e à perfeita absorção do indivíduo naquele “ser genérico” que povoa o imaginário socialista.
O enfraquecimento e a supressão do individuo está entre as últimas “ressonâncias” do cristianismo na moral. Esta “correnteza moral básica” de nossa época é expressamente censurada por Nietzsche. Exigir que o Ego se renegue? Desde as Considerações extemporâneas, ele protestava contra o culto democrático da espécie. E pior que o culto da espécie, a ladainha secular contra o egoísmo, em benefício dos instintos gregários do homem, terminou por fazer mal a esse sentimento, principalmente por tê-lo despojado de sua boa consciência, ordenando-lhe que buscasse, em si mesmo, a verdadeira fonte de todos os valores. Para Nietzsche, o egoísmo é parte integrante da alma aristocrática, que o aceita sem problemas e acha natural precisar que outros lhe sejam submetidos e se sacrifiquem por ela.
Tais práticas simplesmente modificavam os sintomas, pois se considerava restabelecido aquele que admitia a cruz de Cristo e propunha ser bom a partir daquele momento, arrependendo-se das faltas passadas.
O que mais o cristianismo ensinou à modernidade? Nada mais, nada menos que a ´igualdade das almas´ ante Deus. Nela, encontramos o protótipo de todas as teorias da ´igualdade de direitos´; primeiro se ensinou à humanidade o princípio de igualdade de uma maneira religiosa, depois se construiu uma moral sobre essa idéia. Desde então, não é surpreendente se, sob a influência do cristianismo, as pessoas tenham terminado por levar a sério essa idéia, querendo torná-la efetiva através das vertentes do “pessimismo por indignação”.
Nietzsche sempre insistirá nessa tese: a idéia de igualdade entre os homens, não tenho fundamento natural algum, é apenas “interpretação” metafísica, que remonta ao cristianismo e tem neste a sua única garantia. Por isso, a “Declaração dos Direitos do Homem”, ao proclamar a liberdade e a igualdade, repousa inteiramente na idéia cristã de que todos os homens, sendo criaturas de Deus, nasceram iguais e não têm privilégios uns sobre os outros. É por esse caminho que a Revolução Francesa prolonga o cristianismo: agora a cidade de Deus sobre a terra torna-se contrato social, o cristianismo torna-se humanismo, a criatura de Deus torna-se homem natural, a liberdade devida a cada cristão torna-se liberdade cívica no Estado.
Nietzsche considerava o arrependimento como espécie de covardia para com o próprio ato, como que abandono de si mesmo. Jamais conseguiremos anular uma ação cometida; cometida, cometida está; mesmo que seja perdoado, jamais se desvanecerá. Não há potência que desfaça a culpa, aliás, não existe culpa. As ações não são distintas umas das outras, possuem o mesmo valor.
Precipitam-nos, às vezes, perturbações intelectuais, tidas como espécie de hipnotização; todavia, é preciso combatê-las, pois dizia Nietzsche:


[...] um simples ato, seja ele qual for, colocado em paralelo com tudo o que se tem feito, é igual a zero, e pode ser deduzido sem que a conta geral esteja errada .


Todas as nossas ações são acompanhadas de conseqüências boas ou más que a sociedade, fazendo um juízo, determina-as como certas ou erradas atribuindo uma série de perturbações cerebrais, causando esse complexo de culpa.


O advento do Deus cristão, o deus máximo até agora alcançado, trouxe também ao mundo o máximo de sentimento de culpa. Supondo que tenhamos embarcado na direção contrária, com uma certa probabilidade se poderia deduzir, considerando o irresistível declínio da fé no Deus cristão, que já agora se verifica um considerável declínio da consciência de culpa no homem; não devemos inclusive rejeitar a perspectiva de que a vitória total e definitiva do ateísmo possa livrar a humanidade desse sentimento de estar em dívida com seu começo, sua causa prima [causa primeira] .


A Igreja acredita que o mau ato praticado pode ser resgatado e o perdão pode anular a pena. Todavia, isso não passa de mera superstição, pois o que já foi feito é irrevogável, já está feito.


Uma ação extrai suas conseqüências do homem e fora do homem, pouco importa que passe por punida, expiada, perdoada, anulada, ou ainda que a Igreja tenha promovido o culpado a santo .
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A partir desse preceito, Nietzsche afirma que a Igreja se encontrou mergulhada numa ilusão; fixa em coisas inexistentes, em sinais exteriores, divindades eternas, efeitos improduzíveis, que, na realidade, não passam de idéias fictícias que nos conduzem ao erro.
Coloca o cristianismo como uma das principais fontes que levam o homem a renunciar sua condição de senhor, tornando-se enfraquecido, inofensivo, abatido na humanidade, digno de dó, pena, comiseração. Este cristianismo eleva o sacerdote à classe mais digna entre os homens, um Deus humanizado, este ser que detém o conhecimento do verdadeiro, o escolhido para guiar o rebanho de homens.


O sacerdote ascético é a encarnação do desejo de ser outro, de ser-estar em outro lugar, é o mais alto grau desse desejo, sua verdadeira febre e paixão: mais precisamente o poder do seu desejo é o grilhão que o prende aqui; precisamente por isso ele se torna o instrumento que deve trabalhar para a criação de condições mais propícias para o ser-aqui e o ser-homem – precisamente com este poder ele mantém apegado à vida todo o rebanho de malogrados, desgraçados, frustrados, deformados, sofredores de toda espécie, ao colocar-se instintivamente à sua frente como pastor.


(**RIO DE JANEIRO**, 09 DE JULHO DE 2017)


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