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segunda-feira, 24 de julho de 2017

ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: ESCULTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO


DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO XV.......


Heidegger também interpretará a doutrina da vontade de potência como a expressão mesma da permanência de Nietzsche no leito da filosofia tradicional. A doutrina da vontade de potência – assegura Heidegger – é essencialmente metafísica, pois com ela se investiga a arché dos entes em sua totalidade. Se a pergunta por execelência da metafísica é “que é o ente?”, Nietzsche prossegue por sua própria conta esta tópica tradicional, integra-se à estrutura dessa questão.


A filosofia de Nietzsche constituiria o fim da metafísica ao reatar com a questão da metafísica, tal como esta foi originalmente formulada pelos gregos. Se Nietzsche define sua filosofia como um platonismo invertido, esta inversão não suprime a posição fundamental platônica, mas, ao contrário, a consolida. Por isso, aos olhos de Heidegger, Nietzsche será o último metafísico do ocidente, já que a vontade de potência é um princípio que determina a essência e o fundamento dos entes em sua totalidade.


Que significa afinal que Deus tenha se tornado homem em Cristo? Significa a certeza de que vale a pena ser homem. Não somos seres humanos ainda, estamos nos tornando isso. Portanto, é preciso entender que “somos responsáveis por nós próprios, que uma censura pelo fracasso na vida deve valer só para nós, não qualquer outra força superior” (J, 2,63). Somos os únicos responsáveis por o que vivemos, por o que nos tornamos. Seremos seres humanos a partir da responsabilidade por nós próprios, da liberdade de nos criarmos, recriarmo-nos.


Apesar da sua brusca crítica à religião, sobretudo ao Cristianismo, Nietzsche atribui positiva e benéfica função à religião. Entre elas, afirma que, talvez, não haja nada tão admirável, maravilhoso no Cristianismo e no Budismo como a sua arte de ensinar, mesmo aos mais baixos a elevarem-se a uma ordem de coisas aparentemente superior e, desta forma, conservarem-se satisfeitos com o mundo atual, em que eles julgam bastante difícil viver, sendo esta própria dificuldade uma necessidade.


O budismo é mil vezes mais realista do que o cristianismo – ele carrega a herança da colocação fria e objetiva dos problemas, ele vem após séculos de contínuo movimento filosófico, o conceito de “deus” já foi abolido quando ele surge. O budismo é a única religião realmente positivista que a história tem a nos mostrar, até mesmo em as teorias do conhecimento (um rigoroso fenomenalismo -), ele já não fala em “combater o pecado”, mas sim, fazendo inteira justiça à realidade, em combater o sofrimento”. Ele já deixou para trás – algo que o diferencia profundamente do cristianismo – a trapaça consigo mesmo que são os conceitos morais – ele se acha, usando minha linguagem, além do bem e do mal .


Talvez o cristianismo fosse um novo encanto da vida. Ele oferecia ao convertido um drama espiritual de pecado e redenção. E os outros encontravam seu divertimento assistindo aos mártires, ascetas e santos estagiritas, depois de se terem embrutecido com a visão dos combates entre animais e seres humanos.


Com essa explicação, permanecemos enchafurdados na genealogia histórica do cristianismo. Com ela, seu papel nos sentimentos das pessoas até o presente ainda não foi compreendido. Para avançar nesse terreno, Nietzsche aprofunda-se na psicologia dos santos, mártires e ascetas, nos quais cresce com especial vigor essa rara planta dos sentimentos religiosos.
Nessas virtuoses da religião, mostra-se o incrível poder da auto-exaltação, as energias extáticas que agem no sentimento religioso. Os santos e ascetas combatem dentro de algo que consideram baixo e vulgar. Mas também combatem nos dois lados: eles são os miseráveis e são o triunfo, são o inferior e o sublime, a impotência e o poder. O asceta, o santo, o mártir triunfam rebaixando-se, e na humilhação estão cheios de orgulho.
O ser humano internamente rico vive em uma sala de espelhos. À medida que de um lado olha no claro espelho de sua imagem divina, sua própria natureza lhe parece obscura, e singularmente distorcida. Em seus momentos mais silenciosos, porém, ele sabe que o espelho claro nada é senão um Eu aumentado, sabe que, no espelho divino, ele enxerga suas melhores possibilidades, pelas quais se sente ao mesmo tempo exaltado e humilhado.
De onde vem a distância do discurso filosófico de Nietzsche em face dos empreendimentos do “sábio”, do “santo” e do “redentor do mundo”? Esses empreendimentos estão todos eles calcados em convicções, em certezas, e são exatamente essas convicções que os discípulos buscam. Mas Zaratustra é cético, ele não fornecerá convicções a ninguém. Logo, ele nunca se tornará chefe de seita.


Que ninguém se deixe induzir em erro: os grandes espíritos são céticos. Zaratustra é um cético. A força, a liberdade que vem da dorça e sobreforça do espírito prova-se pela skepsis. Homens de convicção, em tudo o que é fundamental quanto a valor e desvalor, nem entram em consideração. Convicções são prisões .


Assim, quem fala sob o discurso de Nietzsche é o oposto do homem de convicções da tradição: quem fala ali é o “espírito livre”, uma figura antiplatônica por excelência. E é a este personagem que se deve dirigir a atenção para verificar o que se tornará, doravante, a “filosofia”. Qual é o rosto do “espírito livre”, este inimigo confesso das convicções e das certezas?


Nietzche o descreve em Humano, demasiado humano. O espírito livre é alguém dedicado ao conhecimento, que desdenha a veneração das massas e atravessa o mundo de forma tão silenciosa quanto dele sai. Sendo “inatual”, o espírito livre não tem amarras com a “opinião pública”. Seu oposto imediato, o homem de convicções, é aquele que crê estar em posse de verdades definitivas e, por isso mesmo, tem por postulado não poder ser refutado. O espírito livre, ao contrário, nunca fixa opiniões em convicções: ele impede essa fixação por constantes variações e só terá ao seu dispor probabilidades exatamente mensuradas.


Para Nietzsche, o ser humano religioso em seus grandes momentos busca o mesmo que também quer um artista: a emoção violenta. Ambos são suficientemente imodestos para tocar o Inaudito, mesmo que se sintam aniquilados por ele. Este tipo de naufrágio é para eles o pico de encantamento do mundo. Porque essa entrega ao Inaudito é uma obsessão comum de religião e arte.


A emoção violenta nas percepções religiosas e na arte é naturalmente algo extraordinário, uma intensidade, e ao mesmo tempo distensão, também um desencadear de forças criativas, euforia do sucesso, irradiar e ser inundado de força, estado exaltado, mas não há nisso uma verdade mais alta.


(**RIO DE JANEIRO**, 24 DE JULHO DE 2017)


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