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quarta-feira, 26 de julho de 2017

ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: ESCULTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO XVI..........


Não devemos entender o estado religioso e artístico exaltado como os próprios extáticos religiosos e artistas se compreendem, como mediadores de grandes verdades ocultas.


Especialmente no cristianismo, existe a tendência de sentir-se pecador. De onde vem esse sentimento, o que está por trás dele? É espantoso que o ser humano se considere nada e pior do que realmente é. A religião grega antiga não atribuíra ao homem esse denegrir de sua percepção de si mesmo. Ao contrário: à medida que os deuses dividiam com os seres humanos suas virtudes e pecados, todos podiam se sentir desonerados. Os seres humanos até faziam espelhar nos deuses o lado escuro de sua natureza.


O “cristianismo” – algo que ninguém deve confundir com a figura histórica do Cristo. Porque em sua origem, antes de sua apropriação pelo espírito judaico, o cristianismo era outra coisa. O cristianismo primitivo, diz Nietzsche, nega a Igreja, a insurreição de Cristo foi contra a Igreja judaica, contra a casta sacerdotal. Originalmente, a “boa nova” era precisamente a de que não há contradições: o reino dos céus pertence aos fiéis, a fé não é algo conquistado, mas existe desde o princípio. E essa fé não se encoleriza, não censura, não se defende, não empunha a espada. Ela também não se “demonstra” com milagres, com prêmios ou com promessas – e muito menos com as Escrituras. Essa fé nem sequer se formula, ela se vive.


O Jesus histórico, tal como Nietzsche o descreve no aforismo 32 de O anticristo, já era quase um “espírito livre”: ele recusa todo dogmatismo. Esse “simbolista” está fora de todo prejuízo eclesiástico, fora de toda religião, de toda idéia de culto. Ele nunca pensou em negar o mundo, nem sequer suspeitou o conceito eclesiástico de mundo. O Cristo histórico desconhece as idéias de culpa, castigo e recompensa. Ele abole qualquer relação de distância entre Deus e o homem e é precisamente esta a “boa nova”: a felicidade não é prometida, não está sujeita a condições. O resultado é uma nova prática. O que distingue primitivamente o cristão não é uma fé, mas outro modo de atuar, que prescinde de uma doutrina judaica da penitência e da reconciliação.


Humano, demasiado humano responde à indagação pela origem do sentimento de pecado, e na obra futura de Nietzsche essa resposta será sempre variada. Ela diz: o cristianismo foi originalmente uma religião de pessoas que viviam em miséria e opressão, que não eram nobres e por isso não pensavam em si mesmas como seres nobres, uma religião de pouca auto-estima. O cristianismo enchafurdava os seres humanos definitivamente na lama profunda, na qual já estavam enfiados.


Quando se compreende como “o pecado chegou ao mundo”, ou seja, através de erros da razão, em virtude dos quais os homens entre si, e mesmo o indivíduo, se consideram muito mais negros e maus do que são de fato, então todo este sentimento é muito aliviado, e os homens e o mundo aparecem por vezes numa aura de inocência, de forma que o indivíduo se sente profundamente bem. Em meio à natureza, o homem é sempre a criança. Esta criança tem às vezes um sonho pesado e angustiante, mas ao abrir os olhos está sempre de volta ao Paraíso .


Nesta obra, nos pensamentos sobre arte, fica especialmente nítido o que Nietzsche quer dizer quando no prefácio chama sua experimentação com o Iluminismo de gesto e olhar iconoclasta em retrospectiva. Até meados dos anos setenta, Nietzsche chamara a arte de a “verdadeira atividade metafísica”, e agora entra no seu templo com a força da vontade de lucidez e descrença.


O artista sabe que a sua obra só tem efeito pleno quando suscita a crença numa improvisação, numa miraculosa instantaneidade da gênese; e assim ele ajuda essa ilusão e introduz na arte, no começo da criação, os elementos de inquietação entusiástica, de desordem que tateia às cegas, de sonho atento, como artifícios enganosos para dispor a alma do espectador ou ouvinte de forma que ela creia no brotar repentino do perfeito. – Está fora de dúvida que a ciência da arte deve se opor firmemente a essa ilusão e apontar as falsas conclusões e maus costumes do intelecto que o fazem cair nas malhas do artista .


Goethe pertence a um gênero de Literatura superior às ´literaturas nacionais´. Assim, não está em relação viva com sua nação, e a novidade ou a caducidade não o afetam. Só viveu e vive, todavia, para poucos. A maioria não é mais que uma fanfarra de vaidades que cada tanto se faz o mar mais além das fronteiras da Alemanha.


Diz Nietzsche que Goethe, em seus poemas, descuidou dos alemães, porque desde qualquer ponto de vista estava muito acima deles. Goethe concebeu um homem forte, culto, hábil em todas as atividades corporais, refinado em si mesmo e respeitoso de si mesmo, capaz de atrever-se a sentir alegria pela amplitude e riqueza do natural, pois tinha forças suficientes como para exercer semelhante liberdade.


Ele espreita seu próprio entusiasmo e alimenta a suspeita de que nele possivelmente se escondem um pensamento impreciso, sentimentos nebulosos, fraquezas e mistificações de toda sorte.
Continua vivo em Nietzsche o projeto de Goethe e Schiller a respeito do que deve ser a obra de arte moderna e da importância de uma reflexão sobre a Grécia para repensar o mundo moderno. Com eles, o jovem Nietzsche também se sente como um pensador que pode entender melhor sua época por meio da Grécia antiga.


Isso não significa que Nietzsche aceite os dados iniciais do problema, isto é, a caracterização da Grécia pela serenidade, como se os gregos tivessem sido exclusiva ou essencialmente apolíneos. Criticando os pensadores que tiveram essa visão do problema, Nietzsche relacionará a serenidade como um aspecto mais profundo da Grécia: o dionisíaco. Se, então, ele critica o que pensadores como Winckelmann e Goethe disseram da serenidade grega, é por considerar que a Grécia só pode ser pensada a partir do fundo asiático do dionisíaco, que não teria sido levado em conta por eles.


Essa busca de um outro princípio constitutivo do mundo grego não é, porém, uma originalidade de Nietzsche. É, como temos visto, uma constante em toda a interpretação da Grécia desde o nascimento do trágico, isto é, da interpretação filosófica ou ontológica da tragédia como apresentando uma visão trágica. A continuidade de Nietzsche com a reflexão sobre o trágico que o antecedeu está no fato de sua estética ser uma metafísica que interpreta a tragédia a partir da dualidade de princípios. O que talvez explique a crítica violenta que os filólogos lhe fizeram na época da publicação do livro, a ponto de, no ano seguinte, ele ter ficado praticamente sem aluno a quem ensinar.


A valorização metafísica da tragédia grega, que teria sido invalidada pelo racionalismo socrático, do qual a modernidade é mais uma metamorfose do que uma crítica radical, implicará que a imitação dos gregos só pode ser, para Nietzsche, um renascimento de uma arte dionisíaca. O aforismo 16 do livro diz que o renascimento da tragédia é uma das “bem-aventuranças para o ser alemão”. O aforismo 19 prevê que “tudo o que chamamos agora de cultura, educação, civilização terá algum dia de comparecer perante o infalível juiz Dioniso”. E o aforismo 23 termina dizendo: “Se o alemão olhar, hesitante, à sua volta, em busca de um guia que o reconduza de novo à pátria há muito perdida, cujos caminhos e sendas ainda mal conhece – que ele ouça o chamado deliciosamente sedutor do pássaro dionisíaco que sobre ele se balouça e quer indicar-lhe o caminho para lá”.
O verdadeiro indivíduo está entre um Deus que teria de ser pensado como liberdade absoluta e um autômato, que seria o produto do princípio fatalista. O indivíduo não deve nem se curvar para um deus nem para a natureza, não deve nem se volatilizar nem se coisificar.


Passado um século e alguns anos, no entanto, o que vemos nítido e transparente parece ser o equívoco da “afirmação” nietzscheana: “Deus está morto” – embora haja de se considerar que a filosofia de Nietzsche não tenha sido compreendida e entendida, prevaleceram o preconceito e discriminação, o que até o presente dificulta bastante a contemplação e conhecimento; em verdade, o que Nietzsche realmente critica é a absolutização de Deus.


Deus, hoje, está no “menu” de todas as filosofias, teologias, no “menu” de todas as mesas. O Deus de Jesus é amor. O Deus que Jesus prega, o Deus que Jesus é, é Amor. Se lhe não servirem o verdadeiro Deus, ao homem, o que pode ele esperar de seu pão de cada dia, e neste sentido, a busca de fundamento de Deus, de Sua eterna generosidade, compaixão, solidariedade, amor puro, cabe ao homem aceitar ou rejeitar, mas com a perspicácia de ouvir ambos os lados, de conhecer as religiões, buscar a “adesão” ao que amadurece, torna o conhecimento a pedra angular de nossa VIDA , habitando-lhe o espírito e alma, a FÉ. O conhecimento das religiões, a vida e vivência, a experiência da busca da VIDA, significa desejar a verdade com autenticidade. Se lhe servirem isto no cardápio que é oferecido, reconhecer significa antes in-vestigar.


(**RIO DE JANEIRO**, 25 DE JULHO DE 2017)


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