Total de visualizações de página

sexta-feira, 28 de julho de 2017

À LUZ DE IAWEH E CRISTO - ENSAIO DE EXPERIÊNCIA MÍSTICA N´AS PALAVRAS DE SARTRE. - MANOEL FERREIRA NETO: ENSAIO


LITERATURA, FILOSOFIA E ENGAJAMENTO - PARTE IV......


É preciso entender que a recusa de “oferecer os seus serviços” nesse caso nada tem a ver com a autonomia da literatura no sentido abstrato. É exatamente a ética do engajamento que impede esse tipo de alinhamento ideológico, que seria apenas o inverso simétrico do alinhamento com a burguesia. O “exercício honesto do ofício literário” é um compromisso histórico, não um serviço. Ora, tal como a burguesia, o máximo que um partido pode aceitar do escritor é o serviço, e ainda assim, quando o serviço é livremente prestado, o partido sempre desconfiará de quem o presta. Pois a liberdade de aderir é também a liberdade de criticar, e o dogmatismo ideológico é levado a valorizar a primeira e execrar a segunda, o que faz do escritor sempre um tradior em potencial. Na verdade, a ideologia oficial sempre desconfia da liberdade, e, nesse sentido, observa Sartre, os partidos comunistas, que em princípio lutam pelo poder, comportam-se de maneira idência àqueles que já estão no poder. Assim, a doutrina marxista degrada-se antes mesmo de ser desgastada como ideologia institucionalizada: a planta seca antes de dar frutos.
Poder-se-ia aqui indicar Lesky, em sua tentativa de encontrar um estatuto para o trágico, uma interpretação percuciente de “o trágico, tanto na obra de arte quanto na vida, suscita identificações, por isso nos interessa, afeta e incube”. A filosofia, de acordo com a idéia de Sartre, suscita responsabilidade, engajamento, busca de fundamento, revelando-a, desmistificando-a – é também responsabilidade do escritor, filósofo desmistificar-se a fim de construir o seu fundamento, fundamentar sua liberdade - seguindo o seu encalço nas relações do indivíduo, processo histórico, a personalização.


O propósito que se encontra por trás desse método resulta da convicção do autor de que, contra o poder dos mitos predominantes e dos interesses estabelecidos, a força da razão analítica é impotente: não se substitui uma realidade existente, firmemente enraizada, “positiva” (no sentido hegeliano) pela mera negatividade de dissecção conceptual.


Para que a arma da crítica possa ter êxito, precisa estar à altura do poder evocativo dos objetos a que se opõe. Para que a faca destrince a carne do pescoço, é preciso ser pontiaguda, estar mais que afiada para contornar as agulhas, e o açougueiro ter habilidade e engenhosidade com os olhos e a mão. Eis porque


[...] o verdadeiro trabalho do escritor engajado é (...) revelar, desmistificar, e dissolver mitos e fetiches num banho ácido crítico (negrito nosso) .


Essa imagem demonstra a “eidos” do empreendimento.


Com a imagem da “faca”, podemos, com engenhosidade e arte, compreender o que é isto, a responsabilidade do historiador. Súbito, sente-se viva e forte a sensação de se estar nas trevas, aquela necessidade de detalhes e pormenores, às vezes perdidos, tornando inda mais necessário investigar, buscar a luz nas trevas, os contornos e estratégias, as perspicácias de intuição e observação, as destrezas de compreensão e entendimento .


É para evitar a opção pela “fria isenção”. O que está em jogo é a ofensiva geral contra as posições bem fundadas do bem-estar confortável, quer se apresentem como a “cumplicidade do silêncio”, ou sob qualquer outra forma.


Sartre deseja sacudir-nos, e encontra modos de atingir a meta, ainda que, no fim, seja condenado como alguém sempre em busca de escândalos. Os escândalos não são vistos pelos olhos do outro? Um olho manda o outro à merda, a tensão é necessária. É sempre mais simples tachar alguém – digamos, menor esforço – de escandaloso, polêmico, etc., etc., do que pensar com seriedade sobre o que está sendo dito e os propósitos da fala.


O outro ponto, a preocupação com a totalidade é igualmente importante. Sartre insiste em que a beleza da literatura está em seu desejo de ser tudo, de açambarcar o mundo e as coisas, ser testemunho da realidade, das contradições e dialéticas – e não numa busca estéril da beleza. Apenas um todo pode ser belo: os que não conseguem compreender isso – o que quer que tenham dito – não o atacaram em nome da arte, mas em nome de seu compromisso particular.


O modo por que Sartre se torna filósofo moral “malgré lui” fundamenta-se na caracterização do presente como totalidade inerte: um mundo morrendo de velhice, uma época de “revoluções impossíveis”, disseminando e intensificando o sentido de paralisia até mesmo pela consciência de “cataclisma” como única forma viável de mudança.


Como pode a proposição abstrata “um futuro bloqueado continua sendo um futuro” negar efetivamente tal tipo de depressão e de destruição? Apenas se dele se fizer um absoluto categórico que necessariamente transcenda toda temporalidade dada, por mais sufocantemente real que seja. Quem é o sujeito desse “futuro bloqueado”?


Se é o indivíduo, a proposição é óbvio falsa: o futuro bloqueado para o indivíduo está inexoravelmente bloqueado. Por outro lado, se o sujeito é a humanidade, a proposição é absurda: a humanidade não pode ter um “futuro bloqueado”, a não ser bloqueando-o para si sob a forma de suicídio coletivo, caso em que não há futuro, bloqueado ou não – e, neste caso, de fato, nem a humanidade.


Paradoxalmente, o significado existencial (não-tautológico) da proposição produz-se pela fusão do indivíduo com o sujeito coletivo. Seu significado não é, assim, o que literalmente sugere (uma tautologia ou, quando muito, uma banalidade, idiotice), mas o significado funcional de uma negação radical que não pode apontar para forças históricas palpáveis como portadoras de sua verdade e, por isso, deve assumir a forma de imperativo categórico: o dever moral.


Interessante observar é que a tradição histórica da moral é constituída ao longo do processo histórico da humanidade. A partir da pedra basilar do existencialismo, “a existência precede a essência”, o pro-jeto projeta o futuro, a moral.


A filosofia moral está implícita em todos os seus estudos, como ponto de vista positivo do futuro, que assume a forma de negação radical, embora incapaz de identificar-se com um sujeito histórico. Este conceito leva-nos de imediato à pedra angular da filosofia sartreana: a existência preceder a essência, fundamentando-a.


No sentido de expressar sua filosofia moral latente de forma plenamente desenvolvida, coisa que procura fazer seguidas vezes, teria de modificar substancialmente a estrutura de sua filosofia como um todo, inclusive a função, dentro dela, do dever moral categórico. Essa modificação, porém, deslocaria exatamente o dever moral na estrutura de seu pensamento.


Desse modo, só pôde produzir sua Morale deixando de ser filósofo moral. Curioso!... isso explica porque seus esforços conscientes, visando a transcender posições anteriores, resultam na reafirmação mais enérgica possível daquelas como a pré-condição necessária do “impossível empreendimento” em que está envolvido: a dedução de uma filosofia moral socialmente orientada a partir da estrutura ontológica da práxis individual.


Em se tratando do desenvolvimento de um escritor, o fator essencial é a maneira como reage aos conflitos e mudanças do mundo social em que está situado. Ensinar ao leitor não haver esperança de sobrevivência humana, se ele, o escritor, não estiver disposto a dizer o que acontece, a engajar-se, a ajudar a construir a esperança, dando-lhe um fundamento. Do mesmo modo, como Nietzsche, ser impossível fazer uma crítica ácida a Deus, ao cristianismo, se não a está fazendo à luz do Deus vivo, real.


Isso pode ser discriminado em dois elementos básicos: sua própria constituição (estrutura de pensamento, caráter, gostos, personalidade) e o grau relativo de dinamismo com que as forças sociais da época se confrontam mutuamente, arrastando-o de modo ou de outro para dentro de seus confrontos.


Descrever os intercâmbios entre um escritor e sua época em termos de “rupturas” é, na melhor das hipóteses, extremamente ingênuo em ambos os casos, pois nem o desenvolvimento sócio-histórico nem o individual caracterizam-se apenas por “rompimentos”, mas por configuração complexa de mudanças, continuidades. Há sempre mudanças sob a superfície de continuidades, e algumas básicas persistem, por mais radicais que sejam os rompimentos em determinadas regiões.


Uma sociedade compõe-se de múltiplas camadas de instrumentos e práticas sociais coexistentes, cada qual com ritmo específico próprio de temporalidade: fato que acarreta implicações de longo alcance para o desenvolvimento social como um todo.


A estrutura de pensamento de um indivíduo forma-se em idade relativamente precoce, e todas as modificações subseqüentes, sejam grandes ou pequenas, só podem ser explicadas como alterações da estrutura original, ainda que a distância transposta seja tão grande quanto a que vai do “leite à pimenta”.


Sartre pode dizer que L´Idiot é um livro, não de homenagem, mas de ódio a Flaubert. Pode dizer que Flaubert é o seu “contrário”, o “exato oposto” de sua “própria” concepção do escritor, encarnação de um “ideal formal” detestável, nas antípodas do que ele é. Pode dizer: é a continuação de As palavras; um epílogo imenso, mas necessário; Poulou - assim era chamado por seus familiares – ainda a persegui-lo e que é preciso acabar de se curar; a mesma “profunda e muito antiga conta” a acertar, “no interior da literatura”, mas também no interior de “si próprio”, com o objeto ideal literário; a continuação da mesma guerra; desmontar a marionete, quebrar as peças uma a uma, pisoteá-las.


O fato é que ele o escreve. É um livro magnífico, maravilhoso, em seu aspecto estético, embora não tenha sido preocupação dele; é, inclusive, sob muitos aspectos, a grande obra, a conjunção de talentos e dons, Marx e Freud misturados, Proust reencontrado, sua Moral enfim realizada, sua Política, Arte poética, o mais bem-sucedido de seus romances.


Em termos da dimensão estética, Herbert Marcuse, mostra que o fato de uma obra representar verdadeiramente os interesses ou a visão do proletariado ou da burguesia não faz dela verdadeira obra de arte. Esta qualidade material pode faciliar o seu acolhimento, pode torná-la mais concreta, mas de modo algum é constitutiva. A universalidade da arte não pode radicar no mundo e na imagem do mundo de uma determinada classe. A arte visiona uma humanidade concreta, universal, que não pode ser personificada por uma classe particular, nem mesmo pelo proletariado, a “classe universal”.


(**RIO DE JANEIRO**, 28 DE JULHO DE 2017)


Nenhum comentário:

Postar um comentário