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sexta-feira, 7 de julho de 2017

#AFORISMO 14/IMAGEM DA SOMBRA NO CHÃO QUE É DE GIZ# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


Sim, mas agora, enquanto dura esta manhã de ideais e pro-jectos além dos lotes vagos da inconsciência e alienação, além dos jardins de delícias da terra maculada de idolatrias fúteis, reverências indecentes, este tempo de após chuva por toda a madrugada, esta neblina que cobre a montanha, esse friozinho ads-tringente, as flores, as folhas respingadas, essa paz que sinto no mais profundo de mim, quiçá por querer, ter vontade de cavalgar noutros prados, embora seja inacreditável, seja-me con-sentido crer o que jamais poderei ser, seja-me permitido nada saber do que já sei, do que desejava saber.


Ser de sou, em mim o verbo,
Que re-nasce, re-nascendo o re-nascer,
Que, re-nascendo o re-nascer, re-nasce o ser-da-vida,
Sou de ser, nos re-cônditos da alma,
A luz que alumina a morte e vida do verbo,
Iluminância que ilumina a vida e o eterno-do-ser,
Ilumin-idade que dessedenta a carência
Ilumin-itude que des-fomenta as ausências
Da sabedoria das Palmeiras do Inverno.


Ergo-me para uma nova manhã, manhã docemente viva, manhã efetivamente presente em todas as coisas, especialmente nas minhas retinas – quem dera pudesse con-templar as imagens que perpassam as minhas pupilas! quiçá as volúpias e êxtases fossem mais pujantes! A minha felicidade é pura, é o reflexo do sol na água, é a imagem da sombra no chão que é de giz. Cada acontecimento vibra em meu corpo como pontas finas de estalactites que se espedaçassem, que se tornassem simplesmente pó ou areia. Depois dos momentos curtos e profundos, mínimos e abismáticos, vivo com serenidade e calmaria durante longo tempo, quase impossível conceber a sua extensão, diria em termos dos alhures aos augures, com-preendendo, recebendo, resignando-me a tudo, sendo-lhe indiferente de todo. Parece-me fazer parte do verdadeiro mundo e estranhamente haver-me distanciado dos homens, haver-lhes desconhecido, ser indiferente a eles, se existem, se são frutos de imaginação fértil, isso muito pouco diz-me respeito, isto muito pouco me desperta para outras jornadas em busca da verdade. Embora neste instante consiga estender-lhes a mão com uma fraternidade e solidariedade de que eles sentem a fonte viva. Falo-lhes das próprias dores, falo-lhes dos desejos e esperanças, falo-lhes dos sonhos e da fé, e eles, embora não ouçam, não pensem, não falem, têm um olhar bom, um olhar compassivo.


Ser de quem sou...
A verdade me falta na continuidade do tempo,
O eu-de-mim é a busca dela:
Vivo manuscrevendo as entre-pedras de suas estradas,
As pedras em fileira das peças artísticas dos tempos de Martha Moura,
Sinto-me tecendo as linhas poéticas
Do diamante que risca o éter do apocalipse
Dos pretéritos das genesis às luzes das etern-itudes...


Distante da margem do rio de águas turvas, o impenetrável bosque de fetos verdeja ainda; é um bosque de folhas ondulantes, no qual o gado, pisando, traça permanentes veredas. Como nos dias da meninice, abria passagem violentamente, através da espessura, fundindo-me entre as plantas altas, nadando com as mãos, e procurando, às apalpadelas, onde pôr o pé. Inseto e répteis assustavam-se à minha aproximação.


(**RIO DE JANEIRO**, 06 DE JULHO DE 2017)


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