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quarta-feira, 12 de julho de 2017

#AFORISMO 34/11 MANDAMENTO: "NÃO JOGAR PEDRAS NA CRUZ# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO SATÍRICO


EPIGRAFE:


"A previsão do futuro nos foge nos piores momentos" (Graça Fontis)


Perdoe-me, por favor, se não lhe retornei a cartinha que tão carinhosa e gentilmente me enviou, com uma divina e esplendorosa caligrafia, mas descobri, com muita dor, que joguei pedra na cruz.
As manhãs são noturnas, pura treva, sem qualquer luz, ainda que ao longe, em confins, não tendo condições de enxergar, as noites são manhãs de puros raios numinosos do sol, ofuscando-me por completo, nada posso ver, óculos escuros não me servem.


Estou lhe escrevendo por instinto mesmo, não enxergo coisa alguma, mas o hábito de manuscrever ajuda-me a não sair da linha, é o resultado de haver jogado pedra na cruz. Ontem amigo de muitas conversas alegres, confidências, cerveja gelada, delicioso tira-gosto, regados de papo tranquilo, mudou de calçada, quando me viu. Chamei, andou ligeiro. Creio que teve medo de as "indacas" serem transmissíveis. E, andando pelas ruas, só vi pessoas correndo, viam em plena luz do dia - não seriam trevas noturnas? - Mefistófeles em pele, carne e ossos.


Perdoe-me, por favor, se lhe faço esta pergunta tão inusitada, mas preciso de resposta: você não conhece alguém que possa achar esta pedra que joguei na cruz e consumir com ela? Só assim esta onda de "indacas" podem desaparecer de minha vida.
Estou até com medo de não festejar meu aniversário, faltam dez dias, com alguém, tomar um vinho "sangue de boi", estou com mixaria no bolso, comer um churrasquinho de palheta, e sim estar no paletó de madeira, e todos dizendo que as "indacas", por haver jogado pedra na cruz, foram tantas, resultando no passamento no exato dia de meu aniversário.


Você deve estar caindo na gargalhada, pensando e sentindo que sou terrível quando resolvo fazer graça, as graças são dignas de um picadeiro, esteja eu querendo tirar sarro de sua cara, mas é verdade, meu caro amigo: joguei pedra na cruz.
Encontro de amigos no domingo, fui comer uma costela assada, quebrei um dente; na segunda-feira, no almoço, fui comer um torresmo, quebrei outro dente. Depois deste almoço, fui abrir a garagem, iria ao dentista, a porta caiu. Agora, diga-me: "Isto é ou não é de quem jogou pedra na cruz?"
Fui tomar o banho, como faço todas as manhãs, cantando, assobiando, alegre e saltitante por ser mais um dia, deu curto circuito no chuveiro, fogaréu daqueles. Saí do banheiro completamente nu, correndo, fui parar na rua, exatamente no momento que passava uma radiopatrulha; detido por atentado ao pudor. Pode uma coisa dessa?


Você me pediu para retornar a sua cartinha, contando as novidades, o que tenho feito e não feito. E é isto mesmo que tenho a lhe dizer, descobri que joguei pedra na cruz, tudo quanto é "indaca" resolveu baixar no terreiro de minha vida.


Aquele abraço, meu caro amigo, esperando que, ao abrir o envelope, não leve um murro daqueles nas fuças.


(**RIO DE JANEIRO**, 12 DE JULHO DE 2017)


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