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terça-feira, 11 de julho de 2017

#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO V............


Devemos considerar também que Nietzsche diz que o Cristianismo veio ao encontro das necessidades e do nível de inteligência das massas religiosas do Império que acreditavam em Íris, Mitras e Dionísio, ao encontro da “grande mãe”, e ao encontro de todos aqueles que reclamavam uma religião que lhes pudesse alimentar esperanças numa vida futura, religião de sacrifício e mistério, lendas sagradas e redenção, ascetismo e “purificações”, e de hierarquia.
Partindo deste mesmo homem, deparamo-nos com a ilustre santa mentira, que é esta força criadora de um Deus que escolhe os sacerdotes, delegando plenos poderes aqui na terra. Esta força também conheceu um além da vida, uma vida eterna, tendo a alma como algo imortal; a consciência do bem e do mal, atribuindo ao sacerdote como sendo uma espécie de sacrário de Deus, onde Deus fala por meio dele; e, por fim, a moral, como uma força transformadora e, ao mesmo tempo, manipuladora da razão. Também temos, em última instância, as promessas de salvação e felicidade consideradas como verdades estabelecidas.


Nietzsche observa e chega à conclusão de que toda essa reforma moral tem um preço muito caro para a humanidade. Na verdade, leva o homem ao desmoronamento de si, pois não há mais aspiração ao progresso; o homem já é determinado, atingindo sua mais drástica mutilação.


Com esta crítica, pretende ir além e descobrir a origem desses valores para que possa criticá-los em suas bases. Sendo assim, afirma a morte de Deus, aliás, protagonizada pela própria sociedade que, aos poucos, foi se libertando das garras daquele sobrenatural fruto de sua própria intenção.


Num aforismo sobremodo conhecido, Nietzsche conta o estranho apólogo de um “louco” que vai gritar no mercado, trazendo uma lanterna acesa em pleno meio-dia: “Procuro Deus, procuro Deus”. Quem é este “louco” (toll) que repete o gesto bem conhecido do filósofo cínico Diógenes, que procura “um homem”, também ele com uma lanterna acesa? Com efeito, não é um “demente”, mas um extravagante (em todos os sentidos do termo) como era Diógenes, ou ainda “tolo”, como se dizia na Idade Média, um fraco de espírito, ou ainda a criança do conto de Andersen que ousava dizer o que todo mundo via, que o rei estava nu. De que país e de que tempo é este cínico? “Como estavam lá reunidos muitos daqueles que não acreditavam em Deus, ele soltou uma gargalhada”. Talvez se trate dos “libertinos”, dos livres-pensadores tão numerosos desde o século XVIII. Aliás, ficamos sabendo no fim do aforismo que este extravagante vai até às igrejas entoar um Réquiem aeternam deo. Não resta dúvida de que este novo Diógenes poderia ser contemporâneo de Nietzsche.


Para onde foi Deus? – grita ele. Já vou dizer-lhes! Nós o matamos – você e eu! Somos todos assassinos! Mas como fizemos isto? Como chegamos a beber o oceano até a última gota? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte inteiro? O que fizemos desatando a cadeia que ligava esta terra a seu Sol? Para onde vai ela agora? Para onde nos arrasta seu movimento? Longe de todos os sóis? Não somos precipitados sem fim? Para trás, de lado, para frente, em todas as direções? Existe ainda um em cima e um embaixo? Não somos errantes como num nada infinito? Não sentimos o sopro do vazio? Não se tornou ele mais frio? Não faz ele noite e sempre mais noite ainda? Não temos que acender lanternas já antes do meio-dia? Não ouvimos ainda nada do barulho dos coveiros que erram a Deus? Não sentimos nada ainda da decomposição divina? – os deuses também se decompõem! Deus está morto! Deus continua morto! .


Para Nietzsche, a sutileza do povo judeu é tomar partido pelos instintos de decadência, não se deixando dominar por ele, mas utilizando-os como instrumentos contra o mundo.
O que o povo hebreu promove é a desnaturalização dos valores naturais. Seu Deus da Justiça é um Deus sob condições: ele é um instrumento nas mãos do sacerdote, que então interpreta toda fortuna como um prêmio, toda desventura como castigo por uma desobediência a Deus. Agora, sua moral já não é mais expressão das condições de vida e de crescimento de um povo, mas se torna contrária à vida.


Toda fortuna como prêmio, toda desventura como castigo... Nessas condições, o que é a moral judaica, o que é a moral cristã? É o acaso que perde a sua inocência; é a desventura travestida pelo pecado; é o bem-estar considerado como perigo, tentação; é o mal-estar fisiológico envenenado pelo remorso. Os sacedotes judeus foram os artífices dessas invenções; eles transferiram o passado de seu povo para o campo religioso, como incomparável desprezo pela realidade histórica.


Não há interpretação teológica alguma da morte de Deus que seja possível, mesmo por intermédio de uma dialética de tipo hegeliano. Este grito “Deus está morto” não pode fazer pensar nos deuses da Antiguidade capazes de voltar à vida de diversas maneiras, nem principalmente no Deus cristão que morre na cruz e ao qual não poderíamos, sem grave blasfêmia, admitir por hipótese um odor de decomposição.


Que angústia e que confusão do pensamento provoca o desaparecimento de um Deus que assegurava a ordem cósmica, que não era apenas o Deus dos sacerdotes, dos ritos e das superstições, mas também o Deus dos filósofos que conferia um sentido ao universo, à Terra e seu Sol, e às verdades eternas sua garantia divina.


Nietzsche partilha aqui a opinião, já comum entre os “filósofos” do século XVIII, de que as crenças religiosas persistem por muito tempo depois que os espíritos lúcidos retiraram todo seu fundamento. Schopenhauer havia julgado inevitável esta persistência, sem dúvida benéfica para a manutenção da paz social. Deveríamos então entender a morte de Deus como uma constatação histórica em substituição ao debate clássico sobre as provas da existência de Deus? Bastaria levar em conta o desaparecimento progressivo da fé naquilo que foi a cristantade, o recuo do poder da Igreja nos Estados europeus. Deus está morto porque o ateísmo doravante não tem mais necessidade de argumentos.
A questão da morte em Schopenhauer não é tão simples como o próprio Schopenhauer a apresenta, muitas vezes com o intuito de substituir a consolação religiosa pela consolação filosófica. Por um lado, o ser humano é o único ser vivo que se espanta com a sua própria existência, um animal sem dúvida, mas um animal metafísico. Por outro lado, a individualidade desempenha no ser humano um papel determinante, análogo ao da espécie no animal, e sobre este último ponto a doutrina de Schopenhauer permanece bastante incerta.


Com a razão, o questionamento do homem sobre a existência de todas as coisas e sobre a sua própria existência. Deste modo, a morte, por uma conexão necessária com a razão, veio a ser a inspiradora da religião e da filosofia, com a dupla possibilidade de cegueira e de lucidez que isto supõe. Com o conhecimento da morte, esta certeza apavorante que nenhum animal conhece, desenvolve-se um paradoxo, causa de muitas confusões.


Com efeito, não é da razão ou do conhecimento que pode provir o tremor da morte. Muito pelo contrário, uma tradição sapiencial mostra que, aos olhos do pensamento racional, esse temor não tem fundamento. O apego à vida não é de per si nem racional nem fruto de raciocínio: surge do mais profundo do nosso ser, animado por um querer cego. Noutras palavras, é a parte imortal do nosso ser que faz a morte temível; e é a parte mortal que, na verdade, não a teme.
Todas as convicções da Filosofia das Luzes encontram-se radicalmente recusadas. Os “sem deus” (Gottlose) não são menos crentes. Não há razão para dar lugar a uma fé ao lado da racionalidade científica como a de uma “religião natural” que o século XVIII havia tentado definir. Nenhum “deísmo” à maneira de Voltaire que, em sua recusa de toda revelação, quase só retém em sua religião a existência de um Deus criador e juiz, e duvidosamente a imortalidade da alma. Nenhum “teísmo” à maneira de Rousseau que continua a declarar-se cristão, afirma seu respeito pelo Evangelho quando concorda com a razão e a religião natural e gostaria de “unir a tolerância do filósofo com a caridade do cristão” .


Mas o anticristianismo de Nietzsche não admite nenhuma concessão, nenhuma conciliação, nenhuma “racionalização” dos dogmas. É a filosofia cristã como um todo, já denunciada por Schopenhauer, que é apenas fantasmagoria:


Nem a moral nem a religião, no cristianismo, têm algum ponto de contato com a realidade. Nada senão causas imaginárias (“Deus”, “alma”, “Eu”, “espírito”, “livre-arbitrio” – ou também “cativo”); nada senão efeitos imaginários (“pecado”, “salvação”, “graça”, “castigo”, “perdão dos pecados”). Um comércio entre seres imaginários (“Deus, “espíritos”, “almas”); uma ciência natural imaginária (antropocêntrica; total ausência do conceito de causas naturais), uma psicologia imaginária (apenas mal-entendidos sobre si, interpretações de sentimentos nas agradáveis ou desagradáveis – dos estados do nervus sympathicus, por exemplo – com ajuda da linguagem de sinais da idiossincrasia moral religiosa – “arrependimento”, “remorso”, “tentação do Demônio”, “presença de Deus”); uma teleologia imaginária (“o reino de Deus”, “o Juízo Final”, “ a vida eterna”). – Esse mundo de pura ficção diferencia-se do mundo sonhado, com enorme desvantagem sua, pelo fato de esse último refletir a realidade, enquanto falseia, desvaloriza e nega a realidade. Somente depois de inventado o conceito de “natureza”, em oposição a “Deus”, “natural” teve de ser igual a “reprovável” – todo esse mundo fictício tem raízes no ódio ao natural (- a realidade!-), é a expressão de um profundo mal-estar com o real... .


(**RIO DE JANEIRO**, 10 DE JULHO DE 2017)


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