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sexta-feira, 28 de julho de 2017

#AFORISMO 66/AD-VINDO DO "ESCÁRNIO", O AFORISMO-DE ESCÁRNIO" - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO


"O outro prende(colhe, apanha) da desconfiança mútua, do receio, da humilhação, a secreta perfídia." (Manoel Ferreira Neto)


Epígrafe:


"Densidades e tensidades, aquando esmagam-se conceitos e preconceitos estapafúrdios e inespecíficos às condições humanas." G.F.


No meio dos homens, não posso conversar, dialogar, calar-me, dar gemidos, uivar... seja única e exclusivamente por não ser de índole tacanha de quem encena ser de prosopopéias – a vida tenha me ludibriado e, de súbito, me visse no meio de grande círculo e milhares de braços estendidos a toda roda apontassem sobre mim dedos ossudos de escárnio.


Escárnio... O que há-de sê-lo, sê-lo-á, não há como tripudiar, engabelar, trambicar, ad-vindo do "escárnio" o aforismo-de escárnios, inda mais dotado de humores, implícitos ou explícitos, o que há de importância neste pormenor?, "mãos ossudas de humores satíricos e sarcásticos", com elas, ad-versus, colherei frutos inestimáveis.


Escárnio-de de volúpias fúteis do ser e não ser, a efígie da verdade.
Escárnio-de intuições soberbas da beleza do belo, versos melados de paixão,
Escárnio-de inspirações pernósticas da in-verdade e verdade, prosa de razões práticas, ad-verso in totum às lições da queda fazer com que se perca tudo o que poderia possuir no céu e agora quer adquirir outro bem na terra.
Escárnio-de vontades da liberdade, libertinagens sensuais do sem-limite, prazeres obtusos.
Escárnio-de desejos psicodélicos da consciência, o que jamais nunca morre.


O uivo será para a noite. Quando? Sentado ao parapeito da janela, vendo o tempo armar chuva. Pingos escoam refolhados de agouros. Vão direto para o bueiro, carregando papéis, tocos de cigarro, canetas sem tinta, casca de fruta qualquer. Permitisse a minha condição ser carregado, levado para dentro de mim, colocando o “mim” para fora? Não. O “si”, fora. A luta é unir o “mim” e o “si”. Atiro patadas furibundas ao uivo. Cerro os dentes com ódio. Calúnia. Chamo-me imbecil. O ímpeto travado na boca, reflui, enfim, vencido, julgando eu por isso que vou sossegar.
Para que estou no mundo?


A morte recusa-me características. Biselou-se. Crio estilo, a fim de destrinçar sua compreensão. Crio estética, a fim de descarnar o nada. Crio símbolos, a fim de inserir-me na morte para não me extinguir. Crio cenário, cujo intuito pleno de re-presentar as mímeses do riso. Se penso, sou sincero e sério, crio até moral, embora com o conhecimento de que é fuga, medo, sentimento de culpa. Trabalho vão. Não sou nascido crente absoluto na Moral de ovelhas. No papel, estou isento de dores, mágoas. Indo... Adeus, nada. Adeus, biselados!... Apodrecerei. Serei cheiro fétido.


Se é verdade que o presente para mim é passado e, a todo instante, reúno o passado enquanto situações e experiências vividas, buscando con-templar o presente, e este é passado, de acordo com o que penso, então cria-se uma tensão enorme, em conseqüência de querer algo realizado, talvez com este mergulho no nada, esteja eu buscando explicar como é que desta verdade em mim, há momentos em que sobremodo duvido disto, nasceu o cinismo, ironia, sarcasmo em minha visão de mundo.


Ouvira dizer, desde tempos imemoriais, os deuses uivavam de solidão, necessitavam do amor e da solidariedade dos homens, Zeus inda mais por se ajuizar ser o egrégio deus do Olimpo referir-se ao fato de que ele olhava para os homens com negligência e escárnio. Ouvira alguém dizer num sonho, estava andando no bosque no entardecer, a voz, olhara ao redor nada vira. Morrer o que nunca passa, se o escárnio é pedra angular para esclarecer os verbos defectivos da liberdade e consciência? Jamais... nunca passa!


Tinha de ser tomada uma providência, antes de levar-me ao circo, aquando era criança. Se não tomasse essa providência específica, corria-se o risco de ter de levar-me carregado com a cabeça no ombro da pessoa, dormindo. A cena do palhaço era sempre a última. E eu era levado ao circo para ver os palhaços. Era necessário levar um lenço embebido nágua para passar-me no rosto todas as vezes que cochilava. Talvez acreditasse eu que o sono iria fazer com que o tempo passasse rápido e eu pudesse acordar-me no momento da apresentação mais querida e estimada. Quiça cresse, o riso é o verbo do palhaço, senhor em criar o riso, a gargalhada. O escárnio é o verbo de mim, crio risadas, cochichos, fofocas, palavras mansas ao pé do ouvido, crio escárnios, olhares de esguelha, polêmicas. Graças à alma - haveria quem o contestasse?, acredito que não; pode, contudo, mostrar outro prisma de visão -, os seres são capazes de uma atividade especificamente humana.


O absurdo maior não é morrer. Sedes esgalgam ventos a trancafiarem loucuras ensandecidas. À miséria e corrupção, de últimas palavras, cálices trancam cinzas processadas de carne humana. Tragédias e farsas de identidades enjaulam sons res-valados até ao derradeiro delírio. Tragicomédias e hipocrisias de conceitos e definições absolutos imiscuem-se no "vago" dos lotes, no baldio dos terrenos. A língua ininteligível encarcera amores, mesquinhas infâmias. O outro prende da desconfiança mútua, do receio, da humilhação, a secreta perfídia.


Embora toda a angústia, preciso continuar os passos de lagartixa na parede à busca de um bichinho que mate a fome. Até chegar a hora de encerrar-me no buraco da parede.


(**RIO DE JANEIRO**, 28 DE JULHO DE 2017)


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