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quinta-feira, 20 de julho de 2017

#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO X...........................


O Cristianismo remoto traz em si o profundo traço de supressão do Estado, onde o juramento, o serviço militar, a defesa pessoal e comunitária são proibidos; Cristo é um exemplo claro, quando não se defende nem reage aos que lhe fazem mal, além do mais, oferece até a outra face. Nele, há também a supressão da sociedade. Aquilo que era desprezado como os leprosos, prostitutas, pecadores, gentalhas e publicanos são elevados; já os ricos, nobres, eruditos, os virtuosos, os homens direitos são rebaixados ao desprezo.


O movente desta religião, como coloca o próprio Nietzsche, são as forças do ressentimento, da sedição popular, a insurreição dos deserdados que arrastam a uma ação.


Manifestam como vontade de superação das potências espirituais dominantes, procurando elevar os moventes que tornam acessível a virtude da felicidade aos humildes, tendo a prática da humildade como um regulador de todos os outros valores, fundado num postulado de que Deus existe e recompensará aqueles que negarem a própria vida aqui, remetendo-a para um além, um mundo espiritual.


O Cristianismo desenvolveu-se e se solidificou nas camadas mais baixas do povo, fazendo com que a fonte divina da vida jorrasse novamente.


Nietzsche não quer compreender o Cristianismo como a regeneração de uma raça, como uma juventude que surge, mas se trata de uma forma de decadência, de um enfraquecimento moral e uma paralisia envolvida no meio de uma população contaminada por uma doença coletiva que enfraquece os instintos humanos.


Esta religião imatura, que Nietzsche ousa chamar niilista, absorve no seu itinerário tudo que é decadente ou semelhante, isto é, tudo aquilo que é fraco e desprezível; tudo que é investido de moral: os injustiçados, desprezados, rancorosos e desgostosos, os próprios conspiradores da terra. Ele absorveu todas as espécies de enfermidades que reinam nos terrenos mórbidos. Eis aqui a essência do Cristianismo: uma espécie de decadência, onde há uma omissão àquilo que é mais natural ao homem, à vida; é uma negação da natureza humana.


É uma espécie de religião que despreza o corpo, omitindo os impulsos ocasionados pelos seus instintos, como também das descobertas realizadas a seu respeito, direcionando tais práticas a simples idéia de que esse proceder concorre para a natureza superior do homem, resultando numa redução de todas as funções do corpo a valores morais (Eles desprezavam de tal maneira o corpo que o tratavam como um inimigo). Tudo isso voltado para a metamorfose do homem natural, para o de caráter doentio, exaltado até a idiotia, como criatura transfigurada, como homem superior. Resume-se naquela raça de humildes, de espíritos fraternos, de negação à inveja que os levam a enxergar o que está no alto... Princípios estes oriundos das pequenas comunidades judaicas. Também dessas comunidades surgiu o princípio do amor que, nas palavras de Nietzsche, se apóia sobre a cinza da humildade e da miséria.


O amor possibilitou o mais elevado sentimento de potência no homem; onde nem mesmo a moral, a obediência ou qualquer ação produz aquela sensação de potência e liberdade que o amor emana.


É preciso compreender que o evangelho do amor que promete a vitória aos pecadores, aos doentes e aos pobres, cumpre-se por vias indiretas:


[...] uma política de vingança verdadeiramente grande, de uma vingança previdente, subterrânea, longamente premeditada e calculada de antemão...


Nietzsche parece levar ao extremo a velha acusação de impostura, lançada por diversos materialistas desde a Antiguidade e retomada pelos filósofos do século XVIII, contra a casta sacerdotal; mas que prova alegar, que indício pode justificar a hipótese de uma falsificação tão deliberada? Não cabe a uma crítica genealógica produzir documentos que comprovem decisões conscientes. Ela deve apreciar a força, a direção e a evolução de uma vontade de poder que, na sua maior parte, continua inconsciente. Nietzsche contenta-se em concluir afirmando:


Pelo menos uma coisa é certa: sob o signo da cruz, Israel, com sua vingança e com a inversão de todos os valores, sempre de novo triunfou de todos os outros ideais, de todos os ideais mais aristocráticos .


Chamamos a este amor sentimento de alteração da personalidade que culmina em Deus. Ele impede o homem de se amar, acreditando que este Ser caminhava junto de si, fazendo-se vivo em seu coração.


Deus vem entre os homens, o próximo se transfigura, torna-se Deus. Jesus é o próximo, desde que o pensamento o transforme em divindade, na causa que produz o sentimento de potência .


Através do nosso próprio pensamento, criamos uma divindade e passamos a viver em vista dela, isto é, quanto mais nos assemelhamos a este Deus, atingimos uma perfeição maior, até chegar ao extremo fim almejado que é a felicidade por meio da salvação.


Temos, portanto, no Cristianismo remoto, um esforço inocente “em direção a um movimento de paz rúdica, jorrando do verdadeiro foco do ressentimento...” mas que, a partir de São Paulo, ganha um novo aparato; passa-se a “uma doutrina do mistério pagão, própria para se adaptar, enfim, a toda organização do Estado... para guerrear, para condenar, para martirizar, para jurar, para odiar” . Fundamentou toda a sua doutrina nos dilemas do deus crucificado, existência depois da morte, o pecado, a ressurreição, a própria salvação pela fé, construindo uma seleção de idéias completamente voltada para a sua vontade, outrora arbitrária anulando de antemão o Cristianismo primitivo. Assim, possibilitou o surgimento de um novo sacerdócio e de uma nova teologia que imperava e reinava, ocasionando a edificação da Igreja.


Esta nova doutrina, como dizia Nietzsche, completamente oposta ao que fez e quis o seu fundador, posicionava-se na totalidade hostil


[...] à força de caráter, ao espírito e ao gosto; a felicidade clássica, a leviandade e o ceticismo culto, a altivez dura, a devassidão excêntrica e a fria frugalidade do sábio, o requinte grego na atitude, na palavra e na forma,


retomando exuberantemente àqueles princípios negados no seu início:
[...] a defesa pessoal, o julgamento de seus semelhantes, a punição, o juramento, a distinção entre um povo e outro, o desprezo, a cólera... .


remetendo a vida do cristão a princípios opostos ao que Cristo propusera, ou melhor, nunca praticaram os atos que Jesus prescreveu.


No meio de seus ataques desdenhosos e violentos ao Novo Testamento, Nietzsche poupa precisamente a pessoa de Jesus. Evidentemente, ele não pretende reconstituir, além das mentiras sagradas, uma “vida de Jesus”, como o fizeram Strauss e Renan, a partir de uma crítica histórica, sempre dominada por pressupostos mais ou menos hegelianos. O que Nietzsche quer estabelecer é um “tipo psicológico”, e o que a crítica genealógia permite descobrir é o tipo de um “santo anarquista” que morreu como criminoso político e não como salvador pela falta dos demais.


Assim, Nietzsche faz uma distinção entre o cristianismo, como uma realidade histórica, e o próprio Jesus Cristo. Primeiramente, ele alega que o credo cristão não foi ensinado por Cristo, resume-se numa falsidade de decepção, depois, a organização eclesiástica do Cristianismo é radicalmente anticristã. Cristo pregou uma vida, oferecendo uma vida real, uma vida de verdade para a vida vulgar. Ele não disse em que devíamos acreditar, mas como devíamos comportar. Ele ordena que não resistamos ao mal.


Já a idéia de um Deus pessoal, imortalidade da alma, vida após a morte, pecado, fé e redenção são dogmas despropositados e estranhos ao Cristianismo na sua essência. E é a partir desses moventes que essa nova doutrina procura destruir os fortes, fazendo com que sua força, os instintos e sua vontade de domínio se voltem para dentro, contra eles próprios, desfalecendo de si para se deixar infiltrar por uma potência estranha, tornando-se uma nova e desprezível religião vã.


(**RIO DE JANEIRO**, 20 DE JULHO DE 2017)


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