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sábado, 22 de julho de 2017

ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: ESCULTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO XIII.


Há uma representação de Deus ainda mais perigosa do que a do Sendo Absoluto: a do Deus-Valor. Esta idéia de um Absoluto, que desempenha, na ordem moral, o papel de uma Causa suprema, orientou toda a filosofia ocidental até Nietzsche, de tal modo era perfeita a nova aliança estabelecida entre o Bem platônico e o Deus cristão. Foi este ídolo, e não o verdadeiro Deus, que o autor da Vontade de poder atacou.


Não esqueçamos, demasiado depressa, a palavra de Nietzsche, do ano de 1886:


A refutação de Deus – na realidade só o Deus moral é refutado. Isto significa para o pensamento meditativo: o Deus que é pensado como valor – seja ele o maior – não é um Deus. Pois Deus não morreu. Porque a sua divindade vive. Ela está mesmo mais próxima do pensamento do que da fé, se, todavia, a divindade, no que é a sua essência, receber a sua origem da verdade do Ser e que o Ser, como começo que advém, ´é algo diferente do fundamento e da causa do sendo.


O pensamento de um Deus-Valor, transferindo para o Absoluto os caracteres do Eros humano, deforma o sentido do mistério, cujo “Valor” transcende o juízo apreciativo do indivíduo e representa, ao mesmo tempo, “a maior blasfêmia que se pode pensar contra o Ser”, conforme Heidegger, e “o golpe mais duro contra Deus” .
Não há mais a idéia de Deus como princípio causador de tudo; agora, não há fontes de opressão que aprisionam o homem; por isso, ele pode respirar, esperando que paire em seu horizonte a nova aurora da liberdade.


Para Nietzsche, a afirmação “Deus está morto” é decisão existencial do próprio homem. Ele não se propõe afirmar que Deus não existe, nem não creio em Deus, mas, com toda a sua astúcia, ele pronuncia: quero que Deus não exista, deixando aqui todo o caráter da sua atitude profética, não o pensador em si. Ele considera Deus uma espécie de pesadelo que nos leva a uma fuga da realidade tal como ela é.


A subjetividade nietzscheana é, ela própria, uma das formas paroxístas da “ratio” que, não lhe bastando sublinhar a ausência do Ser, procura explicá-la. A razão leva à confusão entre o nada de Deus e a negação de Deus, entre a ausência de Deus e a morte de Deus. Ela é esta ilusão apolínea que oculta aos nossos olhos a tragédia da nossa liberdade. Ela está na origem da ausência de angústia , que é a pior das angústias.


O mundo é uma manifestação externa de Deus e Ele encontra-se manifestado nas obras de beleza criadas pelo gênio, tal qual se revela na sublimidade das montanhas e na glória das estrelas.
O homem, o simples homem – mesmo que seja o Super-homem – não poderá realizar a verdadeira cultura, se negar e rejeitar Deus e todos os valores transcendentes; não só deixará de cultivar as mais altas funções do espírito humano, mas acabará por impedir o desenvolvimento de todas as atividades culturais. A verdadeira religião não é inimiga, mas amiga da cultura, seja qual for o comportamento religioso individual das pessoas, e apesar das “religiões” unilaterais e anticulturais.
Com o nome “super-homem”, Nietzsche precisamente não se refere à superdimensionalização do homem até hoje vigente. Ele também não pensa uma espécie de homem que descarta o humano e que faz da arbitrariedade nua e crua a lei e da fúria titânica, a regra. Tomando a palavra em sentido literal, o super-homem (Übermensch) é o homem que vai para além do homem até hoje vigente, tão-só e sobretudo para trazer, e aí ratificar, este homem para a sua essência ainda pendente ou por vir.


Deve-se entender o homem da decadência, o homem do ideal cristão. É claro que o super-homem não está no apogeu de uma construção dialética ou de uma evolução: são todos os outros tipos humanos, inclusive os dos homens superiores, que se distanciam dele e comprometem sua vinda.


A palavra super-homem para designar o tipo da mais alta realização, em contraste com os homens “modernos”, com os homens bons, os cristãos e outros niilistas – uma palavra na boca de Zaratustra, o negador da moral, converte-se numa palavra que dá muito que pensar – e entendida em quase toda parte com total incoerência, no sentido desses valores cuja antítese manifestou-se na figura de Zaratustra, isto é, como o tipo “idealista” de uma espécie humana superior; meio-santa, meio-genial... Outros animais espertos e com chifres me fizeram suspeitar do darwinismo; mesmo o “culto dos heróis” que eu havia duramente rejeitado, de Carlyle, esse falso cunhador de moedas, sem o querer nem saber, foi reconhecido na palavra super-homem.


(**RIO DE JANEIRO**, 22 DE JULHO DE 2017)


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